A reunião tinha sido convocada depois de uma noite eleitoral em cheio para o PS, que há 20 anos não via um socialista chegar a Belém. E à porta da Comissão Política Nacional, José Luís Carneiro ainda teve um bónus: a demissão da ministra Administração Interna. A reunião acabou num misto, entre o regozijo pela vitória de António José Seguro e o caminho que o PS deve seguir perante um Governo atrapalhado — e para o qual Carneiro conta com o novo inquilino de Belém.

José Luís Carneiro deixou claro o que pretende, ao queixar-se, na intervenção inicial da reunião, da falta de uma resposta do Governo à disponibilidade socialista para uma convergência em temas como a saúde, habitação e nas áreas de soberania. Voltou à indignação que já tem tido com uma equiparação do PS ao Chega, classificando-a como “intolerável”. E concluiu dizendo que se o encontro entre a AD e o PS não acontece, isso não se deve aos socialistas.

O partido está pouco interessado em crises políticas, nesta altura e com o Chega a consolidar terreno (o crescimento de André Ventura nas presidenciais deu o seu contributo), ao PS resta promover-se como a oposição responsável, mostrando-se disponível para entendimentos com o Governo. E, assim, diferenciar-se do  partido com que agora se acotovela na oposição.

Para este trabalho conta com um aliado caído do céu. Depois de uma gestão sofrida das presidenciais, com a resistência a Seguro a dar lugar a um apoio pouco convicto ao mesmo Seguro, Carneiro tenta aproveitar a onda. Antes de entrar para a reunião, em declarações aos jornalistas, revelou que está a contar “com o contributo” do Presidente da República eleito para que “o Governo possa responder às propostas que o PS tem vindo a fazer ao longo destes meses.”

Disse mesmo ser “natural” ter esta expectativa tendo em conta “as palavras do Presidente [eleito], que quer contribuir para que os partidos se entendam em matérias fundamentais para a vida das pessoas”. Essa “afirmação está em conformidade” com a posição do PS, disse nas mesmas declarações.

Admitiu que “é bom” ter um Presidente da área do PS, passados 20 anos, exemplificando logo com  a posição de Seguro sobre a reforma laboral. “É para nós algo que dá força àquilo que foi uma posição que tomamos durante todo o verão a denunciar a desumanidade das leis laborais que o Governo quis aprovar”. Fez o mesmo em relação à prioridade que o Presidente eleito deu à saúde para o seu mandato em Belém.

“Saber que há um novo presidente eleito que defende estes valores é para nós uma garantia fundamental”, disse mesmo José Luís Carneiro colocando peso em Seguro ao mesmo tempo que garante saber que as águas estão separadas, entre PS e Belém: “Esse é um pressuposto fundamental da separação de poderes.”

Tanto na reunião, como fora dela, o líder socialista não deixou de atirar a um Governo que diz ser “insensível”. Afinal, mesmo em cima daquele encontro socialista a ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, tinha apresentado a demissão. “A prova de que o Governo falhou na resposta a esta emergência, a esta tempestade”, apressou-se a dizer o antigo ministro da Administração Interna mal entrou na sede nacional do partido, em Lisboa. Ao mesmo tempo defendeu que “não é por substituir a ministra da Administração Interna, ou no outro dia qualquer a ministra da Saúde, que os problemas se resolvem de per si.”

A adivinhar que esta possa não ser uma alteração isolada no elenco de Luís Montenegro, o líder do PS considerou ainda que “há um problema de acerto do Governo na resposta às crises, de que esta é apenas a expressão mais recente. Todos temos bem consciência do que foi a gestão do apagão no país”, lembrou sobre outro momento de crise. Carneiro segue o guião do desgaste político do Governo, mas de mansinho, até porque o partido não acredita ter condições eleitorais para poder voltar a ser poder tão cedo.