O que será mais fácil? Obter um número elevado ao lançar o dado ou garantir a longevidade de um restaurante numa cidade em mudança acelerada? Pessoalmente, saiu-nos um magro um, com pouca sorte ao jogo mas franco sucesso a experimentar o conteúdo que esconde cada uma das três tacinhas que tapam o mistério. No caso do Miss Jappa, cumprem-se 10 anos de portas abertas no Príncipe Real e as regras do jogo mantêm-se: uma relação qualidade-preço que não assusta carteiras e justifica voltar (um caso cada vez mais raro, como a famosa Roleta Russa de Gunkans, que inclui uma peça mistério com malagueta acompanhada por um shot de saké). “Na linha do tempo, dez anos é quase jurássico, mas no bom sentido. É um grande orgulho”, define um dos sócios, Diogo Martorell, num dia reservado à apresentação de novidades.

Com o filme Lost in Translation em pano de fundo, o restaurante de gastronomia japonesa nascia em 2016 pelas mãos da chef Anna Lins, que à época lançou aquele ex-libris da carta e que regressa agora para soprar as velas da data redonda e introduzir 14 novas experiência. Da revisão da tal roleta nasceu o The Bomb (4peças/12 euros), mais um momento lúdico à mesa com um trio de sushi bites de atum, salmão e camarão em que o grande vencedor do dado recebe a “bomba”, uma peça única saída do sushi bar (que inclui um copo de shot inspirado no cocktail Tokyio Garden, com um toque de ginger ale, lemongrass e gengibre).

O dado está lançado: só falta ver quem começa o jogo, escolher uma taça e ver se há prémio escondido na base

É deste que sai também outro dos momentos novos criados por Lins: o crudo de atum braseado (13,50 euros), com abacaxi picado, fios crocantes de beterraba, cebolinho, chili lime e molho de soja fumado. E ainda o TKG donburi (20,50 euros), um arroz de sushi, salmão, atum, corvina, gema de ovo, cebolo, sementes de sésamo e [o tempero picante japonês] shichimi togarashi, para uma nota mais robusta.

O crudo de atum braseado

Anna Lins traz ainda uma dose de comida de conforto com o Oniri grelhado (2 peças, 7,50 euros), uma revisão do pastel de arroz com carne temperada com cebolinho e gengibre, envolva em alga nori finalizada com uma crosta de queijos mozzarela e parmesão, para um pé nos laticínios, enquadra a chef que se iniciou no Midori, no Penha Longa, pioneira no feminino nesta vertente, passou pela Bica do Sapato e QB Essence, e fundou o Umai e Izakaya. Em 2015 assumiu a chefia executiva do Go Natural, a cadeia de comida saudável que Diogo e a irmã Joana Martorell fundaram em 2004, e cuja venda foi concluída ao grupo Sonae em 2020.

Desde 2022, Lins lidera o departamento de desenvolvimento de produto da Cateringpor, criando conceitos para companhias aéreas como Tap, Emirates e Delta Airlines. Partilha ainda nesta reformulação um tataki negro de salmão braseado, ovas ikura, alga nori, molho de agrião e um fio de leite de coco, “um bebé com dez anos que vem da primeira carta”.

Os chefs Anna Lins, Natalie Castro e Nuno Gonçalves

Lins tem companhia nesta jornada — e no ciclo de jantares pop up que arrancam nos dias 26 e 27 de fevereiro. “Três chefs numa cozinha mínima vão estar um pouco aos encontrões”, arrisca Diogo, antecipando o que nos espera, mas no resto dos dias o cenário deverá fluir com muito mais serenidade. “Temos uma pessoa a assumir a coordenação das manobras, mas optámos por não ter um chef executivo permanente na casa.”

