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O Livre homenageou esta quinta-feira a primeira mulher a votar em Portugal, Carolina Beatriz Ângelo, no dia em que se assinala o centenário da instauração da ditadura militar.
Na manhã de 28 de maio de 1926, há precisamente 100 anos, o general Gomes da Costa protagonizou um levantamento militar, iniciado em Braga. O golpe instaurou uma ditadura militar no país, que deu origem ao Estado Novo, regime repressivo apenas derrotado quase 50 anos depois com a Revolução dos Cravos.
Em contraponto, também num 28 de maio, mas de 1911, uma mulher desafiava as leis da 1.ª República: Carolina Beatriz Ângelo, médica, republicana e sufragista, tornou-se na primeira mulher a votar em Portugal, aproveitando uma lacuna da lei da altura, que definia que apenas podiam votar os portugueses maiores de 21 anos, residentes em território nacional, que soubessem ler e escrever ou fossem chefes de família, sem especificações quanto ao sexo.
Viúva e com formação superior, votou para a Assembleia Constituinte, na qual viria a ser debatida e aprovada a Constituição de 1911.
Foi perto do local onde Carolina Beatriz Ângelo terá iniciado a sua caminhada até à secção de voto, junto ao Jardim Constantino, em Lisboa, que os porta-vozes do Livre Rui Tavares e Isabel Mendes Lopes, acompanhados por uma comitiva do partido, depositaram esta quinta-feira duas coroas de flores.
Uma com rosas e cravos vermelhos, cor republicana, e uma segunda com as cores verde, branca e lilás que em 1907 “tinham sido adotadas com as cores do movimento sufragista internacional”, realçou Rui Tavares.
“À pergunta do porquê homenagear Carolina Beatriz Ângelo hoje, responde-se com outra pergunta: como não homenagear Carolina Beatriz Ângelo hoje? como não fazer do 28 de Maio, o de 1911, o dia em que se celebra o direito de voto, as liberdades, a construção da democracia e não o dia em que, 15 anos mais tarde, ela levaria uma machadada que acabou por nos custar uma ditadura, a mais longa da Europa”, lamentou o porta-voz do Livre.
A 1.ª República foi um período marcado por forte instabilidade política, com governos que se sucederam uns aos outros, além da instabilidade internacional, com uma guerra na Europa.
Rui Tavares disse acreditar que “se tivéssemos muitas Carolinas Beatriz Ângelo” à época, o regime republicano teria sido “mais resiliente”.
“Esta é uma maneira de lembrar a toda a gente que, para a nossa democracia, vale o mesmo: toda a gente, enquanto tem, no tempo que tem, deve lutar para que as liberdades não se percam“, apelou.
Ao seu lado, a também porta-voz e líder parlamentar do Livre, Isabel Mendes Lopes, considerou importante assinalar este dia porque ao mesmo tempo que representou “uma vitória”, a esta seguiu-se “uma repressão” imposta pelo regime, que se apressou a alterar a lei e especificar que apenas homens poderiam votar.
Além de homenagear a sufragista, Isabel Mendes Lopes alertou para a importância de lembrar uma “luta que não termina no direito ao voto” mas sim na plena participação das mulheres na política.
“A participação é garantida por lei de forma igualitária, mas depois na prática não é isso que acontece. Quando temos uma Assembleia da República que tem cerca de 30% de deputadas, a maior parte dos presidentes de Câmara são homens, e mesmo nos lugares de poder continuam a ser predominantemente homens e isso mostra que há barreiras que não são de lei, mas são estruturais à participação das mulheres”, realçou.