Está prestes a partir de Barcelona a segunda flotilha dirigida à Faixa de Gaza, após a anterior missão realizada entre agosto e outubro do ano passado. A maior tentativa de entrar na zona ocupada por Israel até hoje, deve abranger mais de 70 navios (mais 20 do que a anterior) e atravessar o Mar Mediterrâneo até chegar ao destino final. 41 das embarcações da Flotilha Global Sumud aguardam por condições meteorológicas favoráveis no Porto Velho da cidade catalã, entre as quais a que transporta a delegação portuguesa, apoiada pela organização Thousand Madleens Portugal.
Com data marcada para zarpar no passado domingo, 13 de abril, a iniciativa destinada a entregar medicamentos, alimento, material educativo e pessoal médico e técnico à Faixa de Gaza, foi adiada porque não se reuniam as condições necessárias. Esta segunda tentativa planeia fazer pausas estratégicas em locais secretos situados na costa mediterrânica, a fim de reabastecer e aguardar condições de vento favoráveis. Prevê-se que a partida seja possível já nestas terça ou quarta-feira.
A Global Sumud — palavra árabe que significa firmeza, perseverança e resiliência — tem seis objetivos principais, disponíveis no site online da iniciativa: 1. quebrar o cerco de Israel a Gaza o domínio do seu espaço marítimo — que controla desde 2007. 2. oferecer ajuda humanitária e bens essenciais. 3. disponibilizar proteção, sem recurso a armas, mas através do treinamento de civis para esse fim. 4. apoiar a reconstrução das infraestruturas destinadas a habitação e serviços. 5. mobilizar a opinião pública global para pressionar os governos a agir contra a ocupação israelita. 6. servir de catalisador capaz de amplificar a voz do povo palestiniano e mobilizar os cidadãos à volta do mundo.
Centenas de pessoas juntaram-se no porto para a despedida dos mais de 3.000 ativistas, provenientes de vários países — com maior prevalência de Itália, Grécia e Turquia. Uma flotilha extremamente ambiciosa em número de navios, também integra quase 1.000 profissionais de saúde, com o objetivo de auxiliar o sistema hospitalar devastado em Gaza, para além de professores, juristas, engenheiros, construtores, trabalhadores humanitários, artistas e outras “pessoas comuns”.
A Global Sumud conta ainda com o acompanhamento do barco Arctic Sunrise operado pela Greenpeace, que deve oferecer apoio técnico e mecânico às restantes embarcações, e ainda um navio fornecido pela ONG espanhola Open Arms, especializado em salvamento marítimo e provido de alimentos para a viagem — e que, em março de 2024, penetrou com sucesso no território marítimo de Gaza.
“Enquanto muitos olham para o lado, há portugueses que já largaram as amarras”, escreve a Thousand Madleens Portugal, organização embaixadora da delegação portuguesa. Os dois participantes nacionais, o ativista Nuno Gomes e uma mulher de identidade desconhecida viajam na embarcação Tenaz e abriram uma angariação de fundos destinada a financiar a segurança da tripulação, a suprir o navio com bens essenciais para os habitantes da Faixa de Gaza e agilizar os processos de coordenação internacional. Em julho de 2025, Nuno fez uma greve de fome à frente da assembleia da República, apelando ao reconhecimento do estado da Palestina — entretanto consagrado a 21 de setembro.
Saif Abukeshek, originário da Palestina e um dos líderes do movimento, reconheceu em declarações prestadas ao El País que “existem riscos” na expedição. O conflito no Médio Oriente pode ameaçar a vida dos participantes voluntários, como já aconteceu, nomeadamente na flotilha de 2025. Em outubro, Israel intercetou os ativistas que navegavam em águas internacionais — a 70 milhas naúticas (129 quilómetros) da costa de Gaza —, tendo detido centenas de pessoas. Entre elas estavam os portugueses Mariana Mortágua, Sofia Aparício, Miguel Duarte e Diogo Chaves, que denunciaram as condições difíceis e o tratamento pouco humano que receberam das autoridades israelitas, tendo sido repatriados quatro dias mais tarde.
Em março, o Parlamento israelita aprovou uma emenda temporária à lei destinada a agilizar a deportação de ativistas estrangeiros que tentam chegar à Faixa de Gaza e são intercetados em águas internacionais. Os grupos detidos nestas circunstâncias passam a estar sujeitos a deportação no prazo de 24 horas após a captura, ao contrário das 72 inicialmente previstas.
A fim de preparar os ativistas inexperientes para situações de grande tensão e, possivelmente, violência física e psicológica, os participantes receberam um treino intensivo em Barcelona, onde puderam aprender a gerir as emoções e reagir pacificamente em caso de interceção israelita. Recebem ainda regularmente um briefing de segurança preparado por um serviço de consultoria independente.
Como na edição de 2025, também esta flotilha conta com acompanhamento por via terrestre, providenciado por um comboio que transporta medicamentos, materiais de construção e casas móveis, para além de apoio logístico. As carruagens partiram no passado dia 10 e devem atravessar a Mauritânia, Argélia, Tunísia e Líbia, até à entrada da travessia de Rafah, que faz a ligação entre o Egito e a Faixa de Gaza. Também como no ano passado, um repórter do El País está escalado para participar e fazer a cobertura da expedição — que não conta com nenhuma personalidade de renome mundial, como Greta Thunberg ou o ator irlândes Liam Cunnigham, participantes em 2025.