O presidente executivo (CEO) do Center for Responsible AI sublinha, em entrevista à Lusa, que o Amália não é um sistema conversacional como o ChatGPT e que vai estar disponível para quem aplique a inteligência artificial (IA).

“O Amália vai estar completamente aberto no sentido de aquilo que se chama um modelo aberto e responsável. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que qualquer pessoa pode integrar o Amália [desde] que trabalhe nesta área de inteligência artificial”, diz Paulo Dimas, CEO do centro.

“Não vai haver uma interface de chat para as pessoas interagirem, como se fosse o ChatGPT, porque não é essa a função, é preciso perceber que isto não é um ChatGPT e é muito importante repetir, porque as pessoas normalmente têm no seu imaginário aqueles primeiros momentos de deslumbramento que todos nós sentimos ao usar o ChatGPT e agora pensamos, e agora vamos ter isto em português, feito em Portugal”, enfatiza Paulo Dimas.

O Amália, grande modelo de linguagem (Large Language Model – LLM), é apresentado na tarde desta quarta-feira no Técnico Innovation Center, em Lisboa.

Modelo de linguagem IA em português Amália apresentado “este mês”

“Não é um sistema conversacional que resolve todo o tipo de problemas. É uma peça de inteligência artificial que garante” três níveis de soberania [língua, cultura e dados] “e que vai estar disponível de forma aberta, isto quer dizer que qualquer pessoa pode fazer download, qualquer pessoa que aplique esta inteligência artificial”, reforça.

Paulo Dimas aponta que “é um modelo três vezes aberto”. Primeiro, “é aberto para ser estendido. Imaginemos que nós agora queremos pegar no Amália e queremos aplicá-lo, sei lá, a uma área jurídica, podemos continuar na base do Amália e criar um modelo para isso” ou se se pretendesse “criar um Eusébio: qualquer pessoa podia pegar na forma como foi feito o Amália, que está lá o conhecimento todo partilhado, e seguir o Eusébio”, explica. Ou ainda alguém que queira olhar para os dados “e ver que dados foram usados e usar esses dados para diversas aplicações também o pode fazer”, diz.

Quanto ao cidadão comum, não vai tirar partido diretamente, mas sim quando “estiver a interagir com o assistente do gov.pt, que é o portal da Administração Pública, o portal desenvolvido pela ARTE – Agência para a Reforma Tecnológica do Estado”, exemplifica.

Por exemplo, “se for um professor e estiver a usar o sistema que está a ser desenvolvido na Universidade do Minho pela equipa do Paulo Novais, vai poder tirar partido um professor no sentido de ter o Amália a ajudá-lo a planear as suas aulas, a escrever os sumários e a ter garantia na qualidade do português que é gerado”, aponta o CEO.

Ou até uma startup também vai poder tirar partido do Amália. “Várias startups já vieram falar connosco, sabendo a ligação que temos ao consórcio”, para saber como podem começar a usar o Amália nos seus produtos porque os clientes querem garantir que o português não deriva para o português do Brasil, relata.

Paulo Dimas enfatiza que “o modelo é muito limitado em relação a certas funções que têm vindo a ser acrescentadas a outros modelos, mas é uma base”. Este modelo “é um modelo relativamente pequeno, tem 9 mil milhões de parâmetros, mas já está no ‘roadmap’ um modelo de 22 mil milhões de parâmetros, que irá depois ser anunciado pelo consórcio”, aponta.

“Um aspeto muito importante é que o Amália também não existiria sem ter um outro LLM, que é o EuroLLM”, que foi criado para as línguas da União Europeia, de raiz.

“Acho que é incrível estarmos a viver agora este momento e ter aqui um exemplo de um projeto que não foi desenvolvido pelo Centro [para a IA responsável], super importante que isso fique bem claro, foi apenas, digamos, a faísca inicial foi feita no Centro, dada a investigação nesta área, que em 18 meses cumpriu exatamente os objetivos que estavam previstos”, sublinha Paulo Dimas, admitindo que “o Amália teve muitos detratores” — e que vai continuar a ter, mas como profissional apaixonado pelo projeto, diz “que deve ser uma bandeira nacional para a inteligência artificial”.

Sobre se o Amália vai cantar, Paulo Dimas diz: “Não diretamente, mas através de um modelo que é complementar, desenvolvido pela equipa do Paulo Romano, no Inesc-ID, também vai poder falar, sim, mas não vai cantar, acho eu”.

IA Amália permite soberania da língua, da cultura e dos dados

Questionado para que serve o Amália, Paulo Dimas aponta três razões “e todas a ver com soberania”. “A primeira é a soberania da língua. A segunda, a soberania da nossa cultura, dos nossos princípios, da nossa, se quisermos, para usar a palavra do Papa, da nossa moralidade”, aponta o CEO do Centro para a IA Responsável.

“Nós temos uma moralidade, nós temos determinados princípios. Nós não queremos, por exemplo, que o Amália ajude as pessoas a, sei lá, a difundir que as vacinas são más”, como acontece com outros LLM. Ou seja, “queremos ter o nosso controlo sobre a nossa moralidade, sobre a nossa cultura”, sublinha, apontando que “a terceira soberania é a soberania dos dados”.

“Quando estamos a lidar com dados dos cidadãos nacionais, não queremos que esses dados sejam necessariamente enviados para as clouds das grandes empresas tecnológicas americanas”, daí a importância da soberania sobre os dados, argumenta.

Em síntese, isto “é o que o Amália é: permite ter soberania no português falado em Portugal, permite ter soberania na cultura e permite ter soberania nos dados”. Agora, “o Amália não é um de ChatGPT, é muito importante que as pessoas percebam isso”, sublinha Paulo Dimas. Até porque um ChatGPT é algo que custa centenas de milhões de dólares e “não é algo que esteja à escala de um país”, mas à escala “de grandes empresas tecnológicas”.

Isto “implica que nós não podemos ir ao Amália e fazer as mesmas tarefas que fazemos no ChatGPT”, mas é possível fazer outras. “Por exemplo, podemos, que é um dos casos de uso do Amália, ajudar os professores a fazer o planeamento das suas aulas, fazendo os sumários em português europeu, de forma controlada” ou “ter serviços de atendimento ao cidadão” com a ARTE – Agência para a Reforma Tecnológica do Estado, “que não envia os nossos dados para a OpenAI, nem para a Meta ou para o que for”, prossegue Paulo Dimas.

“Estes casos são casos onde o Amália, de facto, pode ser aplicado e já está a ser aplicado”, diz, apontando que o LLM português “não vai descobrir a cura para o cancro, […] não vai ganhar a medalha de ouro nas Olimpíadas da Matemática, não vai permitir descobrir o próximo paradigma da inteligência artificial”, tarefas “que só são possíveis em modelos de grande escala”.

Por isso, “é importante perceber que o Amália funciona para um conjunto de tarefas, neste momento limitado, e não para os outros, porque é uma questão também de investimento, benefício e retorno”, remata.