O Noma — localizado em Copenhaga, na Dinamarca, e por cinco vezes considerado o melhor restaurante do mundo — vai reabrir na próxima semana sob nova liderança. É a primeira vez que o espaço vai servir o público desde a implosão de março, quando o seu fundador, René Redzepi, se demitiu na sequência de uma reportagem do The New York Times que detalhou uma série de alegações de abusos e agressões a ex-funcionários cometidas durante anos.
Chef René Redzepi abandona Noma após denúncia de cultura de agressões, medo e exploração
“É o mesmo Noma. Simplesmente voltámos para casa — é isso que é diferente”, afirmou Pablo Soto, o novo chef executivo do restaurante, ao The Guardian. A trabalhar na cozinha do espaço dinamarquês há quase 10 anos, Soto garantiu mudança na continuidade ao jornal britânico, substituindo o anterior menu sazonal por um novo mensal em constante evolução e que depende dos produtos que estiverem disponíveis.
Essa, porém, não é a única alteração que Soto promete para o Noma. O chef mexicano também garante que o staff — composto por cerca de 100 trabalhadores — vai ser capaz de ter uma vida plena fora do trabalho. “Isto não é novidade, mas é, sem dúvida, uma prioridade: que as pessoas possam continuar a viver as suas vidas e a trabalhar”, contou.
Esta reencarnação do Noma parece assim querer afastar-se em absoluto da sua vida prévia, sob a liderança de René Redzepi, que abriu o restaurante em 2004. Apesar do seu estatuto como um dos melhores do mundo, este espaço gastronómico foi profundamente abalado em março deste ano, quando o The New York Times publicou uma investigação sobre o ciclo de abusos físicos e psicológicos infligidos ao longo dos anos pelo chef aos seus funcionários.
“Era um inferno”. Ex-funcionários do Noma denunciam cultura de agressões, medo e exploração
A reportagem caiu como uma bomba no mundo gastronómico, especialmente por ser publicada na véspera da abertura de um pop-up em Los Angeles, cujo menu custava 1.500 dólares (1.300 euros) por noite e, mesmo assim, as reservas tinham esgotado em cerca de três minutos. Perante acusações de agressões, bullying e chantagem, Redzepi demitiu-se, admitindo que “um pedido de desculpas não é suficiente”, especialmente para “aqueles que sofreram sob a minha liderança”.
“Após mais de duas décadas a construir e a liderar este restaurante, decidi afastar-me e permitir que os nossos extraordinários líderes conduzam agora o restaurante para o seu próximo capítulo”, escreveu o chef dinamarquês numa publicação nas redes sociais. A decisão de abandonar o Noma também terá estado relacionada com o impacto que as alegações tiveram a nível financeiro, já que foi noticiada a perda de patrocinadores do Noma para o pop-up nos EUA, como a American Express e a empresa de hotelaria Blackbird.
Apesar de ter liderado por cinco ocasiões distintas o top do The World’s 50 Best Restaurants e ter contado com a prestigada classificação de três Estrelas Michelin, o Noma foi um restaurante pautado pelas suas consecutivas reinvenções, sendo que a de 2023 foi a mais radical. Nesse ano, foi anunciado que fecharia portas como restaurante a tempo inteiro, abrindo como um laboratório gastronómico de cozinha experimental.
Soto, agora ao leme do Noma, adianta que, face às repercussões internacionais do escândalo, a nova equipa decidiu reabri-lo de novo sob um formato mais tradicional. “Depois de Los Angeles, o melhor, na minha opinião, era regressar a algo estável. Esta foi uma boa decisão para a equipa, porque, claro, o que aconteceu criou instabilidade — foi uma situação difícil”, assumiu ao The Guardian.
Ao lado da norte-americana Annika de Las Heras, que se tornou na nova CEO do Noma, e da dinamarquesa Mette Brink Søberg, diretora de investigação e desenvolvimento do projeto, Soto acredita que o restaurante vai recuperar o seu estatuto de topo. Além disso, garante que, apesar de Redzepi já não trabalhar na cozinha nem ter cargos de chefia, “isso não significa que ele tenha sido afastado da sua empresa”, mantendo um papel de consultor criativo.