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Marcelo Bielsa chegou a esta estreia do Uruguai em Miami afirmando categoricamente que a sua “fórmula” não tinha segredos. O plano tático da seleção celeste para o confronto previa uma saída de bola elaborada, a manutenção da posse e a intenção de atacar com um grande volume de jogadores, procurando sempre a recuperação rápida em campo contrário. Para o treinador, a preparação estratégica realizada em Montevideu – que visou proporcionar vida familiar aos atletas após uma época desgastante na Europa – e a influência técnica imediata de Federico Valverde eram os pilares que sustentavam a confiança uruguaia para o embate.

Do outro lado, a Arábia Saudita de Georgios Donis entrava no relvado com a promessa de recusar a passividade e uma postura meramente defensiva. Apesar de ter tido um tempo de preparação extremamente limitado, com apenas 12 sessões de treino desde que assumiu o cargo em abril, o treinador grego sublinhava que a filosofia saudita passava por ser audaz e procurar os seus próprios resultados. Donis reconhecia que o Grupo H era um dos mais difíceis do torneio, mas encarava o desafio contra o Uruguai como um passo fundamental para construir uma identidade de sucesso a longo prazo para o país.

Este embate no Hard Rock Stadium marcava, assim, o encontro entre a consolidada estrutura de Bielsa – que não escondia a utilização de dois extremos e de um “9” – e a audácia de uma renovada equipa saudita. Num grupo que contava também com a presença da Espanha e de Cabo Verde, que tinham empatado horas antes, ambas as seleções sabiam que a margem de erro era mínima, transformando esta estreia no palco onde a procura pelo protagonismo prometida pelos dois técnicos era finalmente posta à prova pela realidade da competição. E a realidade começou fora do campo: bem antes de jogar, a seleção uruguaia também foi sujeita à habitual revista à sua bagagem com recurso a cães pisteiros. O processo não agradou à comitiva sul-americana. A chegada aos Estados Unidos trancava os rostos uruguaios, que queriam um sorriso no seu jogo de estreia.

Os primeiros minutos de jogo acabavam por morrer nas palavras ditas nas salas de conferência de imprensa por ambos os selecionadores. O que se esperava ser uma entrada de alta intensidade latina e um bate-volta saudita transformava-se numa seleção uruguaia inconsequente diante de um oponente que parecia atropelar-se a si próprio nos momentos pontuais em que conseguia recuperar o esférico ao adversário.

Pareciam aparecer os nervos da estreia no Hard Rock Stadium, de parte a parte. O início morno pedia um abanão em Miami, mas, com 20 minutos de partida, tudo o que se havia produzido tinha sido uma finalização uruguaia à figura e outro remate dos sul-americanos fora do alvo. À esquerda, Maxi tentava dar o abanão que os adeptos pediam. Ao meio, na equipa contrária, era Mohammed Kanno que também tentava fazer algo que nunca aconteceu até à pausa de hidratação. Esse pequeno intervalo era, naquele momento, visto como uma esperança de mudança do jogo para melhor, ao contrário de muitos outros, que podem contribuir para quebrar o ritmo de um jogo que se quer sem pausas.

A pausa não teve efeitos imediatos porque Mohammed Al-Owais não permitiu, com uma defesa apertada. Cerca de 4 minutos depois do fim da interrupção, Manuel Ugarte teve na cabeça a oportunidade de alterar o marcador e fazer o primeiro golo do Uruguai no Mundial-2026, depois de uma jogada que começou na direita e terminou na intervenção do guarda-redes saudita. Depois foi Moteb Al-Harbi que quis assumir o papel de número 10 à moda antiga e não o de lateral esquerdo – posição que ocupa – para ultrapassar três adversários e ser travado apenas em falta. O livre deu em canto, depois de uma intervenção de Muslera. Seguiu-se o segundo grande momento da primeira parte, com uma grande defesa do experiente guarda-redes. O segundo, porque pouco depois, aos 40′, chegaria o primeiro golo da partida, com Abdulelah Al-Amri a fazer a recarga a um cabeceamento de Mohammed Kanno. A surpresa estava instalada e aquela pausa parecia ter dado efeitos no jogo. Ao intervalo, a seleção saudita vencia e já havia alguma vontade de ver um pouco mais, nem que fosse pela surpresa que Al-Amri tinha instalado no jogo.

