“Após revisão, o jogador número 19 do West Ham comete falta sobre o guarda-redes. Decisão final: pontapé livre direto”. Quando o árbitro proferiu estas palavras no final do período de compensação do encontro do Arsenal frente aos hammers, em pleno Estádio Olímpico, houve um misto de reações da euforia à depressão. A equipa da casa, comandada por Nuno Espírito Santo, via fugir um ponto que pode ter sido a machadada final na luta para fugir ao Championship. Os visitantes, liderados por Mikel Arteta, davam mais um passo quase decisivo para quebrarem finalmente um jejum de mais de duas décadas sem vencer o título. Foi um momento tão importante, mas tão importante mesmo, que houve mesmo um adepto dos gunners que decidiu tatuar essa frase no braço esquerdo. Confiança não faltava mas nada estava ainda definido.

Leandro salvou a equipa que quase voltou a meter água: Arsenal resiste com golo de Trossard, antes de VAR anular empate do West Ham no fim

O Manchester City teve o deslize em Liverpool com o Everton que pode ter marcado a história desta Premier League mas continuava a pressionar o Arsenal na perseguição ao primeiro lugar. As contas eram fáceis de fazer: se os gunners ganhassem os dois jogos em falta, eram campeões; se empatassem um, a decisão podia cair para a diferença entre os golos marcados e sofridos; se perdessem um, passavam a depender daquilo que fossem os resultados do conjunto de Pep Guardiola. Não havia margem de erro mas tudo jogava a favor dos londrinos, que começavam por receber o já despromovido Burnley e que vão terminar a competição com um jogo frente ao Crystal Palace, que quatro dias depois vai jogar a final da Liga Conferência com os espanhóis do Rayo Vallecano. Apesar disso, Arteta continua a pedir cautelas e mais cautelas nesta reta final.

Porquê? Todos pensavam mais à frente e, olhando para o histórico do Burnley na Premier League, anteviam não só uma vitória mas também com muitos golos, para deixar a equipa mais confortável para a última ronda da prova, no domingo. Desde o início de novembro, quando recebeu e perdeu com o Arsenal, a formação do português Florentino Luís conseguiu apenas uma vitória, com mais oito empates e 18 derrotas. Pior seria quase impossível, entre outro dado que seria um aliciante: melhor marcador da equipa com 21 golos em todas as competições, Viktor Gyökeres podia tornar-se apenas o quarto jogador dos gunners a marcar dez ou mais golos em casa na Premier League como Thierry Henry, Lacazette (11 cada) e Olivier Giroud (dez), algo que começou por tornar-se menos “provável” quando foram conhecidos os onzes iniciais… com surpresas.

Com Mosquera a assumir a lateral direita perante as ausências dos lesionados Jurriën Timber e Ben White e Ödegaard a reocupar posição no meio-campo em vez da experiência bem conseguida de Lewis-Skelly, a maior surpresa foi a apostar em Kai Havertz na frente com Viktor Gyökeres no banco. Não era a única novidade em termos estruturais, com Eze a cair mais na esquerda do que é habitual e os alas a jogarem também mais por dentro do que é habitual. Os efeitos práticos, esses, demoraram: o Burnley até teve uma entrada a jogar de olhos nos olhos, acabou depois por recuar linhas para sobretudo tentar defender bem e, à meia hora de jogo, Trossard tinha criado a única verdadeira oportunidade de perigo com um remate ao poste (15′). A capacidade de saída dos visitantes era quase nula mas Hannibal ainda teve uma tentativa ao lado (27′).

Com o intervalo cada vez mais perto, o Arsenal foi começando a apertar ainda mais a malha. Bukayo Saka quase marcou num cruzamento com o pé direito que ganhou um efeito estranho e por pouco não conseguiu surpreender Max Weiss (30′), antes Eze teve um remate que saiu à figura do guarda-redes alemão (28′), o mesmo Saka voltou a aparecer na área com perigo antes de um corte por trás de Lucas Pires que motivou muitos protestos por parte da equipa da casa e deixou Mikel Arteta de mãos na cabeça (34′), Ödegaard teve um remate sozinho na área que saiu ao lado após sofrer um desvio (37′). O golo parecia inevitável e surgiu uns segundos depois: bola parada na direita marcado por Saka com o arco para dentro, entrada de Havertz ao primeiro poste e desvio de cabeça para o 1-0 (37′). Só em cantos, os gunners levavam 18 golos…

Saka ficou muito perto de aumentar a vantagem com um remate em arco a rasar o poste mas o intervalo chegaria com a margem mínima. A partir daqui, e até perante a incapacidade de saída do Burnley, o Arsenal tinha um de dois caminhos: geria o jogo e a vantagem, sabendo que o principal objetivo estava cumprido, ou acelerava ainda mais para chegar a um maior avanço que permitisse outra gestão na última jornada com o Crystal Palace, caso o City vencesse o Bournemouth. Sem nunca perder o controlo do jogo, com Declan Rice a ser mais uma vez um monstro a dominar o corredor central com e sem bola, os gunners foram tentando criar oportunidades para fechar o jogo mas tiveram mais dificuldades perante a competitividade do Burnley, tendo ainda um susto pelo meio quando Havertz teve um lance que ainda foi ao VAR mas não deu expulsão.

Perante essa letargia, Arteta mexeu e logo em dose tripla, com as entradas de Hincapié, Lewis-Skelly e Viktor Gyökeres em busca do segundo golo que resolvesse de vez a partida. Nem perto disso ficou. Ainda assim, e mesmo correndo esse risco de sofrer nos últimos minutos e ver o título escapar entre os dedos, o Arsenal foi gerindo da melhor forma a partida e segurou mesmo os três pontos com a bola parada a ser de novo decisiva, ficando agora à espera do que possa fazer o Manchester City. Se não ganhar, o Arsenal é campeão; se vencer, tudo ficará adiado para a última jornada… mas só com os gunners a dependerem apenas de si.