Setembro de 2010. Gordon Brown demitiu-se da liderança do partido trabalhista. David Miliband, antigo MNE britânico, candidatou-se e era apontado como o favorito. O seu irmão, Ed Miliband, também era uma estrela ascendente nos trabalhistas. Os dois irmãos conversaram e Ed prometeu o apoio a David, dizendo-lhe que não seria candidato. Apesar da promessa, negociou com os sindicatos (poderosos na eleição dos líderes trabalhistas) e anunciou a sua candidatura contra a promessa que havia feito ao irmão. Ed ganhou com uma vantagem de 1,3%. No discurso de vitória, elogiou “os valores da família”, o que levou um antigo ministro de Blair a afirmar, “temos um líder que mostrou durante o último mês como os valores da família são importantes.”
Conto esta história por duas razões, aliás ligadas. Uma, porque antes da ideologia ou das doutrinas políticas, vem o carácter de uma pessoa. Quem faz isto a um irmão, não tem carácter, ponto final. E, normalmente, quem não tem carácter acaba por cometer muitos mais erros do que fazer coisas acertadas. É sempre uma questão de tempo.
Em segundo lugar, o episódio das eleições para a liderança trabalhista mostra que, para Ed Miliband, nada está acima da sua vaidade e dos seus interesses pessoais. Irão prevalecer sempre sobre os interesses nacionais britânicos. E já começou.
Não estou a falar das críticas ao governo de Israel e à política em relação aos territórios palestinianos. Tem todo o direito de o fazer, embora eu discorde de muitas coisas que ele diz em relação a Israel e à Palestina. Também não acho que um judeu deva estar sempre ao lado de Israel. Aliás, acho que a condição de judeu deve estar separada do Estado de Israel.
Mas, da perspectiva do interesse britânico, não consigo entender o encontro de Miliband com o MNE iraniano nas Nações Unidas. Tudo indica que o Irão preparou o ataque à base militar norte-americana no Reino Unido (em Fairlord). Enquanto Miliband estava a cumprimentar o ministro iraniano, o Irão estava a preparar um ataque terrorista em território britânico. O encontro com o ministro iraniano na ONU não serve em nada os interesses nacionais britânicos. O Reino Unido não participa no conflito no Golfo, e não está a intermediar um processo de paz ou de negociações entre americanos e iranianos. Poderia dizer-se que Miliband se encontrou com o ministro iraniano para evitar ataques ao Reino Unido. Ora, nem para isso o encontro serviu. Só serviu para mostrar a fraqueza e a ausência de influência do Reino Unido.
Miliband sabe muito bem que, do ponto de vista diplomático, o encontro foi absolutamente inútil. Só o fez por uma razão. Na deriva alucinada anti-Trump da esquerda britânica, Miliband sabe que qualquer adversário do Presidente americano é apoiado pelos eleitores trabalhistas e, sobretudo, pelas elites londrinas progressistas. O que interessa a Miliband é o que os seus amigos intelectuais de Londres lhe dizem, o que os seus jornalistas conhecidos escrevem no Guardian ou no New Statesman, ou os aplausos dos militantes trabalhistas. O interesse nacional britânico é secundário. Por isso, encontra-se com um ministro de um país com um regime revoltante e criminoso, e em guerra com o maior aliado do Reino Unido.
O segundo exemplo é o apoio de Miliband ao Gana na questão das reparações por causa do tráfico de escravos. Esta posição é de uma loucura sem fim. Por que razão os contribuintes britânicos devem pagar o que foi feito há mais de 200 anos? E pagar a países africanos cujos governos nada fizeram desde as independências nacionais para construir um mínimo de justiça social para as suas populações, pelo contrário apenas agravam as injustiças, a pobreza e, em muitos casos, a violência. Vai dar-se dinheiro às oligarquias desses países para manterem as suas vidas de luxo enquanto a maioria da população vive na miséria? De que modo esta posição corresponde aos interesses nacionais de um país onde a dívida pública aumenta e onde não há crescimento económico? Vai o governo trabalhista aumentar ainda mais os impostos para pagar reparações às suas antigas colónias africanas? E não são poucas. O governo britânico já fez contas?
Mais uma vez, Miliband apoiou a iniciativa do Gana por vaidade pessoal, porque os meios em que se move vão elogiá-lo, em particular a sua “coragem”, como escrevia um jornalista de esquerda. A posição de Miliband está na linha das elites de esquerda britânicas que detestam a história do Reino Unido e não têm orgulho na identidade nacional. A atitude de Miliband talvez sirva para um convite para Cambridge ou Harvard quando sair da política, mas não serve os interesses britânicos.
Se a iniciativa das reparações avançar, será discutida a sério no Reino Unido, e a maioria dos britânicos será contra. Talvez a imensa vaidade de Miliband e a total ausência de escrúpulos ajude Farage a chegar ao poder. Miliband vai ser um enorme problema para o novo PM britânico, que desconfia muito das esquerdas caviares do norte de Londres.