“Ele não quer trabalhar. Ele quer construir o seu salão de baile e viajar com a Natalie no seu palácio voador presenteado pelo emir do Qatar”. A frase do senador democrata Jon Ossof, durante um comício da sua campanha de reeleição no passado domingo, poderia ter passado despercebida na longa lista de críticas e acusações deixadas pelos candidatos democratas a Donald Trump. Mas a menção a “Natalie” — um nome pouco conhecido na entourage do Presidente — valeu uma resposta acesa da Casa Branca.

Natalie é Natalie Harp, de 35 anos, uma das assistentes executivas do Presidente norte-americano. Apesar do cargo discreto que ocupa, Harp ter-se-á tornado um dos membros mais indispensáveis da equipa de Trump. A sua entrada no “mundo MAGA” fez-se em 2018, quando, depois de ter sido diagnosticada com um cancro nos ossos, criticou os cuidados de saúde do seu “estado controlado pelos democratas” — a Califórnia — e promoveu a recandidatura de Trump à Casa Branca por este representar o “Partido dos Cuidados de Saúde”. Em 2020, Harp tornou-se apresentadora no canal de direita conservadora One America News Network (OANN) e, em 2022, chegou à equipa de Trump.

Os primeiros relatos noticiosos sobre Harp descrevem-na como “uma impressora humana“, cujo trabalho é apresentar a Trump diariamente recortes de notícias elogiosas e, mais recentemente, colabora na redação das publicações de Donald Trump na Truth Social. Harp insiste em responder apenas perante Trump e também faz a ligação entre congressistas e dirigentes republicanos e a Casa Branca. O comentário de Ossof visa diretamente o facto de Harp ter sido um dos poucos membros da administração que seguiu com o Presidente num avião militar depois da descoberta do alegado plano iraniano para matar Trump durante a sua deslocação à Turquia no mês passado.

A admiração por Trump — que credita por ter salvado a sua vida durante o diagnóstico de cancro — traduz-se em cartas que terá enviado ao Presidente, citadas pelo New York Times. “Eu quero que as coisas estejam bem entre nós. Eu sei que tenho estado distraída esta semana (esqueço-me de comer, até de dormir e só durmo umas horas de cada vez)”, lê-se na carta enviada ainda antes de Trump ter regressado à Casa Branca e que termina com: “Com todo o meu amor, Natalie“.

Mas todas estas informações sobre Natalie Harp não inundaram as redes sociais e a comunicação social imediatamente depois do comentário de Ossof. A primeira reação surgiu na página do diretor de comunicação da Casa Branca, Steven Cheung. “John Jackoff [trocadilho insultuoso com o nome do senador] deve ser o maior falhado e corno da política. Em vez de denegrir as pessoas trabalhadoras que servem o seu país, o Jon devia olhar bem para dentro da sua alma e perguntar-se por que razão é uma pessoa miserável que odeia este país”, criticou numa publicação.

O escrutínio intensificou-se depois da reação da Casa Branca a questões da imprensa sobre o tema. Na segunda-feira, questionado na Sala Oval pela jornalista da CNN Kristen Holmes sobre as declarações de Ossof, Donald Trump recusou responder, repetindo apenas: “Está calada“. Não é a primeira vez que Trump ataca uma das jornalistas destacadas na Casa Branca, mas fontes oficiais da presidência partiram imediatamente ao ataque. “Kristen Holmes é uma vergonha humilhante para a sua suposta profissão (…) Estes canalhas são o pior do pior”, “Um dia, os teus filhos vão ver esta pergunta nojenta e desumana. Eles vão ficar enojados e envergonhados por terem uma mãe tão insensível e vingativa”, pode ler-se em duas publicações de uma das contas oficiais da Casa Branca na rede social X.

À imprensa, os porta-vozes da Casa Branca caracterizaram Harp como “uma das mais leais e trabalhadoras assessoras na equipa do Presidente Trump”. “Ninguém quer saber do que esse falhado insignificante tem para dizer”, afirmou o porta-voz Davis Ingle, utilizando a expressão em inglês “nobody gives a shit“.

A reação agressiva de Trump e da sua equipa é justificada por uma fonte próxima da administração ao The Telegraph com o facto de tanto o Presidente como a primeira-dama não gostarem de rumores sobre a sua vida privada. Outras fontes ouvidas pela CNN acusam Ossof de ter utilizado um nome desconhecido dos eleitores para fazer insinuações sobre o Presidente na entrada para a corrida das intercalares. E sublinham: Trump e Harp têm uma relação de “pai e filha”, marcada pela lealdade extrema da assessora ao Presidente.

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