Duas propostas relacionadas com a produção de leite e com o emblemático queijo de São Jorge, apresentadas pelos partidos que formam o Governo (PSD, CDS-PP e PPM), provocaram esta quinta-feira grande contestação entre ilhas, no parlamento açoriano.
Uma das iniciativas foi apresentada pelo líder parlamentar do CDS-PP, Luís Silveira, eleito pela ilha de São Jorge, que defendia apoios específicos para a reconversão da produção de leite para carne, devido à elevada quantidade de leite entregue nas cooperativas de laticínios da ilha, que já ronda a capacidade máxima de 30 milhões de litros por ano.
«Defendemos que a reconversão da produção de leite para a produção de carne deve ser controlada, responsável e feita em estreita articulação com o setor cooperativo. Temos de encontrar o equilíbrio necessário. Temos de saber qual é a capacidade de produção e de transformação das nossas cooperativas», sustentou o parlamentar centrista.
Segundo Luís Silveira, é preciso criar apoio à produção de vacas aleitantes (gado de carne), atendendo a que as cooperativas de laticínios não conseguem escoar muito do queijo de São Jorge (que ostenta o estatuto de Denominação de Origem Protegida – DOP), que está armazenado nas fábricas, devido a dificuldades de mercado.
Mas a maioria dos partidos da oposição entende que os produtores de leite das restantes ilhas também deviam beneficiar deste tipo de apoios, e não apenas os agricultores da ilha de São Jorge, que fabricam um produto de valor acrescentado e já devidamente promovido e valorizado no mercado local, nacional e internacional.
“Para cobrir os problemas estruturais ou circunstanciais que tem, neste momento, o setor leiteiro de São Jorge, alguém teria de ficar com os pés de fora. E esse alguém eram as outras ilhas todas”, advertiu Francisco Lima, deputado do Chega, que defende que os apoios à reconversão sejam extensivos aos produtores de toda a região.
Também Nuno Barata, deputado da Iniciativa Liberal, entende que não faz sentido aprovar uma exceção apenas para os produtores daquela ilha: «criar uma exceção para São Jorge, porquê!? Até me custa que o PSD e o PPM aprovem uma resolução tão específica quanto esta!»
“Esta medida pode levar, justamente, a que outros produtores na mesma situação, levantem o dedinho, e com razão, e digam: senhor secretário, eu também quero!“, advertiu António Lima, deputado do Bloco de Esquerda, juntando a sua voz de protesto, à dos restantes partidos da oposição.
Isabel Teixeira, deputada do PS, também eleita por São Jorge, reconheceu que a produção de leite naquela ilha está a atravessar dificuldades, mas entende que a solução não passa por criar um regime excecional para os agricultores locais, mas sim permitir que haja uma reconversão que abranja outras ilhas.
Para tentar acalmar os ânimos, o secretário regional da Agricultura e da Alimentação, António Ventura, garantiu em plenário que o Governo concorda com a medida proposta pelo CDS, mas garantiu que vai permitir que estes apoios à reconversão possam chegar também aos produtores de outras ilhas: “o Governo Regional aceita e vai executar a recomendação, no âmbito de uma reconversão, como já se faz na Graciosa, na Terceira e em São Miguel, abrindo em São Jorge e noutras ilhas».
A proposta centrista acabou aprovada apenas com os votos favoráveis dos três partidos da coligação, ao passo que o PS, o BE e a IL abstiveram-se e o CH e o PAN votaram contra.
Além da proposta do CDS, também o PSD apresentou uma iniciativa, que defende a atribuição de apoios à promoção do queijo de São Jorge, nos mercados internacionais, que voltou a gerar alguma contestação entre os partidos da oposição.
«Considerando que a fileira do queijo de São Jorge regista, atualmente, um volume em stock superior ao habitual, esta realidade exige um esforço estratégico para a sua promoção e comercialização, além da abertura de novos mercados, com vista a assegurar o escoamento eficaz da produção», justificou Paulo Silveira, deputado social-democrata.
A proposta do PSD foi aprovada por quase todos os partidos com assento parlamentar, à exceção do CH, do PAN, e da IL, que votaram contra.