Há muito que a Ferrari produz modelos com mecânicas híbridas plug-in que juntam os potentes e roucos motores a gasolina da marca com unidades eléctricas alimentadas por baterias recarregáveis para incrementar a potência e diminuir o consumo, como é o caso dos SF90, 296 e 849 Testarossa. Esta semana, depois de lançar tantos modelos electrificados, a marca do Cavallino Rampante finalmente lançou o Luce (luz, em italiano), o seu primeiro modelo eléctrico. Potência não lhe falta, mas já o mesmo não se pode dizer do fabuloso roncar dos V6, V8 e V12, que desaparece (embora não totalmente).
A Ferrari é mestre na produção de automóveis, pois não só é o construtor com maiores margens de lucro por veículo fabricado, como não introduz um único veículo nas linhas de produção que não esteja antecipadamente vendido e parcialmente pago. Mas esta verdadeira máquina de fazer dinheiro sobre rodas tem no Luce o seu maior desafio, pois não só este é o seu primeiro veículo eléctrico, como é o seu primeiro modelo que não pode confiar na vantagem sobre a concorrência que os seus espectaculares motores a combustão tradicionalmente lhes permitem. O Luce implica correr riscos nunca vistos para a marca do Cavallino Rampante, uma vez que se trata da primeira berlina de quatro portas e cinco lugares que produz, além de ser o primeiro modelo em que o comportamento em pista e a capacidade bruta de aceleração não são determinantes — pelo menos, como eram até aqui.
Desenhado pelo estilista dos iPhone e iPad
A Ferrari, que possui um gabinete próprio de design, está acostumada a trabalhar com estilistas exteriores, tendo alguns dos seus maiores sucessos saído da prancheta de reputados estilistas como Bertone ou Pininfarina. Desta vez, a marca de Maranello não pretendia mais um coupé agressivo e ousado, cheio de asas e splitters para maximizar o apoio aerodinâmico, mas sim um veículo familiar relativamente espaçoso e confortável, sem abrir mão de algum carácter desportivo, para fazer justiça aos pergaminhos da Ferrari. Com um tão complexo caderno de encargos, é fácil perceber que o construtor italiano tenha tirado um coelho da cartola e surpreendido o mercado ao contratar um novo gabinete de design, o LoveFrom, liderado pelo ex-responsável pelo design da Apple, o britânico Sir Jony Ive, com a colaboração do australiano Marc Newson. O resultado é uma carroçaria diferente de tudo a que estamos habituados na marca fundada por Enzo Ferrari, com linhas fluídas mas elegantes, preocupadas não com o apoio aerodinâmico em curva e nas travagens no limite, mas sim em eficiência aerodinâmica, com objectivo de reduzir as emissões. E daí um Cx de 0,254, melhor que o Porsche Taycan Turbo GT (Cx 0,29; 1033 cv; 290 km/h, 0-100 km/h em 2,3 segundos) e ligeiramente acima do Tesla Model S Plaid (Cx 0,23; 1020 cv; 322 km/h, 0-100 km/h em 2,1 segundos).
É certo alguns dos tradicionais clientes da marca não vão morrer de amores pelas linhas do Luce, em parte devido à ausência da tradicional agressividade das formas, mas tudo indica que esse era o objectivo da marca, que deverá começar a produzir o Luce no 4.º trimestre de 2026, afirmando que a produção já está toda encomendada para os próximos tempos. O construtor, que garantiu que não iria tentar forçar os actuais proprietários dos Ferrari com motor de combustão a comprar o Luce, espera que para 80% destes compradores esta seja a primeira vez que adquirem um carro da marca, com o Luce a ser o primeiro Ferrari a quem a marca não vai exigir que possuam outros modelos com emblema do Cavallino Rampante — 81% dos candidatos a comprar um novo modelo da marca já possuem mais do que um Ferrari na sua garagem —, ao contrário do que aconteceu com o Purosangue, por exemplo, em que o construtor privilegiou os candidatos a proprietários que já eram clientes da casa.
