Se a retirada dos incentivos à venda de veículos eléctricos, em Dezembro de 2023, fez cair abruptamente a procura por modelos eléctricos (EV) na Alemanha, o regresso das ajudas, em Janeiro de 2026, teve o condão de aumentar o interesse por automóveis a bateria, que viram as vendas disparar. Em Março, este tipo de mecânicas alcançou 24% das novas matrículas no país, ultrapassando as vendas dos veículos equipados com motores a combustão (ICE), que se ficaram pelos 22,8%.

A Alemanha não só é a maior economia europeia, como é o país que (folgadamente) mais veículos transacciona, inclusivamente 100% eléctricos. Daí que, quando há dois anos terminaram os incentivos à venda de carros a bateria, o volume de vendas de modelos sem motor a combustão tenha caído. Isto favoreceu os construtores germânicos que, à época, pretendiam provar — ainda que artificialmente — que os condutores europeus, com ênfase nos alemães, não se sentiam atraídos por modelos eléctricos, tentando convencer a Comissão Europeia a relaxar as regras que pretendiam banir, a prazo, a venda de modelos com motor ICE.

Com a reintrodução dos incentivos para eléctricos no início do ano, a procura por EV no mercado alemão não pára de aumentar, tendo subido mais 16% em Março, mês em que dos 294.161 veículos vendidos, 24% (70.663) eram exclusivamente a bateria. Face a Março de 2025, as vendas de eléctricos em 2026 aumentaram 66,2%, incremento que baixa para 41,3% se considerarmos o comportamento do 1.º trimestre de 2026 contra o mesmo período de 2025. Ao contrário do que acontecia antes de 2023, agora o esquema de incentivos não limita o valor do veículo, tanto mais que isso ajuda as marcas de luxo germânicas, impondo apenas um rendimento familiar máximo mensal de 3.000€ por membro do casal para aceder às ajudas, valor que para o Governo germânico é sinónimo de famílias de baixo rendimento.

A imprensa alemã realça os maiores incrementos no volume de veículos eléctricos comercializados, com destaque para a BYD que cresceu 327% em Março, transaccionando 3438 unidades, seguida pela Leapmotor, com uma subida de 318% e 1388 unidades entregues a clientes, com a Tesla a vender mais 315% e a matricular 9252 novas unidades. Entre as marcas ditas tradicionais, a Opel foi quem mais cresceu (+43%), seguida da Audi (+25%) e BMW (+16,5%). Enquanto isso, os veículos equipados com motores híbridos e híbridos plug-in — sendo que estes últimos não perderam por completo os seus incentivos nos cortes de 2023 —, viram a procura aumentar em Março 16,2% e 10,4% no trimestre.

Para quem pensa que só os modelos a bateria e híbridos plug-in têm o hábito de receber incentivos do Estado alemão, é bom ter presente que distribuir ajudas pela indústria automóvel é uma prática recorrente. Na Alemanha, os euros fluem com bastante facilidade rumo à indústria que é o maior pilar do país, seja a pretexto de compensação da inflacção (como acontece desde 2022), seja como subsídio à investigação e desenvolvimento (de 2020 a 2026), passando por incentivos às actividades económicas regionais (de 2014 a 2020 e depois de 2022 a 2027) e por apoios ao investimento na produção e em energias renováveis (desde 2000).

A tabela das 25 marcas mais vendidas inclui algumas surpresas, como o facto de a Skoda ser o 2.º construtor que mais vende, logo atrás da Volkswagen, que continua a liderar o mercado de forma esmagadora. Entre as marcas de luxo, a BMW é a primeira, surgindo na 3.ª posição do ranking geral, à frente da Mercedes (4.ª) e da Audi (5.ª), com a Porsche a ser apenas a 23.ª marca mais vendida, acusando um tombo de 12,1% face a Março de 2025. É mesmo o único construtor de luxo cujo volume de vendas diminuiu.

A venda de eléctricos continua a ser dominada pela Tesla, a 10.ª marca com mais unidades vendidas no mercado alemão, com um volume de vendas que ainda é cerca de três vezes superior ao da BYD, embora esta comercialize modelos eléctricos substancialmente mais pequenos e acessíveis, como o Dolphin Surf, o Dolphin e o Atto 2, além de modelos híbridos a gasolina. Entre as marcas chinesas, a MG aparece na 25.ª posição, atrás da BYD e com um menor crescimento, contando também ela com uma gama com veículos mais pequenos a bateria, além dos híbridos e PHEV. Ainda assim, a MG cresce 21,9% contra os 327,1% da BYD e os 315,1% da Tesla.