Foi quase a fechar a green carpet que Beyoncé pisou a escadaria do Metropolitan Museum, numa chegada digna de rainha. Depois de uma ausência de dez anos, a cantora regressou à Met Gala na noite desta segunda-feira como co-anfitriã, e teve o seu momento de protagonismo depois de dezenas de outras celebridades passarem pelo local. Acompanhada por Jay Z, Blue Ivy, e uma capa de plumas de dezenas de metros que ocupou um lance inteiro de escadas, Beyoncé exibiu o seu vestido de brilhantes com estrutura de esqueleto, criado pelo parceiro criativo de longa data, Olivier Rousteing, antigo diretor criativo da Balmain. Na cabeça tinha uma coroa, a combinar com as joias Chopard em ouro branco e diamantes; e com o caminhar típico da monarca que regressa ao trono, sob os aplausos e até gritos de quem assistia. Depois, foi a vez de pai e filha subirem as escadas — ele num smoking preto, a deixar o brilho dos flashes voltarem-se para a jovem de 14 anos, num vestido Balenciaga branco volumoso com uma cauda não tão longa como a da mãe mas a mostrar que está a seguir os seus passos.
▲ A cauda de plumas ocupou quase toda a escadaria do Metropolitan Museum
Getty Images for The Met Museum/
▲ O visual que simula um esqueleto é de autoria do designer francês Olivier Rousteing, que tem uma parceria criativa longa com a cantora
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Beyoncé foi rainha numa noite em que até então Jeff Bezos era protagonista (mas acabou por pular a passadeira vermelha), Lauren Sánchez optou por ser discreta, Sarah Paulson foi das poucas a levar os protestos para dentro do baile, a green carpet viu nomes do mundo tech e visuais de fast fashion, e que fechou com Rihanna como já é costume — que mesmo com outra rainha presente, parece nunca perder a majestade. Num fato sob medida Maison Margiela, criado por Glenn Martens com inspiração na arquitetura medieval da região norte da Bélgica, país de origem do designer, a cantora veio acompanhada pelo marido, A$AP Rocky, num smoking jacket rosa claro com detalhes em preto assinado pela Chanel, marca da qual é embaixador.
Mas horas antes, Portugal fez-se presente na passadeira vermelha mais esperada do ano em pelo menos dois momentos. Praticamente a inaugurar as hostilidades, o destaque foi para Emma Chamberlain, que transformou o seu corpo em tela e desfilou um autêntico quadro vivo, numa dos primeiros cruzamentos evidentes entre moda e arte. Numa criação escultural e cheia de cores, que se confundiam com a tinta de um quadro, brilhou com o seu corte pixie numa criação exuberante do designer português Miguel Castro Freitas, ao leme da direção criativa da Mugler. A influencer conheceu o criador no dia da sua estreia à frente da maison francesa, na Semana da Moda de Paris, em outubro de 2025. De acordo com o que revelou à Vogue, Chamberlain e o seu stylist, Jared Ellner, enviaram a Castro Freitas referências de arte que incluem trabalhos de Van Gogh e Munch, além de peças de arquivo da Mugler, como o vestido borboleta da coleção de alta costura de 1997. O primeiro desenho do designer português recebeu a aprovação unânime e sem retoques.
Emma Chamberlain em Mugler, por Miguel Castro Freitas
Num outro registo, no que parecia um ensaio para o casamento que deve acontecer ainda até o final desde ano, Georgina Rodriguez fez a sua homenagem a Nossa Senhora de Fátima, com uma criação em azul suave de Ludovic de Saint Sernin. A futura mulher de Cristiano Ronaldo deixou o hotel num fato de treino preto, com um rosário na mão e uma das suas carteiras Birkin — mas trocou o jumpsuit justíssimo preto pelo vestido com corset e véu a cobrir o rosto, um visual que arrisca mais, depois de prezar pela segurança de um vestido preto estilo lingerie para a sua estreia na Met Gala em 2025. A rematar o look, joias Chopard e, claro, o rosário customizado, uma peça criada pela própria e avaliada em sete milhões de euros, em ouro branco e diamantes, além de ter os nomes de todos os membros da sua família gravados atrás da imagem de Nossa Senhora de Fátima. “Escondido dentro do vestido, colocado ao lado do meu coração, duas frases são bordadas à mão em espanhol: “Donde ella está, el alma encoentra refugio” e “Y libranos del mal amén.””, explicou ainda a influencer argentina nas suas redes sociais.