Chassis está cheio de truques
Com o Luce, a Ferrari entra decididamente numa nova era, uma vez que o modelo além de potente, rápido e ágil de comportamento — se bem que não seja de esperar encontrar um Luce num próximo track day —, passou a ter como objectivo transportar uma família e a respectiva bagagem, assumindo-se como o único Ferrari com espaço para cinco (o Purosangue aloja apenas quatro ocupantes) e uma bagageira com 597 litros, bem acima dos 473 litros do SUV Purosangue.
Apesar da carroçaria do Luce exibir linhas suaves e elegantes, mas que não suscitam grande paixão, não deixam de estar de acordo com as necessidades da berlina, prova que o gabinete LoveFrom trabalhou mesmo em apertada colaboração com o Centro Stile Ferrari. O capot frontal não oferece uma frunk, talvez por esta complicar a presença de um conjunto de entradas de ar através da grelha e saídas pelo capot, de forma a controlar o fluxo de ar frontal, optimizando o coeficiente de penetração aerodinâmica (Cx). O mesmo tratamento é visível nos painéis laterais, mas sobretudo no traseiro, onde foi realizado um esforço para controlar o fluxo aerodinâmico, não como é habitual na Ferrari para incrementar a tracção e a aderência, mas sim para optimizar a aerodinâmica e reduzir o consumo.
À semelhança do Purosangue, o Ferrari Luce recorre a portas suicidas na traseira, mantendo os pilares centrais
A Ferrari manteve para o Luce toda a estratégia que sempre seguiu para os seus modelos, que consiste em conceber veículos rígidos, em prol do comportamento, mas simultaneamente leves, com recurso a materiais mais ligeiros para optimizar a aceleração e o comportamento. Daí que a carroçaria que saiu da prancheta da LoveFrom seja integralmente produzida em alumínio reciclado — além do vidro Corning Gorilla Glass utilizado no tejadilho —, mais amigo do ambiente e mais leve. O chassis, que foi concebido pela Ferrari sem recurso a outros construtores — mesmo chineses, como hoje parece ser habitual entre as marcas tradicionais europeias —, também recorre exclusivamente a alumínio, entre soluções estampadas e extrudidas, para garantir a desejada rigidez e peso mínimo. Daí que o Luce, mesmo tendo a bordo quatro motores, uma bateria com uns generosos 122 kWh e 630 kg de peso de 630 kg, a que é necessário adicionar um comprimento total de 5,026 metros (mais 5,3 cm do que o Purosangue) e uma distância entre eixos de 2,961 m (menos 5,7 cm do que o SUV da Ferrari), reivindique um peso total de 2260 kg, apenas mais 90 kg do que o Purosangue que, recordemos, recorre a um V12 atmosférico.
Por dentro, o Luce é moderno a piscar o olho ao clássico
Tal como o Purosangue, o Luce oferece quatro portas, sendo as traseiras do tipo suicida (abrem ao contrário, ou seja, da frente para trás), mantendo contudo o pilar central, pois a rigidez do chassis é determinante num modelo desportivo. O acesso a bordo parece ser igualmente simples e acessível para qualquer um dos cinco ocupantes mas, uma vez lá dentro, surge de longe o habitáculo mais amplo jamais proposto por um Ferrari.
Para esta sensação de espaço a bordo contribui o tablier de linhas mais direitas e menos envolvente, relembrando os Ferrari clássicos, mas que continua a oferecer ao condutor um painel de instrumentos completo e legível e o habitual volante da marca, onde não faltam os tradicionais dois “manettinos”, o da esquerda para regular a utilização do motor e a carga da bateria, com as opções Range, Tour e Perfo. Do lado direito do volante está o “manettino” que regula a potência e a gestão dos quatro motores, bem como os sistema de vectorização do binário, controlo de tracção e de estabilidade, com as posições Ice, Wet, Dry, Sport e ESC off.
