Um cidadão chinês — acusado pelas autoridades norte-americanas de liderar uma rede internacional de tráfico de drogas e branqueamento de capitais — terá desempenhado um papel determinante na criação da cadeia de abastecimento de precursores de droga (necessários para a fabricação do fentanil) entre a China e o cartel mexicano de Sinaloa, segundo uma investigação da BBC que reúne testemunhos de membros da organização criminosa, antigos colegas e documentos judiciais.

Zhang Zhidong, de 39 anos e conhecido no meio criminoso como “Brother Wang” ou “rei do fentanil”, foi detido no México em outubro de 2024. Conseguiu fugir alegadamente através de um buraco numa parede, embarcando depois num jato privado para Cuba e, posteriormente, para a Rússia. As autoridades russas apanharam os documentos falsos, devolveram-no a Havana e, posteriormente, às autoridades mexicanas, que procederam à extradição para os Estados Unidos, onde enfrenta acusações de tráfico de droga e branqueamento de capitais. Declarou-se inocente e aguarda julgamento.

De acordo com o Departamento de Justiça norte-americano, Zhang liderava uma organização responsável por introduzir grandes quantidades de cocaína, fentanil e metanfetaminas nos Estados Unidos, além de lavar milhões de dólares provenientes do narcotráfico. Em tribunal, o então procurador-geral adjunto Todd Blanche classificou-o como um dos “traficantes mais perigosos do mundo“.

Zhang terá sido o principal responsável por estabelecer a ligação entre fabricantes chineses de produtos químicos e laboratórios clandestinos no México, segundo dois membros do cartel de Sinaloa entrevistados pela BBC sob anonimato. Um dos responsáveis do cartel, identificado apenas como Enrique, afirmou que o “Brother Wang era muito importante” e que era “o número um” na obtenção dos precursores de droga utilizados na produção de fentanil.

O fentanil é uma substância analgésica sintética cerca de 50 vezes mais potente do que a heroína e está associado à morte de dezenas de milhares de pessoas por overdose todos os anos, sobretudo nos Estados Unidos. Uma dose equivalente a poucos grãos de sal pode ser letal.

Segundo os testemunhos recolhidos pela britânica BBC, Zhang utilizava contactos na China para conseguir adquirir os precursores, que eram enviados por via marítima ou aérea para o México. A partir daí, o cartel distribuía os produtos pelos laboratórios clandestinos no estado de Sinaloa, onde o fentanil era produzido antes de seguir para o mercado norte-americano.

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Outro membro do cartel, identificado como Luis, afirmou que conheceu Zhang em 2019, durante uma reunião em que apresentou os produtos químicos necessários para fabricar fentanil. Posteriormente, passou a trabalhar como produtor da droga em laboratórios clandestinos, onde diz que testemunhou a morte de vários colegas devido à exposição às substâncias químicas utilizadas no processo.

Já os documentos judiciais norte-americanos indicam que Zhang terá iniciado as atividades de tráfico de droga e branqueamento de capitais em 2016. As autoridades mexicanas acusam-no de ter sido responsável pela exportação e distribuição de mais de 1.000 quilogramas de cocaína, 1.800 quilogramas de fentanil e 600 quilogramas de metanfetaminas, além de movimentar mais de 150 milhões de dólares (cerca de 131 milhões de euros) por ano em receitas do narcotráfico.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos sustenta, ainda, que Zhang recrutou pessoas para abrir contas bancárias em nome de mais de uma centena de empresas de fachada, utilizadas para receber o dinheiro obtido com a venda de droga e transferi-lo posteriormente para o estrangeiro. “Depositavam este dinheiro nas contas bancárias da empresa de fachada e transferiam os fundos para outras contas beneficiárias para serem lavados fora dos Estados Unidos”, refere a investigação.

Segundo os membros do cartel, a ausência de Zhang teve impacto imediato no fornecimento de precursores de droga. Enrique afirmou que a organização teve de reconstruir a rota de abastecimento. A agência antidroga norte-americana (DEA, na sigla inglesa) detetou, na mesma altura, uma redução da pureza do fentanil apreendido, compatível com dificuldades no acesso a alguns dos principais componentes químicos.

“Tinha uma presença enorme nos EUA. Não é comum ver uma pessoa que consegue conectar três países”

Antes de ser associado ao narcotráfico, Zhang licenciou-se em Espanhol na Universidade de Pequim em 2010 e mudou-se para o México no ano seguinte para trabalhar numa empresa mineira chinesa. Um antigo colega, identificado como Alex, descreveu-o à BBC como um profissional com facilidade em estabelecer contactos e adaptar-se a diferentes ambientes, afirmando que mantinha relações tanto com as autoridades locais como com os elementos do crime organizado.

Zhang continuou no México após o colapso da empresa mineira em 2013. Algum tempo depois, começou a oferecer serviços de câmbio de moeda através de um grupo de antigos alunos da universidade, atividade que Alex suspeita ter servido para operações de branqueamento de capitais.

Intermediários como o Zhang desempenham um “papel essencial na ligação entre fabricantes chineses de produtos químicos e organizações criminosas mexicanas”, afirmou a investigadora Victoria Dittmar, da organização InSight Crime, à BBC. Segundo a especialista, estas são figuras raras devido à capacidade de operar simultaneamente na China, no México e nos Estados Unidos: “Tinha uma presença enorme nos EUA. Não é comum ver uma pessoa que consegue conectar três países”.

A China continua a ser um dos principais produtores mundiais de precursores utilizados no fabrico de drogas sintéticas. Um relatório do Departamento de Estado norte-americano divulgado em 2025 aponta para a dimensão da indústria química chinesa e considera que os mecanismos de fiscalização continuam a ser insuficientes.