Enquanto as autoridades norte-americanas vão libertando a conta-gotas novos resultados da investigação ao tiroteio, há uma versão alternativa sobre o sucedido no jantar dos Correspondentes da Casa Branca a ganhar força, especialmente entre utilizadores das redes sociais. Numa questão de horas, foi-se formando uma teoria da conspiração argumentando que a alegada tentativa de ataque a membros da administração Trump foi “encenada”.

Aliás, a palavra “staged” foi utilizada em mais de 350 mil publicações na rede X ao longo deste domingo, segundo métricas consultadas pelo The New York Times. Sendo que esse valor nunca ultrapassou as 60 mil publicações durante o mês de abril, o grande influxo na utilização desta palavra estará ligado à discussão que se gerou no dia seguinte ao tiroteio: “Foi encenado ou não?”

“Muitas pessoas dizem acreditar que o tiroteio no [hotel Hilton] foi encenado, como forma de desviar a atenção em relação aos péssimos índices de aprovação [de Trump] e à sua má gestão da guerra com o Irão. O que acham?”, perguntou um utilizador com 1,3 milhões de seguidores no X.

A atenção dos conspiracionistas fixou-se nas declarações feitas por uma jornalista presente no jantar de Correspondentes. Aisha Hasnie foi interrompida quando contava que o marido de Karoline Leavitt, a porta-voz da Casa Branca, lhe tinha pedido para “ter muito cuidado” antes do tiroteio acontecer. “A Fox News acabou de cortar a transmissão de uma das suas repórteres, porque esta parecia sugerir que o tiroteio tinha sido uma operação de falsa bandeira planeada previamente”, escreveu outro utilizador no X.

Mais tarde, Hasnie esclareceu que a sua chamada caiu quando estava em direto na Fox News porque a rede do telemóvel falhou. A jornalista acrescentou que o marido de Leavitt lhe disse “para ter cuidado com a [sua] segurança, porque o mundo está louco”. Hasnie não abordou as dúvidas dos conspiracionaistas que, entretanto, se apropriaram das suas declarações para provar o seu ponto, mas afastou as suspeitas sobre o comentário de Nicolas Riccio: “Ele estava a manifestar a sua preocupação com a minha segurança.”

Nem todos ficaram convencidos com a explicação, incluindo o presidente da associação sem fins lucrativos Media Matters, que atua em defesa do jornalismo e é conotado como sendo mais próxima da esquerda. “Não quero alimentar teorias da conspiração. Mas, quer dizer… isto foi super estranho. Super estranho.”, escreveu Angelo Carusone no Bluesky.

Dentro do movimento MAGA (Make America Great Again), várias vozes influentes reagiram ao tiroteio sublinhando a necessidade de completar a construção do novo salão de baile na Casa Branca, promovida por Trump, para garantir a segurança do Presidente norte-americano. Do outro lado da barricada, alguns sugeriram que esta seria a motivação para encenar um ataque à administração norte-americana, segundo a revista Wired.

Karoline Leavitt também esteve no centro de outro episódio que fez levantar as sobrancelhas de vários conspiracionistas. Antes do jantar, a porta-voz da Casa Branca utilizou, em declarações à imprensa, uma expressão idiomática que se revelou premonitória. “No discurso de hoje à noite vamos ter o Donald Trump clássico. Será engraçado, será divertido. Esta noite vão ser disparados alguns tiros no salão [tradução literal de ‘There will be some shots fired in the room tonight’].” Neste contexto, a expressão designa comentários provocatórios ou críticos dirigidos a alguém, normalmente feitos em público, e não tiros.

“Divulgar a verdade e apurar os factos e as informações fiáveis leva tempo”, disse Amanda Crawford, professora associada da Universidade de Connecticut, ao The New York Times. A académica, que estuda a cobertura mediática de ataques em massa e teorias da conspiração, explica que atualmente o público não tem “o tipo de paciência” que o leve a esperar por essas informações. “Por isso, vemos imediatamente narrativas que são orientadas para responder às perguntas que as pessoas querem saber, muitas vezes alimentando-se dos preconceitos das pessoas que as partilham.”