Os serviços de informações dos EUA estão em alerta para a possibilidade de Israel estar a tentar espiar os negociadores norte-americanos envolvidos na tentativa de um acordo de paz com o Irão. Ao mesmo tempo, o Pentágono elevou o nível de ameaça da contra-espionagem israelita para o máximo, algo inédito na história da relação entre os dois países.
A notícia é adiantada pelo The New York Times, que cita relatórios dos serviços de informações dos EUA assinalando uma crescente preocupação com as tentativas de espionagem de Israel sobre Steve Witkoff, o principal negociador do Presidente Donald Trump para um acordo de paz com o Irão.
Além disso, também terão sido visados Elbridge A. Colby, o principal responsável pela política do Pentágono, e um dos seus principais adjuntos, Michael P. DiMino IV. Tanto um quanto o outro, assinala o jornal, defendem uma política externa isolacionista, ou seja, tendente a reduzir o nível de apoio concedido pelos EUA a Israel.
O NYT frisa que é uma prática tácita entre todos os aliados espiar-se entre si, mas que os esforços de Israel para obter informações sobre as posições dos EUA nas negociações com o Irão terão, para alguns oficiais norte-americanos, ultrapassado os limites. E mesmo que Israel seja um país conhecido por “recolher agressivamente” informações tanto de aliados quanto de adversários, um alto funcionário norte-americano desabafa que a situação atingiu um nível “descontrolado”.
A notícia do jornal nova-iorquino saiu pouco depois de uma outra avançada pela NBC News, dando conta de que a Agência de Informações de Defesa (DIA, Defense Intelligence Agency), ligada ao Departamento de Defesa dos EUA, atualizou o nível de ameaça de contra-espionagem de Israel de “elevado” para “crítico”, o mais alto possível.
O canal baseia a sua investigação nas declarações de dois funcionários dos EUA e de um ex-funcionário — os três sob anonimato —, que dizem ter sido produzido um relatório de sete páginas por esta agência do Pentágono. No documento, referem, está expresso que a capacidade de Israel em realizar espionagem humana e recolha técnica encontra-se a um “nível crítico”, citando também uma série de incidentes específicos que agravaram as preocupações dos EUA.
Entre os incidentes, adiantou mais tarde o NYT, está um caso registado em 2021, quando oficiais de informações militares israelitas foram apanhados a instalar dispositivos de escuta na sede da DIA. Já em 2025, foi descoberto que alguns oficiais do Shin Bet, a agência de informações internas de Israel, tentaram instalar um dispositivo de escuta numa viatura dos serviços secretos dos EUA.
Segundo a NBC News, os funcionários norte-americanos já tinham indicações explicitas para tomar precauções adicionais em caso de viajarem para Israel ou de se encontrarem com oficiais israelitas, mas agora terão de redobrar as cautelas. Entre as práticas recomendadas estão usar telemóveis e computadores descartáveis e tomar particular cuidado ao falar em quartos de hotel durante viagens oficiais.
No entanto, esses esforços de segurança têm sido colocados em causa pelos próprios enviados da administração Trump. Segundo afirmou um antigo alto funcionário norte-americano com experiência a lidar com Israel, vários têm tido a tendência indesejável de viajar em aviões privados, tratar de assuntos de segurança nacional nos seus telemóveis pessoais e recusar pessoal das embaixadas dos EUA no estrangeiro, tornando-os particularmente vulneráveis a tentativas de espionagem.
Estes alertas surgem numa fase em que, apesar de os EUA e de Israel manterem um estrito nível de coordenação no que toca às operações no terreno no Médio Oriente, têm vindo a divergir cada vez mais no que toca ao desenlace da guerra com o Irão. Se Donald Trump e a sua administração têm tentado chegar a um acordo de paz com Teerão, Benjamin Netanyahu mantém a vontade de enfraquecer as capacidades do regime iraniano ou mesmo derrubá-lo, querendo também continuar a atacar o Hezbollah no Líbano.
De acordo com os dois órgãos de comunicação social, tanto o Pentágono como o gabinete da Diretora de Informação Nacional — que supervisiona todas as agências de informação do país — recusaram-se a comentar estes desenvolvimentos.
Já um porta-voz da Embaixada de Israel em Washington afirmou em comunicado que estas notícias são “completamente falsas”. “Israel não recolhe informações sobre entidades americanas, muito menos sobre funcionários do governo dos EUA. Os esforços de recolha de informações de Israel visam os seus inimigos, não os seus aliados. Quaisquer alegações em contrário são baseadas em informações erradas ou têm motivação política”, acusou o representante israelita.
A Casa Branca também já reagiu numa curta nota, considerando que “toda esta história é falsa e tem como fonte alguém que não tem qualquer conhecimento do que se passa”.