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Depois do calor chegam as trovoadas, os chuviscos, o vento do Atlântico e as poeiras. O que vai mudar no tempo em Portugal?

Calor e trovoadas no interior Norte. Chuviscos e vento atlântico no litoral. Descida das temperaturas em todo o país. Culpa da DANA que se vai fundir com uma depressão. E traz poeiras e chuva de lama.

Trovoadas para o Norte interior nesta sexta-feira segundo o Windy.pt
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▲Trovoadas para o Norte interior nesta sexta-feira segundo o Windy.pt

▲Trovoadas para o Norte interior nesta sexta-feira segundo o Windy.pt

Depois de duas ondas de calor consecutivas e de vários dias com temperaturas próximas ou acima dos 40ºC, Portugal prepara-se para uma mudança significativa do estado do tempo. A partir desta sexta-feira regressam as trovoadas ao interior Norte, no sábado e domingo é de contar com chuviscos no litoral Norte e Centro e as temperaturas, essas, continuam a descer. A responsável é uma depressão isolada em altitude — também conhecida por “gota fria” ou DANA — que deverá acabar por se fundir com uma depressão atlântica, alterando a circulação da atmosfera sobre a Península Ibérica.

Não será uma mudança brusca, nem uma situação de mau tempo generalizado. Pelo contrário. Durante alguns dias, o país vai viver um contraste muito típico do verão: enquanto algumas zonas continuam ainda sob influência do calor — que entretanto se deslocou para o norte de Espanha e para França —, outras começam já a sentir a entrada de ar mais fresco e húmido vindo do Atlântico.

A primeira mudança deverá sentir-se na tarde de sexta-feira. Segundo o IPMA, os distritos de Bragança e Vila Real são os mais expostos à formação de aguaceiros e trovoadas, sobretudo entre o início e o final da tarde. A instabilidade poderá estender-se a outros pontos do interior Norte e Centro, mas de forma muito localizada. Ao mesmo tempo, a manhã poderá começar com céu muito nublado e possibilidade de chuva fraca ou chuviscos no litoral Norte e Centro, um cenário bem diferente do céu limpo que marcou os últimos dias.

Apesar desta instabilidade, o calor ainda não desaparece. Esta sexta-feira, mesmo com trovoadas, Bragança deverá voltar a ser a capital de distrito mais quente do continente, ao atingir 37ºC (tem aviso amarelo para calor, tal como a Guarda, até sábado), enquanto Castelo Branco, Évora e Beja continuam acima dos 30ºC. No outro extremo, Viana do Castelo e Porto deverão ficar pelos 22ºC, evidenciando o contraste entre o litoral atlântico e o interior. Também durante a noite as diferenças continuam marcadas. As mínimas deverão descer para cerca de 14ºC em Beja e Portalegre (que já estiveram com 28ºC há quatro dias), enquanto Faro continua a registar a madrugada mais quente do continente, com cerca de 18ºC (chegou a passar dos 30ºC).

No sábado, a possibilidade de trovoadas mantém-se sobretudo no extremo Norte, enquanto o interior continua bastante quente. Bragança poderá ainda atingir 37ºC e só a partir de domingo a descida se torna muito mais evidente. As previsões do IPMA apontam para uma redução significativa das máximas em vários distritos do Norte e Centro. Bragança deverá passar de 37ºC para 31ºC, Vila Real de 37ºC para 29ºC e Guarda de 30ºC para 26ºC. Também Lisboa vai descer para cerca de 25ºC, regressando a valores mais próximos do normal para julho.

No domingo e na segunda-feira aumenta igualmente a nebulosidade, sobretudo no litoral Norte e Centro, onde poderão ocorrer períodos de chuva fraca ou chuviscos. Não se esperam, porém, episódios de precipitação intensa. As previsões atuais apontam para acumulados geralmente modestos, na ordem dos 1mm a 4mm, embora possam aproximar-se dos 10mm em alguns locais da região de Lisboa entre domingo e terça-feira.

Afinal, o que está a acontecer na atmosfera?

Durante as últimas semanas, Portugal esteve sob influência de uma poderosa dorsal anticiclónica, responsável pela entrada persistente de ar muito quente do Norte de África. Criou-se assim a tal cúpula de calor sobre a Península Ibérica, conhecida como “forno ibérico”.

A mudança começa a cerca de dez quilómetros acima das nossas cabeças, no enorme rio de vento que dá a volta ao hemisfério Norte, a corrente de jato, o jet stream. Começou a ondular bastante (acontece quando está mais fraco) — são as chamadas ondas de Rossby, onde a parte que sobe transporta ar quente e a parte que desce transporta ar frio. Às vezes essa ondulação cresce tanto que a bolsa de ar frio acaba por se separar da circulação principal. E é assim que nasce uma depressão isolada em altitude.

Vão chegar as trovoadas e poucas cidades passam dos 30ºC

O papel de uma DANA depende muito de onde essa depressão fica estacionada. Se permanecer a oeste de Portugal, como sugerem os modelos, funciona quase como uma bomba atmosférica: à frente, ajuda a puxar ar muito quente do Saara para Espanha e sul de França; na retaguarda, deixa entrar ar mais fresco vindo do Atlântico para Portugal. Ou seja, o mesmo fenómeno pode fazer descer as temperaturas em Portugal e, ao mesmo tempo, empurrar uma nova vaga de calor para França ou para o Mediterrâneo: foi o que aconteceu na vaga de calor do final de junho, que só nos tocou de raspão devido a uma depressão em altitude.

Além disso, o ar frio que chega em altitude encontra o ar muito quente acumulado junto ao solo. Ao misturarem-se duas massas de ar completamente diferentes, a atmosfera torna-se instável e podem formar-se nuvens de grande desenvolvimento vertical, aguaceiros intensos, granizo e trovoadas.

Os modelos apontam ainda para que esta DANA acabe por se fundir com uma depressão atlântica mais extensa durante os próximos dias. É essa fusão que deverá alterar definitivamente a circulação atmosférica sobre Portugal. O vento roda para oeste e noroeste, entra ar marítimo polar vindo do Atlântico, aumenta a nebulosidade e as temperaturas descem, primeiro no litoral e depois no interior.

Mas estamos no verão e o calor não acabou completamente. Os modelos, que a mais de três dias não são completamente fiáveis, apontam para um regresso gradual da estabilidade atmosférica durante a próxima semana, mas sem o calor extremo que marcou os últimos dias.

Esta alteração da circulação atmosférica deverá é ter um outro efeito sempre indesejado. Depois de vários dias dominados pela advecção de ar quente africano, a entrada do fluxo atlântico tende a reduzir a influência direta das poeiras do Saara sobre Portugal, que normalmente quando assim é viajam até às Caraíbas ou aos EUA. Mas a circulação associada à depressão poderá favorecer o transporte dessas poeiras para a Península Ibérica e o Mediterrâneo ocidental.

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