Era um daqueles jogos entre dois países que, se não existisse um Campeonato do Mundo, dificilmente entrariam na mesma frase. Áustria e Jordânia são mundos distintos, culturas distintas, realidades distintas — no futebol e na vida, já que os dois paradigmas estão sempre interligados. Durante 90 minutos em São Francisco, porém, Áustria e Jordânia dividiam o protagonismo na maior e melhor competição de futebol do mundo.
De um lado, a Áustria regressava a um Campeonato do Mundo pela primeira vez desde 1998. Apesar de se qualificarem de forma recorrente para os Europeus, os austríacos ainda não tinham conseguido marcar presença num Mundial no século XXI — sendo que para encontrar a última vitória do país na competição era preciso recuar a 1990 e a um jogo contra os EUA em Florença.
Jordânia (grupo J). O sonho comanda a vida de quem nasceu entre guerras e tem fogo para ir além
Contudo, do outro lado, a Jordânia era uma das estreantes em Mundiais. A par do Uzbequistão, de Cabo Verde e de Curaçau, os asiáticos cumpriam os primeiros minutos num Campeonato do Mundo e tinham como inspiração os cabo-verdianos, que vergaram Espanha a um empate sem golos, e também os caribenhos, que apesar de terem sido goleados pela Alemanha conseguiram marcar um golo.
A comitiva da Jordânia está baseada em Portland, no Estado norte-americano do Oregon, mas já está nos EUA há várias semanas — e há tempo suficiente para ter recebido uma visita oficial do príncipe Hussein, o herdeiro do trono do país, filho do rei Abdullah II e da rainha Rania. “Tenho uma grande confiança na equipa. Os feitos da seleção nos últimos três anos deram-nos emoções que nunca tínhamos vivido e motivaram-nos a continuar o desenvolvimento do nosso desporto. Temos a oportunidade de apresentar a cultura árabe e da Jordânia ao mundo. Tenho a certeza de que terão uma performance respeitável”, disse o elemento da família real, prolongando um investimento institucional no futebol que já permitiu aos funcionários públicos chegar até três horas depois da hora ao trabalho em dias de jogo no Campeonato do Mundo.
¡GOOOOOOOOOOL! ⚽#Mundial2026 | #AUT ???????? 1-0 #JOR ????????
Romano Schmid pone el primer gol de para la selección de Austria en San Francisco.pic.twitter.com/KUSxN9DPdr
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???????? | GOAL: WHAT A SPECTACULAR GOAL FROM ALI OLWAN!
HE SCORES THE FIRST GOAL EVER FOR JORDAN IN A WORLD CUP!
???????? Austria 1-1 Jordan ???????? pic.twitter.com/4oGN9Mv2Uf
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???????? | OWN GOAL BY YAZAN AL-ARAB!
???????? Austria 2-1 Jordan ???????? pic.twitter.com/M8G8ukh16O
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Assim, no Levi’s Stadium de São Francisco e já depois de a Argentina vencer a Argélia no arranque do Grupo J, Ralf Rangnick tinha Saša Kalajdžić como referência ofensiva, apoiado por Marcel Sabitzer, Xaver Schlager e Romano Schmid, deixando Florian Grillitsch, médio do Sp. Braga, como suplente. Na Jordânia, o óbvio destaque na equipa do marroquino Jamal Sellami ia para o capitão Musa Al-Taamari, avançado do Rennes que é o único da convocatória que atua nas principais ligas europeias.
O jogo mexeu ainda na primeira parte e graças a um golpe de génio de Romano Schmid: o jogador do Werder Bremen recebeu a bola descaído na esquerda, enquadrou-se com a baliza e atirou mais em jeito do que em força para marcar (21′). Os asiáticos reagiram, tiveram várias ocasiões para empatar até ao intervalo, mas só conseguiram marcar já na segunda parte — quando Ali Olwan, na concretização de um excelente contra-ataque, rematou para se tornar o primeiro a marcar um golo pela Jordânia num Campeonato do Mundo (50′).
Arnautovic ainda acertou na baliza, com o golo a ser anulado pelo VAR por mão na bola de Stefan Posch (67′), mas as contas só ficaram decididas com um azar de Yazan Abu Arab, que desviou para a própria baliza na sequência de um canto na esquerda (76′), e uma grande penalidade convertida nos descontos por Arnautovic após mão na bola de Salim Obaid (90+12′). No fim, a Áustria venceu a Jordânia em São Francisco e igualou os três pontos da Argentina no topo do Grupo J.
A estrela
- Num jogo que não teve propriamente grandes individualidades, o golaço de Romano Schmid ficou na retina — até porque inverteu por completo um jogo em que a Jordânia estava a ser mais perigosa, estava a ter mais oportunidades e estava constantemente mais perto da baliza. Aos 26 anos, o médio austríaco nasceu em Graz e cumpriu a formação naturalmente no Sturm Graz, passando depois por RB Salzburgo e Liefering antes de assinar pelo Werder Bremen em 2019. Ainda esteve duas épocas emprestado ao Wolfsberger, mas conquistou o lugar e na última temporada fez 35 jogos pelos alemães.
O joker
- Sem ter conseguido levar a vitória ou os três pontos, Ali Olwan fez história na mesma: marcou o primeiro golo da Jordânia em Campeonatos do Mundo — e que golo, com um remate cruzado na área depois de correr vários metros com a bola nos pés. Aos 29 anos, o avançado natural de Amman, a capital do país, já jogou na própria Jordânia, no Qatar, na Malásia e no Iraque, estando atualmente nos qataris do Al-Sailiya. No que diz respeito à seleção, com o que marcou à Áustria, leva já 30 golos, o que significa que está cada vez mais perto dos 33 de Hamza Al-Dardour, o melhor marcador da história do país.
A sentença
- Com este resultado, a Áustria assume-se como a principal candidata a ficar com o segundo lugar do Grupo J que garante a passagem automática aos 16 avos de final do Mundial 2026. Com a Argentina já destacada na liderança, com três pontos, três golos marcados e nenhum sofrido, a luta parece ter ficado entregue às outras três seleções — e aí, como se viu em São Francisco, os austríacos parecem ter a vantagem da experiência na hora da decisão.
A mentira
- A Jordânia não foi ao Mundial 2026 apenas para passear. Apesar de ter perdido, a seleção asiática impressionou nos primeiros 90 minutos de sempre num Campeonato do Mundo e só pecou na finalização, já que poderia ter chegado ao intervalo empatada ou até mesmo a ganhar, passando por largos períodos de superioridade face à Áustria. Descartando a Argentina do totoloto, a Jordânia pode perfeitamente disputar o jogo contra a Argélia e encontrar aí um surreal terceiro lugar que, neste Mundial, pode significar o apuramento para a próxima fase.