O orçamento de 144 mil euros apresentado à Polícia Judiciária para a destruição de produtos químicos da Operação Pacoba transcende em muito os 62 bidões guardados no atrelado que foi parar à Construbarcelos e envolve centenas de bidões apreendidos somente neste processo. Segundo apurou o Observador, a PJ forneceu informações erradas ao gabinete da ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, que foram usadas nas respostas enviadas na quinta-feira às perguntas do grupo parlamentar do Chega. O erro foi detetado apenas esta semana pela PJ, que fez entretanto a retificação.

Na semana passada, o esclarecimento proveniente do Ministério da Justiça alegou que a verba envolvia “vários processos” e não apenas material da Operação Pacoba, em aparente contradição com as explicações que tinham sido dadas nas semanas anteriores por Luís Neves.

Daí estalou uma polémica entre o Ministério da Justiça, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, e o Parlamento, com Rita Alarcão Júdice a assumir esta quarta-feira o desagrado com a situação e a reconhecer que, afinal, o orçamento era mesmo para a destruição exclusiva de produtos químicos apreendidos na Operação Pacoba.

“O orçamento que foi apresentado tem uma quantidade de equipamento e material para ser destruído. A pergunta que eu fiz e os esclarecimentos que aguardo são a confirmação de que todos esses itens que estão nesse orçamento pertencem apenas ao processo Pacoba”, disse Rita Alarcão Júdice, acrescentando: “Há uma nuance: é muito mais material [apreendido na operação] do que o material que estava [na galera que estava na Construbarcelos] e daí, como é natural, imagino eu, tenha estado na origem da informação errada que recebi da parte da Polícia Judiciária”.

“Ninguém mentiu”. Ministra da Justiça está incomodada com contradições, mas nega ter havido mentiras sobre orçamento para destruir materiais

Os 62 bidões com capacidade para 200 litros e que continham acetato de etilo e hexano — químicos usados para a produção de droga — no interior da galera recuperada em julho pela PJ das instalações da Construbarcelos, em Barcelos, representam apenas uma parte muito pequena de todo o material químico apreendido nesse inquérito.

As diligências da Operação Pacoba, em dezembro de 2024, confrontaram a PJ com a primeira grande investigação com necessidades específicas para a destruição de químicos usados para a produção de droga, uma vez que até então estava habituada a alocar verbas para a destruição de cocaína ou bens contrafeitos. E a dimensão do valor para o orçamento da PJ naquele momento foi a justificação apresentada por Luís Neves para justificar o incumprimento da ordem judicial de destruição daqueles produtos químicos apreendidos.

Como o atrelado estava guardado num armazém da Marinha no Seixal e teve de ser retirado daquele local, o empreiteiro João Carvalho disponibilizou-se junto do diretor financeiro da PJ, Álvaro Pires, para guardar o atrelado nas instalações da sua empresa. De acordo com Luís Neves, que reiterou a sua explicação na audição de terça-feira na Comissão de Assuntos Constitucionais, Álvaro Pires apresentou-lhe o problema do atrelado e a solução de entrega provisória a João Carvalho, uma solução que acabou por aceitar e que descreveu como um “ato de boa gestão“.

As informações que vieram a público em agosto sobre valores muito inferiores que poderiam ser praticados por empresas especializadas para a destruição dos bidões assentariam, por isso, apenas no cálculo sobre os materiais dos 62 bidões e não de todo o material. O Observador já solicitou à PJ a entrega do orçamento de 144 mil euros, que deverá conter a discriminação de quantidades e valores, mas até ao momento não foi possível obter o documento.

Afinal, Ministério da Justiça contradiz Luís Neves: custo de 144 mil euros para destruir bidões com químicos envolvia mais processos