Além das quatro portas e cinco lugares, o Luce é ainda capaz de satisfazer as necessidades da família ao oferecer uma bagageira gigante, para os padrões da marca italiana. A bitola tinha sido definida pelo SUV Purosangue, o primeiro modelo da casa a ser produzido em série com quatro portas, que disponibiliza uma mala com 473 litros de capacidade. O Luce vai mais longe e, mesmo não possuindo frunk, anuncia uma bagageira com 597 litros. Destaque ainda para as quatro saídas dos ventiladores, igualmente a lembrar os Ferrari de outros tempos, bem como o ecrã central, que é orientável (para a esquerda e para a direita), sendo provavelmente a herança mais evidente da filosofia de estilo da Apple.
Mecânica potente e quatro rodas motrizes e direccionais
O Ferrari Luce monta quatro motores, cada um deles associado à sua roda, de forma a poderem ser controlados separadamente, o que ajuda a retirar o máximo partido do controlo de tracção e modular a aplicação de potência em cada roda para adaptar o comportamento da berlina ao estilo de condução. Os motores eléctricos são ainda de um novo tipo, com ímãs permanentes dispostos segundo o princípio de Halbach, o que aumenta o torque (força) e reduz o peso, solução que é herdada dos motores eléctricos que utiliza nos F1.
À frente existem dois motores que somam 286 cv (210 kW), atingem 30.000 rpm e pesam somente 65 kg, tendo ainda a capacidade de serem desconectados para reduzir as perdas mecânicas e o consumo, sempre que o Luce circula em cidade ou em estrada a uma velocidade moderada. Na traseira estão os dois motores principais, maiores e mais potentes, que totalizam 843 cv e atingem 25.500 rpm, com um peso de 129 kg, o que significa que o Luce tem à sua disposição, mas a gestão electrónica limita a potência total a 1050 cv. Mais potência surgirá certamente quando a Ferrari decidir lançar versões mais desportivas.
A existência de quatro motores controlados separadamente permitiu aos engenheiros da Ferrari equipar o Luce com tracção às quatro rodas e um sistema de direcção igualmente às quatro rodas. A alimentar as quatro unidades motrizes está uma bateria com uma capacidade bruta de 122 kWh (a capacidade útil ainda não foi revelada), o que explica os 530 km de autonomia, ainda que este valor esteja em fase de homologação segundo o método WLTP. A arquitectura a 800V permite recarregar a potências de até 350 kW, o que deixa antever (poucos) minutos ligado ao posto de carga, antes de continuar viagem. E, para quem tenha saudades do roncar dos motores a gasolina da marca, a Ferrari concebeu um simulador de ruído que aproveita as frequências emanadas pelos próprios motores eléctricos. À semelhança de outras soluções similares já disponíveis no mercado, o resultado final não nos impressionou.
Preço e performance
Com 1050 cv, que o coloca já acima dos 1020 cv do Model S Plaid e dos 1033 cv do Taycan Turbo GT, o Luce já figura as berlinas eléctricas mais rápidas potentes e rápidas do mercado, ao anunciar 310 km/h de velocidade máxima e 0-100 km/h em 2,5 segundos. E estes valores, mesmo dentro da gama da Ferrari, enfrentam sem problemas os seus “irmãos” a gasolina, batendo-se de igual para igual com os Ferrari Amalfi e Purosangue em velocidade máxima e batendo em aceleração o 12Cilindri (2,9 seg), o 296 GTB (2,9 seg), o 296 Speciale (2,8 seg), o Amalfi (3,3 seg) e o Purosangue (3,3 segundos), sendo apenas ultrapassado pelo 849 Testarossa e pelo novo F80.
O Luce vai ser produzido em Maranello, numa fábrica que a Ferrari projectou de raiz para modelos a bateria e que constitui um investimento considerável de que o Luce será o primeiro beneficiário. O estimado volume de vendas para o primeiro modelo da marca a bateria não foi avançado, mas da mesma forma que a produção do SUV Purosangue foi propositadamente limitada a 20% da produção total, o que equivale a 4000 unidades/ano, o construtor italiano avançou que a produção do Luce não ultrapassará 5% da produção total, ou seja, 1000 unidades/ano.
O Luce começará a ser entregue a partir de Outubro de 2026 no mercado europeu, por um valor que rondará 550.000€ (antes de impostos), um valor que fica ligeiramente acima dos 400.000€ exigidos pelo Purosangue.