Noite de regressos
Além de Beyoncé, 2026 foi um ano de regresso também para Cher, que volta à passadeira vermelha depois de uma ausência de 11 anos. Num look sob medida Burberry criado por Daniel Lee em colaboração com o stylist Patti Wilson, o vestido em seda e tule pretos ficou completo com um corset em pele e um casaco com aplicações em cristais — uma referência ao famoso naked dress que levou à Met Gala em 1974. Já Madonna, que fez o seu come back em 2025, volta ao baile este ano com uma presença performativa, num look que faz referência ao trabalho da pintora surrealista Leonora Carrington, com um chapéu estilo bruxa e um véu carregado por seis auxiliares com os olhos vendados com um material transparente, peças assinadas pela Saint Laurent, um dos sponsors do evento.
Já Katy Perry regressa à Met Gala nesta edição, depois de uma ausência de três anos, num look para desmentir todas as imagens feitas com inteligência artificial que circularam depois das últimas edições. Combinou o vestido branco Stella McCartney com uma máscara de esgrima criada por Miodrag Guberinic — um visual com um quê de astronauta, talvez inspirada na viagem ao espaço que fez à bordo do Blue Origin em abril de 2025, através da empresa de Jeff Bezos e na companhia de Lauren Sánchez.
Diante da polémica participação dos Bezos nesta edição do evento, que gerou protestos em Nova Iorque ao longo das últimas semanas, Lauren Sánchez optou pela discrição para a sua primeira Met Gala como patrocinadora e anfitriã. A mulher do fundador da Amazon chegou cedo, sem o marido, e na companhia de outras duas importantes co-anfitriãs: Nicole Kidman, em vermelho, e Anna Wintour, em verde. Já Sánchez optou por um modelo clássico azul navy quase preto, com decote, ajustado ao corpo, e com detalhe em pérolas nos ombros, inspirado no quadro de 1884 do italiano John Singer, Madam X (o look de Claire Foy, da Erdem, também foi inspirado na obra). Uma criação da Schiaparelli — confirmando assim a suspeita da última Semana da Moda de Paris, quando Lauren Sánchez foi vista na companhia de Anna Wintour a deixar o atelier da maison.
Em contrapartida, Wintour e Kidman, ambas vestidas por Matthieu Blazy, da Chanel, levaram plumas e lantejoulas para a green carpet. A diretora global da Vogue parece usar uma releitura do look criado por Karl Lagerfeld para o mesmo baile em 2019, uma versão em verde do vestido rosa bordado com uma espécie de capa em plumas. Já a atriz australiana combinou o vestido justo vermelho com uma peruca loira comprida. Poucos meses depois do divorcio de Keith Urban, vem à gala acompanhada da filha, Sunday Rose, que na sua estreia usa uma criação de Jonathan Anderson para a Dior. Chloe Malle, a atual editora chefe da Vogue norte-americana, veio logo atrás do trio de co-anfitriãs, num vestido sob medida num tom laranja dourado, da criadora norte-americana Colleen Allen.
