A NBA conforme todos a conhecíamos mudou no início do ano passado. Logo em fevereiro, numa troca inesperada que deu a volta ao status quo do basquetebol dos EUA, Luka Doncic deixou os Dallas Mavericks para rumar aos Lakers e Anthony Davis realizou o percurso inverso. Mais de um ano depois, Doncic já renovou de forma milionária em Los Angeles e Davis até já está nos Washington Wizards — mas a transferência continua a dar que falar.
Esta quarta-feira, na atípica convenção do Partido Republicano motivada pelas eleições intercalares de novembro, Donald Trump aproveitou o facto de estar em Dallas e em pleno American Airlines Center para falar diretamente aos corações dos adeptos dos Dallas Mavericks. Utilizando, claro, o facto de terem perdido o melhor jogador que por lá passou em décadas devido a uma decisão questionável da estrutura da franquia.
Donald Trump — at a speech at the Mavericks’ American Airlines Center — spoke on them trading Luka Doncic
“I don’t understand the trade… It’s not going to go down as the greatest trade in the history of sports. It might go down as the worst trade in the history of sports.” pic.twitter.com/Z8PYVz2eNv
— Fullcourtpass (@Fullcourtpass) September 10, 2026
“Devo dizer-vos que não entendo a transferência do Doncic. Mas o que é que eu sei sobre basquetebol? Diria que não vai ficar para a história como a melhor transferência do desporto, poderá ficar para a história como a pior transferência do desporto. O caso do Babe será sempre a pior transferência. Mas… Será que a do Doncic é pior? Foi boa? Talvez possamos refazer essa transferência, eu refaço acordos a toda a hora. Não entendo esse acordo”, atirou o presidente dos EUA, referindo-se à histórica ida de Babe Ruth dos Boston Red Sox para os New York Yankees, em 1919, com a equipa de Boston a atravessar uma seca de 86 anos e a de Nova Iorque a conquistar quatro World Series de basebol com o jogador.
A história da ida de Luka Doncic para os Lakers começou em fevereiro de 2025 — e de madrugada. Por volta das 5h da manhã em Portugal, na noite de um sábado para um domingo, Shams Charania, guru das transferências da NBA, escreveu que Luka Doncic iria trocar os Dallas Mavericks pelos Lakers. A notícia era tão absurda que muitos disseram que a conta do jornalista da ESPN nas redes sociais tinha sido hackeada. Mas era mesmo um daqueles momentos em que a realidade superou a ficção.
Naquele instante, enquanto decorriam vários jogos da NBA, as câmaras de televisão viraram-se para os jogadores que não conseguiam acreditar no que estavam a ler nos telemóveis — incluindo Kevin Durant, que não escondeu a estupefação enquanto os seus Phoenix Suns defrontavam os Portland Trail Blazers. De um instante para o outro, tudo aquilo que era verdade na principal liga de basquetebol do mundo deixou de ser.
Cronicamente um dos melhores jogadores da NBA, o base esloveno tinha chegado aos EUA no último ano de Dirk Nowitzki, o melhor jogador que alguma vez representou a equipa do Estado do Texas, e parecia destinado a ser não só o herdeiro desse legado como o futuro de uma franquia inteira. Sete anos depois, porém, a ideia caiu por terra. Luka Doncic foi cinco vezes All-Star pelos Mavericks, rookie do ano na temporada de estreia, entrou no top 10 na lista de triplos-duplos e em 2024 liderou a equipa até às primeiras Finals desde 2011, onde acabou por perder com os Boston Celtics de Neemias Queta. Nada disso, porém, foi suficiente para ser imprescindível. E existem vários motivos que explicam o porquê.
O primeiro, desde logo, foi financeiro. No verão deste ano, o jogador esloveno podia acionar uma cláusula que lhe permitia assinar um contrato de cinco temporadas e 354 milhões de dólares, o maior de sempre na NBA. Se não o fizesse, a alternativa era sair a custo zero para qualquer outra equipa. Depois, existiram os motivos de ordem física. Luka Doncic estava lesionado desde o dia de Natal, teve muitas lesões ao longo da carreira e há muito que o alegado excesso de peso do base era comentado e alvo de escrutínio.
Luka Doncic chegou a LA há oito meses, mas ainda provoca despedimentos em Dallas
Por fim, os motivos estratégicos. Anthony Davis, até aí jogador dos Lakers, realizou o percurso contrário e reforçou os Dallas Mavericks — algo que na altura foi explicado por Nico Harrison, diretor-geral da equipa do Texas, como uma troca propositada. “Acreditamos que a defesa pode ganhar campeonatos. Os jogadores que trouxemos contribuem para a nossa cultura e isso é importante para aquilo que eu e o Jason Kidd [treinador] temos construído nos últimos anos. O meu trabalho é isto, tomar decisões difíceis. Entendo que as pessoas tenham ficado surpreendidas, mas acho que com esta transferência estamos a posicionar-nos para ganhar agora e também para ganhar a longo prazo. Tenho de me focar em antecipar os objetivos gerais antes de tudo o resto”, explicou, confirmando que enviou uma mensagem a Luka Doncic, mas não obteve resposta.
Na verdade, segundo a imprensa norte-americana, só mesmo Nico Harrison e Rob Pelinka, o homólogo dos Lakers, estavam a par nas negociações: Luka Doncic não sabia, LeBron James não sabia e nenhum dos dois treinadores sabia, sendo que a equipa de Los Angeles também abdicou da primeira escolha no draft de 2029 para ter o esloveno. Em novembro, oito meses depois da troca, Nico Harrison acabou mesmo por ser despedido após muitas críticas por parte dos adeptos dos Dallas Mavericks e de uma pressão a que não resistiu.