Essa incerteza parecia inconformar os uruguaios que, sem grandes contemplações, entraram na segunda parte a todo o gás. Se a pausa da primeira parte teve efeitos positivos no jogo, a pausa entre partes teve efeitos positivos particularmente aos comandados de Bielsa, que queria uma melhoria mais acentuada do que aquela que se tinha registado no primeiro tempo. O golo esteve perto de ser gritado por diversas vezes nos primeiros 15 minutos de segundo tempo e o maior bruá esbarrou no ferro, quando Ugarte voltou a visar a baliza de Al-Owais, aos 61′.

As aspirações sauditas cresciam com o tempo de jogo. Com 15 minutos para jogar até ao 90′, os underdogs estavam próximos de operar a terceira surpresa do dia. Depois de Cabo Verde ter empatado com a seleção espanhola e de o Egito ter travado a Bélgica, a Arábia Saudita podia melhorar o registo da surpresa, vencendo os primeiros campeões mundiais. No entanto, Maxi Araújo continuou o ritmo da primeira parte e, depois de um cabeceamento de Federico Viñas, recolocou as esperanças da seleção do Uruguai na vitória, com o golo do empate aos 80 minutos de jogo. Os celestes tinham 10 minutos para tapar a pouca eficácia que tinham tido durante quase toda a partida.

Já sem Maxi, foi Brian Rodríguez pela esquerda que ameaçou o golo da vitória. Mas a presença de Mohammed Al-Owais fazia sentir-se entre os postes e nos números do resultado. De cabeça, pelo chão ou de meia distância, o guarda-redes saudita negou sempre a vantagem dos uruguaios e, mesmo quando parecia que a lei do mais forte iria prevalecer, o guardião colocou-se sempre entre o sonho saudita e o fatalismo de uma seleção com mais argumentos individuais, como é o caso da equipa uruguaia, que não conseguiu chegar ao golo da vitória.

A estrela

  • Mohammed Al-Owais acreditou e fez acreditar. Quando não estava ele, estava o poste e levou nas suas intervenções uma seleção saudita que se sustentou quase exclusivamente no seu guardião, no sentido mais literal da palavra. Já depois dos 90′, durante o período de descontos, evitou duas oportunidades claras para a seleção uruguaia levar os três pontos.

O joker

  • Havia uma grande reticência com as pausas para hidratação neste Mundial, muito à conta de questões comerciais. Depois surgiram as pausas que quebravam o ritmo de jogos que se queriam sem interrupções. No jogo entre a Arábia Saudita e o Uruguai, apareceu um novo conceito: a pausa que deu ritmo à partida. A pausa para hidratação da primeira parte separou duas faces completamente assimétricas no jogo. Se antes da pausa, o jogo carecia de ritmo, oportunidades e vontade de ver mais, a seguir foi o inverso, inclusive com a mudança no marcador ainda antes do intervalo e a constante repetição de jogadas de perigo junto das duas balizas.

A sentença

  • Com este empate, as duas seleções favoritas do grupo H (Espanha e Uruguai) veem-se agora mais pressionadas para o que resta da fase de grupos. Ambas as seleções “deixam” pelo caminho dois pontos teoricamente alcançáveis e restam apenas duas partidas – uma delas, uma equipa diante da outra.

A mentira

  • Não era de todo a entrada que se esperava em qualquer jogo que o Uruguai dispute. Foi preciso um ajuste tático de Bielsa para que a habitual intensidade dos uruguaios tivesse consequência com chegadas à baliza que só se registariam com mais frequência e intenção depois da segunda parte. O estatuto de equipa mais aguerrida não vence os jogos fora de campo, por si só. Esta partida foi um dos exemplos disso mesmo.