▲ Nicole Kidman, Lauren Sánchez Bezos e Anna Wintour abriram os trabalhos na green carpet
Getty Images for The Met Museum/
Esculturas e transparências destacam o corpo como tela para a arte
Com o tema “Costume Art”, a gala deste ano tem como mote a combinação de peças de vestuário com obras de arte, de forma a “revelar a relação inerente entre a roupa e o corpo”. Mas a tradução do tema em roupas é sempre uma incógnita até o dia do baile — e o que se viu na icónica escadaria do Metropolitan Museum foram vestidos que prezam pelas transparências e cortes estruturais, com a aposta em tecidos como o tule ou a pele e os bordados em modelagens mais ajustadas ao corpo. É o caso de Ashley Graham, que escolheu um modelo nude da Di Petsa num tecido fluido similar a um tule, que deixa transparecer um pouco da pele mas não revela demais. A criação do designer grego Dimitra Petsa foi, na verdade, cozida à mão diretamente no corpo da modelo, que foi também uma das apresentadoras da emissão em direto da gala.
Também Hailey Bieber teve o corpo como modelo para o corset criado pela Saint Laurent, num look inspirado na colaboração com o escultor Claude Lalanne para a coleção outono/inverno 1969. Heidi Klum, por sua vez, antecipou o baile de Halloween e incorporou uma escultura real: A Dama Velada, de Rafaelle Monti, uma obra em mármore criada em 1860, reproduzida num fato em látex, próteses criadas por Mike Marino. No mesmo estilo disfarce, com maquilhagem cénica do mesmo autor, Bad Bunny vestiu a pele de si mesmo aos 80 anos e levou até a bengala para a passadeira vermelha, num look Zara.
Cara Delevingne, outra das apresentadoras da emissão, apostou num modelo sob medida Ralph Lauren com uma longa cauda em tule com bordados. O destaque ficou com a transparência nas costas, em que apenas o bordado cobria a pele — um verdadeiro naked dress, assim como fez Gigi Hadid, que levou uma criação Miu Miu inspirada na coleção de primavera de 2011, toda num tecido translúcido. Já Irina Shayk veio mesmo com o corpo à mostra, com umas saia preta de cintura caída e um top composto por joias e relógios.
Entre as co-anfritriãs do evento, Venus Williams levou um vestido preto com cristais Swarovski e cauda, com o pescoço e peito cobertos por colares. Também em preto, Sam Smith vestiu uma espécie de casaco quimono com cauda, todo bordado, com gola e mangas em pele, uma peça escultural criada pelo designer Christian Cowan. Na cabeça, um acessório com plumas pretas dá o toque final dramático. Numa releitura da obra Lírios de Vincent Van Gogh, Charlie xcx escolheu um vestido preto criado por Anthony Vaccarello, da Saint Laurent — a maison também assina os visuais de Zoe Kravitz, que trouxe um vestido em renda preto com anquinhas; Doja Cat, num modelo em látex nude com uma abertura na perna; e Kate Moss, num look em renda preta.
O Diabo Veste Michael Kors e as irmãs Kardashians vestem o estilo Skims
Com a já conhecida ausência de Meryl Streep — que apesar dos vários convites nunca foi à Met Gala, de acordo com o seu representante, em declarações à People, por “não ser a sua cena” — Anne Hathaway foi a estrela da noite do elenco de O Diabo Veste Prada 2. Mas a escolha de visual recaiu sobre uma criação Michael Kors, desenhada em colaboração com o artista nova iorquino Peter McGough, que pintou à mão o vestido preto e branco usado pela atriz, inspirado no poema de John Keats, “Ode on a Grecian Urn”. Emily Blunt, por sua vez, levou um colar de pérolas Mikimoto que custa meio milhão de dólares, que combinou com um look preto composto por calças e top. A atriz pisou a green carpet na companhia do colega de elenco, Stanley Tucci, e da irmã, Felicity Blunt.
A mergulhar no estilo lingerie, mas da Skims, marca de Kim Kardashian que lançou um modelo com mamilos em relevo em 2023, três das irmãs Kardashian trouxeram à Met Gala as suas versões em modo red carpet. Kylie Jenner apostou num corset realista, num tom nude e que deixa à vista os formatos do corpo, uma criação Schiaparelli; Kendall Jenner trouxe o detalhe num sutiã à mostra através do vestido sob medida GapStudio por Zac Posen; e Kim Kardashian vem com um corset rígido laranja, criado pelo artista britânico Allen Jones, com saia da dupla Whitaker Malem. A mãe, Kris Jenner, optou por um quimono bordado com lantejoulas em tons de branco e laranja Dolce & Gabbana.
