Um grupo composto por várias figuras pertencentes à elite de segurança, política, científica e cultural de Israel enviou uma carta a Benjamin Netanyahu e a vários elementos do seu governo, instando-os a pôr fim ao seu apoio ao “terrorismo judeu” e a uma “ideologia de limpeza étnica” na Cisjordânia ocupada. Os subscritores avisam que, se não forem tomadas ações concretas, vão intentar uma ação judicial no Supremo Tribunal do país.

Segundo o The Guardian, que obteve acesso a esta missiva, e o Haaretz — que noticiou esta iniciativa no dia 18 de junho —, esta carta serve de “sinal de alerta” e “aviso final” ao governo israelita face à violência perpetrada com “impunidade quase total” sobre os palestinianos na Cisjordânia ocupada.

“Exigimos que tomem todas as medidas necessárias para eliminar imediatamente o terrorismo judeu que tem prevalecido na Judeia e Samaria [a denominação israelita da Cisjordânia ocupada] nos últimos anos, durante os quais aldeões e pastores palestinianos têm sido assassinados e feridos, e bens têm sido danificados e saqueados com violência cruel por centenas de jovens criminosos judeus”, citam os jornais.

“Estes criminosos vivem, na sua maioria, em quintas e postos avançados ilegais, a maioria dos quais foi estabelecida sem a aprovação das autoridades competentes. Foram criados perto de comunidades palestinianas, principalmente para prejudicar os seus residentes e expulsá-los das suas aldeias, com o objetivo de promover a sua visão de “redenção da terra”, através da judaização forçada” da Cisjordânia, advertem.

É também alegado no texto que esta campanha de violência e confisco de bens e terras não só violou a legislação israelita e internacional, como isolou o país a nível internacional. Além disso, os subscritores alertam que este tipo de práticas não só tem alimentado o antissemitismo em todo o mundo, como tem colocado a segurança de Israel em risco, visto que estas ações correm o risco de causar retaliações ou mesmo propiciar uma nova intifada.

Redigida pelo advogado Shmuel Berkowitz, a carta foi subscrita por figuras de peso na sociedade israelita, entre elas Ehud Olmert e Ehud Barak, ambos ex-primeiros-ministros do país. No que toca às esferas judicial e de segurança, entre os signatários encontram-se também ex-chefes do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), um ex-diretor do Mossad, dois ex-chefes do Shin Bet, um ex-juiz do Supremo Tribunal, um ex-procurador-geral e três ex-generais de divisão das IDF.

No plano civil e religioso, subscreveram ainda vários rabinos, antigos embaixadores, o antigo diretor executivo da Universidade de Tel Aviv, dez vencedores do Prémio Israel — entre os quais se inclui o conceituado romancista David Grossman — e David Kornberg, investigador laureado com o Prémio Nobel da Química.

A carta, referem os jornais que a obtiveram, foi enviada para o gabinete do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e de vários outros ministros, como o da Defesa, Israel Katz, e da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir. Foi também endereçada às forças armadas, à polícia e aos serviços de informações do país. No texto explicita-se que, se não forem tomadas medidas concretas, o grupo de subscritores vai fazer uma petição junto do Supremo Tribunal de Justiça israelita.

A este respeito, o grupo que subscreve a carta acusa o governo de Netanyahu e os seus parceiros de coligação de extrema-direita de não só fechar os olhos à violência na Cisjordânia, como promovê-la e facilitá-la. “Não se trata apenas de um fracasso militar e policial, mas da implementação de uma política aberta por parte do governo israelita e do seu primeiro-ministro em geral, e dos ministros competentes em particular”. Estes, acusam os signatários, “ordenam às forças armadas, à polícia e ao Shin Bet [a agência de segurança interna] que facilitem o terrorismo de criminosos judeus, porque este fenómeno hediondo serve bem a ideologia do atual governo de levar a cabo uma ‘limpeza étnica’ nos territórios da Judeia e Samaria, a fim de facilitar a sua futura anexação”.

A carta alerta ainda para o facto de que entre os agressores identificados entre os colonos israelitas na Cisjordânia encontram-se membros das unidades de defesa regionais ou militares que já não estão no ativo mas ainda têm as suas armas. “As IDF têm uma política clara de ignorar os crimes do terrorismo judeu e, em muitos incidentes, os próprios soldados das unidades de defesa regionais e das patrulhas de segurança [dos colonatos] estão envolvidos nos crimes do terrorismo judeu“, aponta a carta.

Chefe das IDF denuncia “terrorismo judeu” dos colonos da Cisjordânia e alerta para a possibilidade de “revolta palestiniana”

Esta é a mais séria iniciativa deste género a decorrer em Israel, mas não é a primeira. Em maio, o próprio chefe das IDF, o Major-General Avi Bluth, alertou numa reunião à porta fechada que os colonos da Cisjordânia estão a praticar “terrorismo judeu” e que este pode causar uma “revolta palestiniana”.

No entanto, o governo israelita não só não tem implementado medidas concretas para combater a violência, como tem no seu elenco um colono — o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich — que tem implementado medidas para anexar mais território na Cisjordânia. Esta quarta-feira, Smotrich declarou 46,5 hectares palestinianos como propriedade do Estado para expandir o colonato de Givat HaRoeh, defendendo que se trata de uma medida que “reforça a segurança” dos cidadãos em território israelita.

Israel declara 46,5 hectares na Cisjordânia como propriedade do Estado para expandir colonato de Givat HaRoeh