Em 2023, Leon Black, antigo CEO da Apollo Global Management, foi acusado de violar uma adolescente dentro da casa de Jeffrey Epstein em Nova York, há mais de vinte anos.  Segundo uma investigação do The Guardian, os advogados de Leon Black contactaram um “juiz federal influente”, pondo em causa as alegações da suposta vítima num outro caso judicial.

O fio condutor da investigação do jornal britânico é  ‘Jane Doe’, como é identificada judicialmente uma mulher de 40 anos, envolvida em dois processos diferentes. Um deles é o caso civil de 2023 contra Leon Black, já referido, no qual alega que o milionário a violou quando ela tinha 16 anos. O outro processo é uma ação coletiva de 2022, de um grupo de vítimas de Epstein contra o JPMorgan Chase, alegando que o banco quebrou as leis de combate ao tráfico sexual — devido ao seu envolvimento com o milionário que morreu na prisão quando cumpria pena por crimes sexuais.

As vítimas no processo foram representadas por Bradley Edwards e o juiz encarregue foi Jed Rakoff, que decidiu, em junho de 2023, que JPMorgan teria de indemnizar com 290 milhões de dólares (cerca de 246.453.600 milhões de euros) mais de 200 pessoas.

‘Jane Doe’, uma das visadas, teve em janeiro de 2024 a garantia do juiz de que iria receber 2,5 milhões de dólares (2.124.600 milhões de euros). No entanto, Rakoff afirmou que pretendia exercer um papel de supervisão ex parte — cada lado podia apresentar argumentos, sem que a outra parte tivesse conhecimento disso — para garantir que a alocação dos fundos da ação coletiva era justa e razoável.

Ainda em janeiro, a advogada de ‘Jane Doe’, Jeanne Christensen, que participava num caso com a advogada de Leon Black, Susan Estrich, contou que a cliente recebeu uma indemnização substancial no acordo com JPMorgan. Pouco tempo depois, a 21 de fevereiro de 2024, Estrich contactou o juiz, numa carta privada, apesar de não representar ninguém no processo. Mesmo reconhecendo que era “pouco ortodoxo”, Estrich alegou que ‘Doe’ estava a cometer uma “fraude grave” contra o tribunal e que não era uma vítima real de Epstein. A advogada de Black pediu ainda a Rakoff que abrisse um inquérito sobre “Doe” e a distribuição de bens, de acordo com uma fonte familiarizada com o assunto.

Aparentemente, a carta de Estrich teve algum efeito, já que Rakoff e Edwards decidiram analisar mais detalhadamente a indemnização de Doe, conforme mostram os registos do tribunal. A 26 de fevereiro de 2024, Edwards e uma colega, Brittany Henderson, enviaram uma carta lacrada ao juiz, onde descreviam o relato de ‘Jane Doe’ como “inconsistente”.

No dia 1 de março de 2024, a advogada de ‘Doe’ enviou a sua própria carta ao juiz Rakoff, criticando a intervenção dos advogados de Black no caso do JPMorgan e acusando Edwards e Henderson de conduta imprópria. Christensen introduziu ainda uma nova informação: ‘Jane Doe’ teria guardado diários dos 16 aos 19 anos a descrever os abusos que sofreu.

Menos de um mês após Rakoff receber a carta de Estrich, o juíz convocou, a 15 de março de 2024, a primeira audiência no inquérito sobre ‘Jane Doe’. A mãe adotiva da alegada vítima, que estava presente, explicou que Edwards fez perguntas “de uma forma agressiva e invasiva”.

“Fiquei chocada com o tom dele, especialmente porque ele estava lá como advogado da ação coletiva, o que significa que ele deveria estar a protegê-la como queixosa, em vez de submetê-la a um interrogatório hostil esperado num processo criminal”, referiu.