Nomes do desporto e do mundo tech
A green carpet do evento não se fez só de personalidades do cinema e da música: entre os 400 convidados da noite estiveram nomes do desporto e do mundo empresarial. Naomi Osaka, por exemplo, apostou num vestido branco escultural com detalhes em vermelho como se fossem folhas, que combinou com o chapéu que quase cobria o rosto todo — criações do designer de Hong Kong Robert Wun, responsável pelo visual teatral da tenista no Open da Austrália. Uma versão deste mesmo look faz parte da exposição que abre ao público a 10 de maio no Metropolitan Museum, e traz ainda uma surpresa: por baixo da capa branca, Osaka revelou um vestido vermelho, também assinado por Wun, já passados uns minutos do início do evento.
O designer é o responsável também pelo visual tecnológico da editora da Vogue Tailândia, Nichapat Suphap, que levou um vestido preto com mãos robóticas que se mexiam, como se estivessem a apalpar o corpo; o look com uma escultura acoplada de Jordan Roth e a peça estilo véu de noiva da cantora Lisa. Também inspiradas na tecnologia, Sabrina Carpenter trouxe um vestido sob medida Dior, criado por Jonathan Anderson totalmente com filme fotográfico; enquanto Janelle Monaé apostou num look feito com a mistura de musgo e cabos eletrónicos, criação de Christian Siriano.
▲ Sarah Paulson usou look sob medida Matières Fécales, que combinou com uma máscara de dólar
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Do universo dos milionários, destaque para a ex-mulher de Rupert Murdoch, Wendi, acompanhada das duas filhas, Grace e Chloe; e para power couples do universo tech, como Mark Zuckerberg e Priscila Chan; a estratega política que trabalhou com Hillary Clinton, Huma Abedin, e o investidor Alexander Soros; o CEO do Instagram, Adam Mosseri e a mulher, Monica Mosseri; ou o co-fundador da Google, Sergey Brin, ao lado da namorada, a influencer Gerelyn Gilbert-Soto. A empreendedora e investidora em novas tecnologias Yu-Chi Lyra Kuo apostou num look branco escultural assinado por Jean Paul Gaultier.
Pelo facto de Jeff Bezos e Lauren Sánchez serem os principais patrocinadores e anfitriões honorários, o evento recebeu uma onda de críticas nas últimas semanas, com pedidos públicos para que as celebridades boicotassem o baile. Mas os protestos não foram suficientes para evitar a ida das principais celebridades à festa, nem convencer os convidados a optarem por visuais mais políticos. A manifestação mais evidente ficou pelo look de Sarah Paulson que a combinar com o vestido sob medida da Matières Fecales, trouxe uma nota de um dólar a cobrir os olhos, numa demonstração de que o dinheiro pode, afinal, provocar cegueira.
Com bilhetes a custarem em média 85 mil euros, e mesas que foram vendidas por até 350 mil euros, a gala tem como objetivo angariar fundos para o Costume Institute, um dos departamentos do Metropolitan Museum. Desde 2016 o evento já foi capaz de reverter mais de 100 milhões de dólares para o instituto, que este ano inaugura um novo espaço com mais de mil metros quadrados. As novas galerias Condé M. Nast representam literalmente a saída do Costume Institute da cave do museu, levando as exposições de moda para um piso de destaque, logo à entrada do Metropolitan.
[Ao décimo dia em Nova Iorque dá-se o homicídio brutal. As últimas horas, o que aconteceu no quarto 3416 e a confissão de Renato sobre como matou Carlos Castro. O acesso aos ficheiros da investigação permite reconstituir toda a investigação ao crime. Ouça o quinto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro episódio e aqui o quarto episódio]