O autor do ataque contra os participantes na Marcha Pela Vida, no final de março, foi detido pela PJ e vai ser presente esta quarta-feira a tribunal. O Observador sabe que o homem — militante do PS, antigo professor e designer gráfico — é suspeito de crimes de terrorismo, ofensas à integridade física grave qualificada, detenção e uso de arma proibida e incêndio.
A detenção do antigo professor aconteceu na manhã desta terça-feira. O homem foi detido em casa, na zona de Lisboa, e vai presente a tribunal — a PJ propõe um reforço das medidas de coação para a prisão preventiva. O autor do ataque ficou apenas sujeito a apresentações diárias na PSP e proibido de frequentar o local do ataque, junto ao Parlamento.
A PJ considera que existem vários perigos que justificam o agravamento da medida de coação: desde logo, o alarme social que decorre de um ataque como aquele que foi concretizado a 21 de março. O suspeito, munido de um engenho incendiário — que as autoridades qualificam como um cocktail molotov — atacou as pessoas que participavam na Marcha Pela Vida, lançando a garrafa com combustível na direção de várias delas. O engenho acabou por não deflagrar, não provocando feridos.
Além do alarme social, a PJ considera que existe um perigo de perturbação do inquérito. Desde logo, porque a investigação das últimas duas semanas ainda não está concluída. Os inspetores da Unidade Nacional de Contra Terrorismo ainda querem apurar com detalhe se o ataque foi concretizado por um “lobo solitário ou se houve alguma ação concertada” e que envolva outros elementos com perfil idêntico.
Esse é, aliás, um dos pontos centrais da investigação em curso. “O facto de estar em causa um crime de terrorismo indicia que haja um móbil [um motivo] ideológico” na origem do ataque, diz ao Observador fonte conhecedora deste tipo de investigações.
Por último, a PJ considera ainda existir um claro perigo de fuga. Um receio que assenta no facto de o suspeito, que está detido nas instalações da Polícia Judiciária, ter uma forte ligação aos Estados Unidos. Estudou no país — onde tirou um mestrado — e viaja com frequência para lá. Aliás, pouco antes do ataque, tinha regressado dos Estados Unidos depois de uma estadia de cerca de três meses. Além disso, tem uma ligação profissional a empresas norte-americanas.
Ao final da tarde desta quarta-feira, depois de o Público ter avançado a ligação do detido ao Partido Socialista, o próprio partido confirmou. “O Partido Socialista tomou conhecimento, através da comunicação social, que o indivíduo suspeito de ter arremessado um objeto incendiário na direção de uma manifestação é militante do PS”, escreveram numa nota enviada à comunicação social.
“Na sequência dessa informação, que nos surpreendeu, o secretário-geral do PS decidiu remeter de imediato para a Comissão Nacional de Jurisdição esta informação, com vista à instauração de um processo disciplinar que determine a aplicação da sanção adequada à alegada prática dos factos que lhe são imputados”.
Para já, o militante foi suspenso de forma preventiva, mas, caso se confirmem os factos, “poderá ser aplicada a expulsão do partido”.
“Duas semanas perdidas” e PJ “a correr atrás do prejuízo”
Os últimos desenvolvimentos acontecem depois de o caso ter sido entregue a PJ. Num primeiro momento, o ataque foi qualificado como um simples caso de posse de arma proibida e a PSP ficou responsável pela investigação. A decisão suscitou desagrado junto da PJ.
Sobretudo, apurou o Observador, porque se considera na PJ que as duas primeiras semanas após o ataque foram “tempo perdido” — e representaram um “prejuízo” para a investigação. O telemóvel do suspeito não foi apreendido e não foram analisadas as mensagens e comunicações do autor do ataque. Também a conta do X — mas não a de outras redes sociais — foi apagada depois do ataque.
As mensagens e comunicações, em particular, são especialmente prejudiciais porque poderiam dar pistas sobre a eventual existência de cúmplices. A esse propósito, e com a investigação ainda a decorrer, está em aberto a possibilidade de haver mais detenções em breve.
Nas últimas duas semanas, a PJ ouviu “dezenas” de envolvidos no ataque, na sua maioria pessoas que participavam na manifestação.
[Notícia atualizada às 20h00 com a confirmação do Partido Socialista sobre a militância do detido]