A Assembleia Nacional de França aprovou um projeto de lei que estabelece uma presunção de legítima defesa para polícias e gendarmes que utilizem as suas armas de serviço em determinadas situações. A medida, aprovada terça-feira, estipula que, quando um agente abrir fogo ao abrigo das condições previstas na lei, supõe-se inicialmente que agiu dentro dos limites legais, embora a presunção possa ser refutada “por qualquer prova em contrário”, escreve o Le Monde.
Apresentado por Eric Pauget, deputado do partido conservador Os Republicanos (LR), o projeto de lei contou com o apoio do Governo francês e foi aprovado graças aos votos dos partidos aliados, bem como de representantes do partido de extrema-direita Reagrupamento Nacional (RN). Os defensores, segundo o jornal francês, acreditam que os polícias “estão expostos a uma violência sem precedentes diariamente”, afirmando ser necessário garantir que “não são sistematicamente vistos como suspeitos” sempre que utilizam as suas armas.
No entanto, a medida gerou forte “tensão” na Assembleia Nacional francesa, relata o Le Monde. Deputados de esquerda manifestaram-se contra o projeto de lei, propondo centenas de emendas para impedir a votação. Alertaram que este poderá conferir uma espécie de “licença para matar” às forças de segurança, “legitimando” a “impunidade da polícia”.
“Apesar dos excessos, dos insultos e das tentativas de impedir o debate democrático, mantivemo-nos firmes. Os agentes da polícia e da gendarmerie merecem apoio quando atuam, nos casos previstos na lei, para proteger os nossos concidadãos”, escreveu o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, na rede social X. Advertiu ainda que a medida não concede imunidade total às forças de segurança e que, “assim que as circunstâncias deixarem de ser cumpridas, qualquer procurador pode revogar essa presunção”.
Ce soir, l’Assemblée nationale a fait le choix de soutenir nos forces de l’ordre.
La proposition de loi d’Éric Pauget, soutenue par le Gouvernement vient d’être adoptée. Elle instaure une présomption simple d’usage légitime de l’arme, renversable à tout moment. Elle ne fait pas… pic.twitter.com/zu4DuAahXy
— Laurent Nuñez (@NunezLaurent) July 7, 2026
A votação foi também marcada por protestos, nos quais representantes de associações de vítimas de tiroteios da polícia gritaram palavras de ordem contra a proposta. “Sem justiça, não há paz”, ouvia-se nas bancadas da Assembleia Nacional. Durante a tarde, vários manifestantes reuniram-se à porta do Palácio Bourbon, em Paris. “Quando um agente do Estado mata alguém, o sistema judicial deve continuar a procurar a responsabilização”, afirmou Anne Savinel-Barras, presidente da Amnistia Internacional em França, citada pelo Le Monde.