A guerra no Médio Oriente voltou a provar o quanto o tráfego aéreo está exposto e é vulnerável a conflitos. Não obstante, a indústria está mais resiliente a este tipo de crise do que no passado, afirmou o presidente executivo da Lufthansa durante a apresentação dos resultados da empresa alemã.
Carsten Spohr alertou para os efeitos da concentração massiva dos fluxos do tráfego global nos hubs do Golfo — operados por companhias como a Emirates, a Etihad e a Qatar Airlines — que se está a revelar cada vez mais um “calcanhar de Aquiles geopolítico”. “O risco é demasiado grande para países exportadores como a França e a Alemanha. A discussão tem de ser sobre a soberania e a independência na Europa. E estamos a ver a mesma discussão na Ásia”.
O CEO da companhia alemã defendeu que, nesta situação, é cada vez mais importante “não fragilizar ainda mais as companhias europeias e os hubs europeus. A soberania europeia exige a capacidade de manter as suas próprias ligações aos mercados globais”. É um recado às autoridades e governos europeus, numa altura em que as companhias se queixam do aumento das taxas aeroportuárias e dos custos regulatórios, bem como da maior fatura que o setor europeu tem de suportar com as licenças de CO2.
Apesar da disrupção dos voos no Médio Oriente, a Lufthansa está confiante de ter uma posição mais forte que outros concorrentes, em particular devido a uma política “sólida” de cobertura de risco (hedging) do preço do jet fuel, que sobe quando o petróleo sobe, e que cobre cerca de 81% do consumo para este ano. Segundo o CFO (administrador financeiro) da companhia alemã, Till Streichert, é uma percentagem superior à das empresas concorrentes e prolonga-se por 2027.
Por outro lado, a Lufthansa está a beneficiar de um forte aumento de procura por parte dos destinos asiáticos e africanos, dada a incapacidade das companhias dos países do Golfo de satisfazer esses mercados. A Lufthansa destaca ainda o efeito positivo que esta crise está a ter na operação da sua filial de carga, a Lufthansa Cargo, dado o estrangulamento da navegação marítima na região do Golfo.
Os responsáveis da companhia alemã acreditam que este conflito vai ter um impacto negativo na atratividade da região do Golfo como destino, o que irá beneficiar outros mercados para os quais a Lufthansa assume ter um boa resposta. “Voar para lá vai perder atratividade. As pessoas vão querer voar para zonas seguras e querem uma marca de confiança”, defendeu Carsten Spohr, ainda que reconheça que os custos vão ser maiores por causa dos desvios de rota.
As companhias europeias perderam muito mercado asiático para as concorrentes do Golfo nos últimos anos e a transportadora alemã está já a aumentar os voos para vários países asiáticos, mas assegura que só avançará com oferta adicional se esta for rentável.
Destaca ainda que as empresas europeias estão a usar dois corredores para chegar ao sudoeste asiático — um que atravessa a Arábia Saudita e outro que cruza o Paquistão e Afeganistão. Se esses corredores fecharem, fica mais difícil fazer essas rotas. Também as ligações áreas à China, onde há procura, são complexas por causa das restrições no sobrevoo do espaço aéreo russo. Por outro lado, o acordo da União Europeia com a Índia abre expectativas positivas de crescimento para aquele mercado.
Já no que toca ao principal mercado do grupo Lufthansa, os Estados Unidos, o gestor desvaloriza a queda de reservas do lado europeu, assinalando que a procura dos passageiros americanos continua forte, e justificando essa queda nos primeiros meses do ano com a circunstância de os europeus reservarem os voos com menor antecedência.
A Lufthansa apresentou receitas recorde de 39,6 mil milhões de euros em 2025, um crescimento de 5% face ao ano anterior. O lucro caiu 3% para 1,339 mil milhões de euros, devido a efeitos contabilísticos. O resultado operacional cresceu 20% para dois mil milhões de euros.