Cientes de que Rakoff faria uma decisão final até 31 de julho, Estrich e outro advogado de Black, Michael Carlinsky, enviaram uma carta ao juiz no dia 19 de julho. Estrich e Carlinsky terão descoberto, por meio de um colega do escritório ‘Paul, Weiss’, que Rakoff tinha “levantado a questão” sobre a possibilidade de Black chegar a um acordo com Doe. Sabendo desta informação, os advogados Estrich e Carlinsky decidiram referir na carta que Black não tinha intenções disso, partilhando também um apelo emocional feito pelo milionário.

Desde a morte do meu pai, há 49 anos, nunca senti tanta dor e vi tanto sofrimento infligido àqueles que amo… Não posso fazer um acordo com Jane Doe (…), não apenas pelo dano que as suas mentiras causaram, mas, principalmente, porque não sei como poderia olhar nos olhos dos meus filhos e netos e ensiná-los a importância de Shem Tov [em português, Um Bom Nome]”, escrito na carta.

O pai de Leon Black, Eli Black, era o CEO da United Brands, importadora da banana Chiquita. A 3 de fevereiro de 1975, Eli Black atirou-se da janela do seu escritório no 44º andar do Edifício Pan Am, na Park Avenue. Após a sua morte, foi revelado que tinha autorizado um suborno de 2,5 milhões de dólares (2.124.600 milhões de euros) ao presidente de Honduras, numa tentativa de obter impostos de exportação mais baixos para bananas. Leon Black não partilhou estes detalhes sobre a morte do pai na carta, mas não havia necessidade de o fazer, já que o procurador federal que acusou na altura a United Brands foi Jed Rakoff.

Assim como fez com outros documentos que recebeu durante o inquérito a ‘Doe’, o juiz não incluiu a carta de Black no processo público da ação coletiva contra o JPMorgan. A 31 de julho de 2024, Rakoff revogou integralmente os 2,5 milhões de dólares que iriam ser concedidos a Doe, excluindo-a também do Fundo de Saúde Mental das US Virgin Islands (USVI) para sobreviventes de Epstein.

Tendo em conta esta decisão, os advogados de ‘Doe’ aconselharam-na a recorrer ao processo. Contudo, a 21 de agosto de 2024, o juiz aprovou uma indemnização a Jane de 200.000 dólares (169.988 euros), tornando-a elegível, mais uma vez, para o USVI.

Nesse ano, no processo civil de ‘Jane Doe’ contra Leon Black, no dia 23 de abril, Jessica Clarke, a juíza federal, sancionou Christensen por “conduta imprópria grave”, afirmando que “mentiu repetidamente ao tribunal e à parte contrária”. Neste momento, Christensen já não é a advogada de ‘Doe’, que se está a representar a si própria por agora.

No processo civil ‘Jane’ alegou que Black abusou dela com brinquedos sexuais e que a terá ainda mordido a zona íntima, causando-lhe sangramento e dor extrema. Os advogados de Black afirmaram que as alegações de Doe são “totalmente inventadas”.

Numa declaração ao The Guardian, ‘Jane Doe’ contou que este processo judicial “se tornou em algo muito mais amplo” do que ela esperava: “Passou a ser uma questão sobre o que acontece quando um sistema criado para fazer justiça se torna mais uma fonte de danos. Sofri retaliação, deturpações, escrutínio público e repetidas tentativas de minar a minha credibilidade. Fui deixada a navegar por este processo sozinha, com tempo e recursos limitados, além de um custo pessoal enorme. Houve momentos em que não sabia se conseguiria continuar. Mas fiz uma promessa a mim mesma de que não desistiria“, assegurou.

Leon Black, agora com 74 anos, nunca foi condenado por crimes relacionados com Epstein, mas já foi questionado várias vezes sobre o seu envolvimento neles. Inclusive, foi acusado de mais uma violação, também na casa de Epstein, por uma outra mulher, Cheri Pierson.

Ex-presidente do Apollo, fundo americano que fez negócios em Portugal, acusado de violação na mansão de Jeffrey Epstein

Texto editado por Dulce Neto