Outrora ponto de paragem do “Underground Railroad” — o conjunto de rotas e pontos seguros de paragem para escravos que conseguiam fugir do sul dos Estados Unidos para outros estados do norte ou para o Canadá para viverem em liberdade —, a cidade de Springfield, no estado do Ohio, recuperou um vislumbre desse passado nas últimas semanas. Unidos no repúdio às ações dos agentes do ICE, vários americanos criaram quartos em caves ou sótãos (e outras divisões disponíveis) para albergar imigrantes visados pelas operações anti-imigração, em especial a comunidade haitiana local, com cerca de 10 mil elementos numa comunidade de perto de 60 mil pessoas.
“Na década de 1850, as pessoas daqui acolhiam escravos em busca de liberdade”, conta, ao jornal The New York Times, Marie, uma ativista local que tem avaliado as pessoas que se oferecem para receber imigrantes nas suas casas, acrescentando: “Hoje, há pessoas que oferecem refúgio seguro a haitianos que só querem viver em paz e segurança“.
Alguns já são cidadãos norte-americanos, mas a maioria encontra-se ainda ao abrigo do Estatuto de Proteção Temporária, um programa que permite aos beneficiários viver e trabalhar de forma legal nos Estados Unidos da América. E foi com esse programa que a administração liderada por Donald Trump quis acabar há cerca de um mês; sem o bloqueio dos tribunais, as capturas e deportações poderiam começar de um dia para o outro, mas a justiça determinou que Washington não poderia tomar essa decisão.
Porém, o clima de medo instalou-se em Springfield com essa mera possibilidade. Muitos americanos juntaram-se em protestos e marchas de apoio à comunidade haitiana, vários ofereceram-se para acolher legalmente crianças que pudessem ficar sem os pais, e alguns decidiram ir mais longe e reformularam espaços nas suas habitações para criarem quartos de acolhimento destes imigrantes.
Um desses americanos foi Lee, uma reformada, de 70 anos, que acolheu uma mãe e o filho bebé com apenas um mês de vida. “Estou muito zangada com a forma como o nosso governo está a tratar os recém-chegados. Somos um país de imigrantes. A minha família veio da Irlanda para cá“, afirma, enquanto embalava o bebé haitiano nos seus braços.
Nunca tinha visto antes a mulher que apareceu à sua porta, mas, como descreve o New York Times, abraçou-a, mostrou-lhe a casa e terminou no quarto que seria o refúgio de mãe e bebé. A ação acarreta riscos. A lei federal considera crime “esconder, abrigar ou proteger da deteção” um imigrante não autorizado e pode implicar uma pena até cinco anos de prisão na justiça dos EUA.
Desde o início do ano, com o endurecimento da repressão à imigração ilegal nos EUA e que resultou inclusivamente na morte de dois cidadãos norte-americanos, muitos imigrantes haitianos acabaram por ‘desaparecer’ do espaço público. Aos poucos, começaram a surgir cada vez menos nas ruas, nas igrejas ou nos mercados, com receio de que pudessem ser visados por operações do ICE, como aquelas que ocorreram, sobretudo, no estado do Minnesota.
Jean, outra cidadã norte-americana — todos designados pelo nome do meio para proteção da sua identidade —, já tinha visto um colega de trabalho imigrante ser capturado e deportado pelos agentes anti-imigração. Pensou no que poderia acontecer na sua cidade… e aos milhares de haitianos sem meios para se protegerem. “Comecei a perguntar: ‘Para onde as pessoas fogem?’ Precisamos de alojamento de emergência“, referiu.
Contactou uma amiga, Marie, uma vez que esta tinha alguns contactos junto da comunidade haitiana, sem saber que esta já estava envolvida no apoio aos imigrantes. Acabaram por juntar esforços para servirem como um ‘controlo de segurança’, ou seja, analisavam outros potenciais voluntários que quisessem ajudar e acolher imigrantes. Caso tivessem dúvidas sobre as reais intenções de alguma das pessoas que manifestasse disponibilidade para receber haitianos, recusavam as ofertas com outros pretextos.
“Quase tudo está numa zona cinzenta. Isto precisa de acontecer, mesmo que haja riscos”, afirma Jean. Por sua vez, Lee garante que, embora a decisão da justiça tenha por agora salvaguardado o Estatuto de Proteção Temporária, está pronta para o que for necessário para continuar a ajudar os imigrantes oriundos do Haiti: “Se for preciso, vou colocar sacos-cama no chão”.
Não chegou a ser necessário, uma vez que Marie tinha um quarto livre já preparado para receber mãe e filho. Numa cama figuravam três ursos de peluche e uma boneca de pano. O berço estava logo ao lado e a cómoda albergava o essencial para aquela ocasião: cremes, champô de bebé e pó de talco. A mãe e o bebé haitianos deixariam a casa de Marie após seis dias de permanência, em segurança.
Os receios da comunidade haitiana de Springfield não são de hoje. Na campanha presidencial de 2024, Donald Trump repetiu uma alegação — sem provas — de que os haitianos de Springfield estariam a roubar e comer animais de estimação dos vizinhos, colocando, então, ainda mais pressão sobre o tema da imigração no país.