Mais uma reviravolta no conflito do Médio Oriente foi acompanhada por transações financeiras no mercado de petróleo que levantam dúvidas pela antecipação de um facto inesperado.
De acordo com a agência Reuters, esta sexta-feira um grupo de investidores transacionou o equivalente a 760 milhões de dólares (645 milhões de euros) em produtos derivados que apostavam na queda do preço do petróleo. Quando estas transações foram realizadas, o petróleo negociado em Londres — o Brent — estava há vários dias acima dos 100 dólares por barril. Menos de meia hora mais tarde, verificou-se uma queda acentuada da cotação de 11%, impulsionada pelo anúncio feito pelo ministro dos negócios estrangeiros iraniana de que o Estreito de Ormuz ia reabrir. A reabertura de Ormuz durou poucas horas, foi revogada este sábado de manhã numa altura em que os mercados estão fechados.
Citando dados da bolsa de Londres, a Reuters diz que entre as 12h24 e as 12h25 (GMT), investidores venderem 7.990 lotes de contratos futuros sobre o Brent no valor de 760 milhões de dólares. Cerca de 20 minutos depois, o ministro iraniano publicou na rede social X que o estreito que está fechado desde o início do conflito seria reaberto enquanto durasse o cessar fogo, isto depois do Irão ter feito valer uma das suas exigências — um cessar-fogo no Líbano. O petróleo desvalorizou, tendo chegado a transacionar abaixo dos 90 dólares por barril, gerando lucros caídos do céu para quem aplicou fundos nesta tendência.
Este episódio não é o único. As transações que parecem adivinhar o futuro, e proporcionar ganhos chorudos a quem as faz, têm sido um padrão desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram os ataques ao Irão. Segundo as agências Reuters e Bloomberg, a reguladora da bolsa americana de matérias-primas — a CFTC (Commodity Futures Trading Commission) — abriu uma investigação a estes negócios que incidem em contratos de futuros com petróleo. Também há operações sobre a evolução do principal índice de ações da bolsa americana, o S&P 500, o que já levou a denúncias junto do regulador, a SEC (Security Exchange Commission).
A 7 de abril, no dia em que Estados Unidos e Irão assinaram o acordo de cessar-fogo, investidores fizeram, horas antes, uma aposta de 950 milhões de dólares (805 milhões de euros) na queda dos preços, que se veio a confirmar com uma baixa de 15%. A 23 de março, outra viragem no conflito foi antecedida por transações de 500 milhões de dólares (425 milhões de euros) fechadas 15 minutos antes de Donald Trump ter anunciado ao mundo, através da rede social Truth Social, que ia suspender o ataque às infraestruturas energéticas do Irão, o que fez também tombar as cotações.
A multiplicação deste tipo de operações a partir de decisões e anúncios feitos pela administração de Donald Trump – cuja política é pontuada por súbitas mudanças de rumo — começou antes da guerra no Irão. E está a alimentar suspeitas de insider trading, crime de mercado em que um investidor usa informação privilegiada (que não é do conhecimento dos restantes) para potenciar ganhos financeiros. Estando em causa operações militares e negociações internacionais, a informação teria de vir de dentro do círculo do Presidente americano ou das chefias envolvidas neste conflito.
As transações envolvem frequentemente produtos estruturados e derivados, cujo comportamento é mais opaco que o de títulos tradicionais, como matérias-primas ou ações. E não acontecem apenas no mercado do petróleo — a matéria-prima cuja cotação tem sofrido mais oscilações neste conflito devido ao fecho do Estreito de Ormuz. Segundo o jornal britânico, The Guardian, há também apostas online de previsões que estão a acertar no futuro no que toca à guerra do Irão. Estas apostas são colocadas em plataformas como a Polymarket e a Kalshi, que permitem jogar com qualquer evento ou acontecimento noticioso,
O jornal descreve 16 apostas que renderam 100 mil dólares ao acertarem na data em que iam ser iniciados os ataques ao Irão (28 de fevereiro). Um outro jogador terá feito mais de meio milhão de dólares ao apostar na queda do Ayatollah Ali Khamenei, momentos antes do líder religioso iraniano ser morto pelas forças israelitas.