Seguro à frente, Marcelo atrás. O atual Presidente da República aproveitou a ideia do antecessor e arrancou esta quinta-feira com a Festa do Livro no Palácio de Belém. Depois de vários agradecimentos — e do reconhecimento expresso de que os louros da iniciativa são todos para Marcelo Rebelo de Sousa — António José Seguro fez-se acompanhar numa breve ronda pelas bancas pelo antigo Presidente da República, pela Ministra da Cultura, e pelo escritor Francisco José Viegas, consultor de Cultura do Chefe de Estado. A cerimónia de abertura e a ronda pelos jardins decorreram precisamente enquanto o primeiro-ministro fazia uma declaração ao país. Aliás, por breves minutos, Seguro e Montenegro até estiveram a discursar ao mesmo tempo.
No passeio pelos jardins, foi o Presidente a liderar a comitiva (seguido sempre de perto por Marcelo), e foi várias vezes solicitado pelo público convidado a visitar Belém. Recebeu vários cumprimentos, sugestões de livros e pedidos para fotografias. Mas não foi o único. Marcelo Rebelo de Sousa continua com uma aparente onda de popularidade — quem o interpela, ainda chama pelo “senhor Presidente“. Fiel ao mantra que tem seguido desde que abandonou Belém, o ex-Chefe de Estado faz por fugir da ribalta: finta perguntas dos jornalistas e já nem as famosas selfies parece querer aceitar. “Tire com o sr. Presidente”, disse a uma senhora que lhe pediu uma fotografia, apontando para Seguro, que seguia uns metros ao lado. O pedido, claro está, até acabou por ser concedido, mas o momento, várias vezes repetido, mostra que Marcelo compreende que continua a ser solicitado pela população, e quer ter cautela para não roubar espaço ao sucessor.
De qualquer forma, desta vez até foi Seguro a oferecer destaque a Marcelo. “Quero distinguir o meu antecessor, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Porque a ideia é dele“, referiu no discurso de abertura da Festa do Livro. “E é justo que se reconheça esta ideia, que é uma bela ideia.” Os elogios a Marcelo tomaram grande parte da intervenção, e o Chefe de Estado chegou até a confessar: “Não resisto a contar uma pequenina história. Quando eu disse, um dia, de uma forma mais perentória, que iria continuar com a Festa do Livro, houve uma pessoa próxima que disse: “Mas como é que é possível? Mas isso era do Presidente Marcelo, não é teu. Porquê é que vais continuar a fazer uma coisa que é de outro Presidente?””, contou. “Eu sei que há muito essa cultura. A de quem vem de novo, começa de novo, e tudo o que está feito para trás, não presta. Eu não tenho essa ideia, bem, pelo contrário. Acho que este é um exemplo que deve fazer semente, que deve proliferar no país”, concluiu.
Como novidades para a edição deste ano, a primeira no mandato de António José Seguro, quem vier ao Palácio de Belém poderá encontrar “um palco para novos talentos musicais” — e alguns, garante o Presidente, “vão atuar pela primeira vez”. Nas colunas dos jardins, vai passando música nacional, através de uma iniciativa intitulada “Rádio Local de Belém”. E foi convidada uma livraria que só vende livros africanos, “uma grande homenagem a tudo que é diversidade da língua portuguesa e da lusofonia.”
Neste discurso de abertura, o Presidente da República mostrou-se mais à vontade que o habitual: menos institucional, com cábulas na mão, mas sem nenhum tipo de discurso lido. Uma intervenção mais escorreita e descontraída do que tem sido costume, portanto.
Na primeira noite da Festa do Livro, dedicada ao escritor António Lobo Antunes, Seguro — que se tem mostrado particularmente preocupado com o retrocesso nos hábitos de leitura dos mais jovens, evidenciados pelo relatório PISA 2025 — trouxe um livro debaixo do braço, pronto a recomendar: “A Arte de Não Ter Sempre Razão“, de Martin Desrosiers. “É um livro que todos os opinadores deviam ler e assimilar antes de abrir a boca“, alertou, antes de ler uma longa passagem da obra, que pode ser lida facilmente como um recado político:
“Quando o diálogo político é entravado ao ponto de impedir qualquer troca digna desse nome, está em causa não só a sua saúde, mas a própria sobrevivência das nossas democracias. Se todos permanecermos apegados às nossas certezas e se as clivagens políticas daí resultantes forem percebidas, erradamente, mais do que com razão, como abismos intransponíveis, o debate democrático transforma-se numa guerra de trincheiras sem saída. Cada um permanece indefinidamente acampado nas suas posições, porque a mais pequena concessão ao inimigo é uma cedência. Já só nos resta autocongratular-nos com as nossas certezas, lançando do alto da nossa superioridade moral granadas retóricas sobre os adversários.
É claro que o diálogo democrático não pode existir sem atritos. Contém necessariamente uma dimensão de antagonismo. Acontece que há conflitos mais produtivos do que outros. Se nos encontrarmos atualmente no impasse é porque não sabemos discutir de uma forma simultaneamente robusta, inclusiva e produtiva, a nuance. O nosso problema não reside tanto no facto de discutir demasiado, mas de se discutir mal. Nesse sentido, não devemos temer a presença de convicções políticas contraditórias no espaço público, afinal, o que distingue uma sociedade totalitária de uma sociedade democrática é precisamente a possibilidade de se criar uma esfera de decisão pública onde ideias contrárias se confrontam. Que haja zaragata na cabana democrática é realmente a ideia, mas que essa zaragata se torne veementemente a ponto de ser irrazoável e improdutiva… eis o perigo real que nos ameaça a ciência e a polarização política.”
Feita a sugestão, Seguro passeou pelos jardins, e foi recolhendo novos obras para pôr a leitura em dia. Prestou especial atenção a duas: “Poesia“, de Eugénio de Andrade, e “O Século dos Imbecis“, de Valter Hugo Mãe (apoiante do socialista na campanha presidencial). Entre os vários objetos que lhe foram pondo nas mãos — algo habitual neste tipo de contacto com a população — Seguro acabou por receber algo que pode ser bastante valioso para quem ocupa o Palácio de Belém: uma esponja anti-stress. “Ah, não, vim de férias”, brincou o Presidente. “Fica para quando precisar”, respondeu a mulher que lhe ofereceu o presente. Tendo em conta os últimos meses, talvez venha a precisar.