Foi no Afuri que Nuno Gonçalves se especializou no ramen, uma vez descoberta a paixão pela gastronomia japonesa em viagens pelo extremo oriente e através do chef Paulo Morais. Passou pelas cozinhas do Rabo d’Pexe, Senhor Uva e liderou o Sugoi. Depois, lançou-se a solo na criação de pratos originais. Encontram-no ao leme da conta Ramen.pt, e do The Ramen Supper club na Oficina Oito, e aqui revelado em alguns novos momentos da carta. A inspiração da street food asiática concretiza-se com o único prato de udon na presente na carta, o Zaru Udon (11,50 euros), uma bela combinação de massa udon, cachaço de porco, molho de amendoim, coentros e pepino, com um toque de picante.

O Zaru Udon

Claro que o ramen não podia ficar esquecido nestes convocados em estreia: uma das estrelas é o Tokyo Shoy Ramen (16 euros), um caldo rico de frango, com cachaço de porco, óleo de chalotas, cebolo, gengigre e ovo ajitama. No capítulo vegetariano, palco para o Kinoko mison ramen (15 euros), com caldo de miso, alga kombu, shiitaki, aji inari fumado, cebolinho, cogumelos ostra e ovo ajitama, uma experiência que eleva os níveis de doçura graças ao leite de aveia. Mas antes de mais, atreva-se a lambuzar por completo os dedos com uma entrada de asas de frango deep fried, cebolo, molho de soja, mirij, gengibre, e sementes de sésamo. Chamaram-lhe Nagoya tebasaki (4 peças, 9 euros) e é “finger food para comer sem vergonhas”, desafia Nuno.

O Tokyo Shoy Ramen

Para mais uma ponte entre culturas, também Natalie Castro se junta a esta equipa de convidados para cruzar referências nacionais e nipónicas. Basta pensar no seu Cngee com amêijoas e coentros (19 euros), uma canja-quase-papa caldosa para unir fusos (tome nota, são cinco doses de água para cada de arroz), que vai buscar as sopas de conforto do oriente e os petiscos estivais de inspiração algarvia. A interpretação luso-japonesa segue ainda com um Roru Kyabtesu (9 euros), uns rolinhos de couve-lombarda recheados com carne picante, tomate, gengibre, alho mirin, sake e molho de soja. Será Castro a inaugurar a série de jantares pop up com um menu pensado como um diálogo entre a gastronomia portuguesa e a identidade do restaurante, enquanto se tem dedicado a preparar um novo projeto ligado à gastronomia portuguesa. Os mais atentos andarão a acompanhar os seus pop ups recentes (e não esquecem no curriculum a sua passagem, até ao ano passado, pelo ISCO, em Alvalade.)

O congee de amêijoas

Com uma carta de sakés e vinhos reformulada, conte ainda com a manutenção de clássicos do alinhamento Miss Jappa, como o mix de snacks japoneses ‘Quantos queres’ a abrir  as hostilidades; os diferentes baos, a panqueca de couve na chapa com camarão; ou as diferentes combinações saídas do sushi bar.

Para rematar, cada um dos chefs rubrica uma sobremesa. Natalie apresenta uma tarte de yuzu merengada, uma sugestão bem doce que convida à partilha, a não ser que depois do jantar ainda sobre muito espaço no estômago. Nuno serve um chocolate branco, lemongrass, pêra e granita de shisô, para quem prefere um remate de refeição mais fresco. E Anna traz-nos gyozas de maçã com creme de amêndoa e matcha, retomando os níveis de açucar e nostalgia que nos devolvem ao sabor das papas doces de infância.

O chocolate branco, lemongrass, pêra e granita de shisô

Miss Jappa. Segunda a domingo, entre as 18h30 e 23h30. Aberto para almoço aos fins de semana, das 12h00 às 15h30. Reservas: 211 379 763. Opções à carta ou Menu Sharing* · 40€ pax. 3 pratos dos chefs (inclui 1 sobremesa) + 2 pratos do Sushibar *Bebidas à parte

“Cuidado, está quente” é uma rubrica do Observador onde se dão a conhecer novos (e renovados) restaurantes e cartas.