Não é propriamente raro ler ou ouvir entrevistas de antigos ou atuais jogadores de futebol que passaram por momentos complicados, depressões ou fases mais negras. Na verdade, o destino até consegue normalmente fazer com que esses mesmos antigos ou atuais jogadores de futebol sejam aqueles que, anos depois dos momentos complicados, das depressões e das fases mais negras, alcançam os dias mais bonitos. Ferran Torres precisou de uma final de Campeonato do Mundo para entrar nesse lote. 

Em 2023, ainda na segunda temporada no Barcelona, o avançado espanhol reconheceu que passou por uma situação complexa na altura em que se mudou do Manchester City para a Catalunha a troco de 55 milhões de euros. “Entrei num poço sem fundo, não sabia como sair. As pessoas não tiveram em conta o facto de eu ter chegado ao clube numa altura complicada, quando a equipa estava em nono lugar. Foi nesse momento que decidi trabalhar com um psicólogo. Não tinha confiança em mim próprio, tudo me afetava. Foi uma experiência muito dura, muito amarga, mas também um dos melhores momentos, porque agora sinto-me mais forte. Agora tenho semanas em que não vou ao psicólogo, outras em que vou três vezes”, contou.

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Mais de três anos depois, Ferran Torres voltou a mostrar que existia saída do poço sem fundo. O avançado de 26 anos entrou em campo à passagem da hora de jogo da final contra a Argentina, substituindo Mikel Oyarzabal, e decidiu o Mundial 2026 no arranque da segunda parte do prolongamento — assinando também o único golo que marcou no Campeonato do Mundo, sendo que ainda fez outro que foi anulado por fora de jogo. 16 anos depois de Andrés Iniesta ter marcado o golo que garantiu a conquista do Mundial 2010 também no prolongamento e contra os Países Baixos, Ferran Torres fica na história do futebol espanhol com um momento semelhante.

Nascido em Foios, em Valencia, cumpriu toda a formação precisamente no Valencia, estreando-se na equipa principal em 2017 e com apenas 17 anos. Renovou contrato numa altura em que já era muito associado ao Real Madrid e ao Barcelona, ficando com uma cláusula de rescisão de 25 milhões de euros, e fez nove golos ao longo de 97 jogos em três temporadas, conquistando ainda uma Taça do Rei. Em 2020, num mercado de transferências ainda muito marcado pela Covid-19, fintou o interesse de merengues e catalães e rumou à Premier League para cumprir o sonho de jogar para Pep Guardiola no Manchester City.

Os citizens investiram 23 milhões de euros no avançado espanhol e Ferran Torres herdou a camisola 21 que tinha sido de David Silva, ídolo do clube inglês que também tinha chegado a Inglaterra vindo do Valencia. Conquistou a Premier League e a Taça da Liga inglesa no ano de estreia, para além de ter chegado à final da Liga dos Campeões que o City perdeu para o Chelsea, mas os 13 golos em 36 jogos nessa primeira temporada não tiveram seguimento na segunda. Lesionou-se, perdeu espaço e tempo e acabou por rumar ao Barcelona por mais de 50 milhões.

Ferran Torres está na Catalunha há cinco anos, com mais de 200 jogos em todas as competições e 65 golos, e conquistou três Campeonatos, uma Taça do Rei e três Supertaças — apesar de um início difícil onde raramente era opção inicial e perdeu protagonismo para Lamine Yamal ou Raphinha, reerguendo-se no último ano com a melhor temporada da carreira, com 21 golos marcados. Figura habitual nas convocatórias de Luis Enrique e depois de Luis de la Fuente, tem 65 internacionalizações e foi campeão europeu em 2024. Este domingo, porém, viveu a melhor e maior de todas as internacionalizações.

“Acho que o golo foi de 47 milhões de pessoas, não foi meu. O destino estava escrito, estava tudo feito para que nós ganhássemos”, começou por dizer o espanhol, que só foi titular no primeiro jogo contra Cabo Verde e foi suplente utilizado em todas as outras partidas, na zona de entrevistas rápidas. “Todas as finais são difíceis, quando tens o Messi na equipa contrária o nervosismo entra sempre. Mas nós dependemos sempre de nós mesmos e voltámos a demonstrá-lo”, acrescentou o espanhol, que tem sido muito associado a uma transferência para o PSG ainda durante este verão.

“Sinto uma libertação muito grande. Fui uma pessoa muito criticada ao longo do Mundial, mas o destino estava escrito e graças a Deus tenho sempre forças para continuar. É o que digo sempre: Deus dá as coisas a quem mais as merece. A Argentina quis criar este tipo de jogo, principalmente depois da expulsão, mas conseguimos manter as pulsações”, explicou o avançado, que é apenas o segundo suplente de sempre a marcar o golo decisivo numa final de um Campeonato do Mundo, depois de Mario Götze pela Alemanha em 2014.

Três anos depois de ter estado no fundo do poço, Ferran Torres subiu ao lugar mais alto do futebol e é campeão mundial por responsabilidade própria — justificando ainda mais a alcunha de “Tubarão”, por estar sempre à procura de sangue na água para atacar.