A distribuição de pontos de acesso a numerário em Portugal, como caixas automáticas ou agências bancárias, continua a mostrar um país desigual. Segundo um estudo do Banco de Portugal (BdP) divulgado esta segunda-feira, a cobertura da rede de acesso no país é quase integral, com 95% da população a dispor de um ponto de acesso a notas e moedas a menos de cinco quilómetros, por via rodoviária, da sua residência, e 99% a ter esse acesso a menos de 10 quilómetros. Mas em 40% das freguesias do país ainda não há nenhum ponto de acesso a dinheiro físico. Em Bragança e Vila Real, mais de 40% da população vive em freguesias nestas condições.
O estudo do BdP, o quarto sobre este tema, conclui que no final de 2025 existiam em Portugal quase 18 mil pontos de acesso ao numerário. Destes, 14,6 mil (80%) correspondiam a caixas automáticas, 2,7 mil a agências bancárias com serviços de numerário e 550 a pontos de cash-in-shop, que funcionam em estabelecimentos como tabacarias e estão “concentrados principalmente em áreas de elevada densidade populacional e em zonas de maior procura turística”.
No que toca a caixas automáticas, Portugal é mesmo o país da União Europeia com o maior número por habitante. O estudo do BdP não teve em conta dois fatores: o recém-criado projeto Multibanco + Perto, um projeto da SIBS, que gere a rede multibanco, que pretende levar serviços bancários a localidades onde não há pontos de atendimento, e a recente revisão da população portuguesa levada a cabo pelo INE (Instituto Nacional de Estatística).
O BdP conclui que, apesar da grande cobertura do território, subsistem fragilidades. Por exemplo, os 20 municípios com o maior número de pontos de acesso têm, no total, tantos pontos como os últimos 258 municípios juntos. E 80% dos pontos de acesso a numerário estão em freguesias que representam apenas 20% da superfície do país.
Das 3092 freguesias do país, “40% (1241) não dispunham de nenhum ponto de acesso. A maioria (90%) situava-se em áreas rurais. Cerca de 700 mil pessoas (7% da população nacional) residiam nestas freguesias, tendo de sair da área de residência administrativa para obter numerário”, lê-se no estudo do supervisor da banca. “Nos distritos de Bragança e Vila Real, mais de 40% da população vivia em freguesias nestas condições”.
Ainda assim, ressalva o documento, “a inexistência de um ponto de acesso na freguesia não implica, por si só, uma limitação material, uma vez que a proximidade de outros pontos situados em freguesias contíguas assegura, em muitos casos, condições efetivas de acesso”.
Nas freguesias sem qualquer ponto de acesso, 67 situavam-se a mais de 15 quilómetros do ponto mais próximo, “concentrando aproximadamente 16 mil residentes (0,2% da população nacional)”. E existiam 15 freguesias cuja distância média ao ponto mais próximo de acesso à rede excedia 20 quilómetros.
Pela primeira vez, o BdP identifica os concelhos que enfrentam maiores desafios no acesso a numerário. São eles Beja, Boticas, Bragança, Carrazeda de Ansiães, Chaves, Mirandela, Mogadouro, Montalegre, Torre de Moncorvo, Vimioso e Vinhais. “Estes concelhos concentravam o maior número de freguesias sem ponto de acesso a numerário e com células populacionais a mais de 20 quilómetros da rede”, revela o BdP. A freguesia que mais dista de um ponto de acesso a notas e moedas é a União das Freguesias de Quirás e Pinheiro Novo, no concelho de Vinhais. Para os habitantes desta freguesia, o ponto de acesso mais próximo fica a 30,6 quilómetros.
Nestes concelhos, “uma eventual contração da rede poderia revelar-se particularmente crítica para a população residente (174 mil pessoas, ou 1,7% da população nacional)”.
O BdP considera que “embora determinadas distâncias possam trazer constrangimentos a segmentos específicos da população, nomeadamente a pessoas com mobilidade condicionada, a extensão das áreas com maiores dificuldades de acesso mantém-se circunscrita, e a situação não parece ter-se agravado nos últimos anos”.
Apesar da crescente digitalização, o numerário continua a ser o meio de pagamento mais usado em Portugal, totalizando 54% das operações nos pontos de venda em 2025. Nesse ano, foram levantados 29 mil milhões de euros em caixas automáticas. O numerário “continua a ser um instrumento de pagamento essencial e um instrumento de inclusão financeira e, como tal, é fundamental assegurar que a população dispõe de condições adequadas de acesso. Os resultados deste estudo sugerem que eventuais respostas beneficiarão de uma abordagem geograficamente direcionada”, conclui o BdP.