Os fins não justificam os meios ou, no mundo automóvel, nem sempre vale tudo para vender mais. Qualquer uma destas conclusões encaixa na deliberação do Instituto de Autodisciplina Publicitária (IAP), que se viu confrontado com a necessidade de se pronunciar a respeito de uma agressiva campanha de descontos lançada pela BYD naquele mercado, que tinha a particularidade de tentar capitalizar o “sonho” de conquistar mais clientes à boleia do “pesadelo” dos motores PureTech, que tantas dores de cabeça têm vindo a dar à Stellantis. Na ânsia de atrair proprietários de outras marcas, os chineses da Build Your Dreams lançaram uma campanha publicitária sugestivamente denominada “OperazionePureFication”, numa clara evocação aos PureTech.
O incentivo? Até 10.000 € de desconto para quem trocasse um carro equipado com um destes motores por um modelo BYD. A PSA Itália (integrada no grupo Stellantis) não gostou — nem do conteúdo, nem do objetivo da iniciativa, considerando que a campanha denegria a imagem da marca e criava prejuízo comercial. Queixou‑se ao IAP… e venceu. O organismo italiano pronunciou-se a favor dos queixosos, tendo ordenado a retirada imediata da campanha da BYD em Itália, por considerar que esta violava não um, mas três artigos do código de autodisciplina que regula o sector, nomeadamente publicidade enganosa, comparação e difamação.
A acção promocional em causa foi lançada em Janeiro, tendo como suportes de divulgação todos os tipos de meios, à excepção da rádio. Mensagens difundidas nas redes sociais, online, na televisão e na imprensa como “A sua correia está a sair? Damos-lhe um pouco mais: 122.000 engenheiros de investigação e desenvolvimento, 60.000 patentes registadas, 250.000 km de garantia” foram consideradas uma afronta às boas práticas comerciais e repudiadas pelo IAP. O mesmo criticou outras tiradas publicitárias como “Mas não está na hora de mudar? Problemas com a correia? Com a BYD, você simplesmente… a tira!”, ou “Tem correia banhada a óleo? Lamentamos que para si seja sempre Blue Monday – descubra os bónus exclusivos da BYD Operação PureFication.”
Os bónus oferecidos pelo construtor chinês incidiam em modelos como o Dolphin, Atto 2, Seal, Sealion 7, Seal U, Seal 6 DM-i e Seal U DM-i. No caso deste último híbrido plug-in, os clientes poderiam ter o desconto máximo da campanha, nada menos que 10.040€. Em contrapartida, para usufruir de tal benesse, teriam de cumprir uma série de requisitos. Desde logo, os novos clientes da BYD teriam de fazer prova que eram proprietários de um veículo a gasolina com correia imersa em óleo, sustentando a sua elegibilidade para o desconto com o certificado de propriedade do veículo e a documentação técnica oficial respeitante à motorização.
Recorde‑se que os motores PureTech, lançados em 2012, utilizam correia de distribuição banhada a óleo — uma solução já vista em marcas como Ford (1.0 e 1.6 EcoBoost) e Volkswagen. O problema, no caso da Stellantis, é os motores PureTech 1.0 e 1.2 acusarem falhas recorrentes por causa da parca durabilidade da correia, que funciona no interior do motor, circulando lubrificada pelo próprio óleo do motor. Sucede que os químicos aí presentes causam o seu desgaste precoce e, com isso, vêm as chatices, porque se os fragmentos da correia entram no cárter e comprometem o sistema de lubrificação, no limite, isso pode levar à avaria do motor. É certo que há muitas vantagens deste tipo de correias (húmidas) face às secas, desde um funcionamento mais silencioso a uma maior eficiência (baixa o atrito, baixa também o consumo), mas na hora de reparar, a factura tende a ser mais elevada, porque exige a abertura do motor.
O problema arrasta-se até hoje, pois mesmo a terceira geração dos PureTech – já com a correia original substituída por uma corrente (como na foto) – não se “livrou” de afectar mais de 200.000 carros produzidos entre 2023 e 2025. A Stellantis não só reconheceu o problema, como procurou dar uma resposta satisfatória aos clientes, cobrindo 100% dos custos até 10 anos (extensão da garantia) ou 180.000 quilómetros para peças e mão-de-obra. O grupo criou ainda uma plataforma dedicada, onde os clientes podem expor o seu caso e solicitar o reembolso ou indemnização.