“Estou aqui para dar a cara.” Foi desta forma que Luís Montenegro partiu para a declaração solene ao país e que serviu para detalhar não apenas as medidas previamente anunciadas para conter o aumento do custo de vida mas sobretudo para explicar o porquê de o Governo não estar a ceder à pressão das oposições para baixar o IVA sobre os combustíveis e cabaz alimentar. E essa razão responde por dois nomes: José Sócrates.

“Governar é fazer escolhas e estas são as nossas escolhas. Lançar o país num leilão de medidas, avulsas e descoordenadas, é abrir a porta a um tempo que não vamos deixar voltar a Portugal. Não contem comigo para uma reedição da tragédia”, disse Luís Montenegro, numa clara referência ao antigo primeiro-ministro — o social-democrata lembrou, aliás, que imediatamente antes do rebentar da crise, mas quando já se avolumavam sinais preocupantes, o então chefe de Governo decidiu aumentar salários da função pública.

“Não contem comigo para ilusões hoje que sejam pesados preços a pagar amanhã. Não troco mais cêntimos de imposto de ISP ou de IVA nos alimentos, por mais impostos, défice e dívida que teríamos de pagar no futuro”, repetiu Luís Montenegro.

De resto, o primeiro-ministro explicou exatamente as medidas que já tinha anunciado durante o debate da moção de censura e que foram esta quinta-feira formalmente aprovadas em Conselho de Ministros. A descida do IRS até ao 6.º escalão, o alargamento do passe ferroviário verde a todo o país — a partir de agora será possível viajar por 20 euros em todos os comboios menos o alfa pendular — e um apoio de 10 cêntimos extraordinário por litro ao gasóleo para os setores mais afetados pela crise dos combustíveis (transportes, táxis, bombeiros e Instituições Particulares de Solidariedade Social).

Ainda na questão dos combustíveis, e recordando o esforço feito pelo Governo em matéria de ISP — o Governo vai subir o desconto máximo de 23 para 25 cêntimos — Montenegro deixou ainda uma resposta à oposição. “Quero reiterar de forma solene: o Estado ganha zero euros com a subida do preço dos combustíveis. Quem diz o contrário, está a faltar à verdade”.

Faltava ainda a questão do bónus para os pensionistas. Montenegro explicou como se vai aplicar: 200 euros para quem recebe 537 euros mensais; de 150 euros para quem recebe entre 537 euros e 1174 euros; e de 100 euros para quem recebe pensões deste valor entre 1174 e 1611 euros. “Será pago com a pensão de dezembro e vai abranger mais de 2 milhões de pensionistas”, concretizou Montenegro.

Em muitos momentos da intervenção, Luís Montenegro reconheceu a “angústia” e a “legítima preocupação” que os portugueses estão a sentir. Mas nunca se desviou da mensagem principal. “Sabemos que as dificuldades são muitas e são reais. Mas não vamos deitar fora o esforço de tantos e tantos milhões de portugueses. O nosso sentido de responsabilidade está ligado ao vosso esforço e dedicação. Sentimos as vossas angústias. Mas estamos aqui para decidir: sem deixar ninguém para trás, mas sem empurrar para a frente uma fatura pesada a pagar pelas futuras gerações.”