Desde que a BlueCo de Todd Boehly comprou o Chelsea, em 2022, que os treinadores foram sempre apresentados com a mesma designação: head coach, treinador principal. Graham Potter, Mauricio Pochettino, Enzo Maresca e Liam Rosenior, todos foram apresentados como os novos head coaches do Chelsea. Para Xabi Alonso, porém, a designação foi outra. E a ideia de que o espanhol é mesmo diferente de todos os outros começou logo aí.

Este domingo, no comunicado em que anunciou Xabi Alonso como o senhor que se segue em Stamford Bridge, o Chelsea utilizou a palavra manager para se referir ao treinador. Ao contrário de Potter, Pochettino, Maresca e Rosenior, Alonso não será head coach — mas sim manager. E o pormaior parece ser muito mais um recado para dentro do que necessariamente uma indicação para fora.

Xabi Alonso vai ser treinador do Chelsea

Depois dos tais quatro anteriores, Xabi Alonso é então o quinto treinador principal e efetivo a ser contratado pelos donos do Chelsea no espaço de quatro anos, tendo assinado até 2030. Defini-lo como um manager não é necessariamente assumir que o treinador espanhol vai tomar todas as decisões sobre o futebol do clube, estar em todas as reuniões ou ter voz ativa em todos os departamentos, até porque a estrutura inclui cinco diretores desportivos com poderes alargados. Defini-lo como um manager, porém, é lembrar aos próprios jogadores que existe uma nova figura com autoridade para ser respeitada. 

Isto porque, nos últimos anos, têm sido muitas as notícias sobre a indisciplina do plantel do Chelsea face à equipa técnica. Os jogadores chamavam “Harry Potter” a Graham Potter, gozavam com o inglês de Mauricio Pochettino, desrespeitavam Liam Rosenior e só Enzo Maresca, aparentemente, terá escapado ao escárnio do balneário. Contratar Xabi Alonso, mais do que contratar um treinador, é contratar um líder desde o primeiro dia — alguém com mais troféus como jogador do que qualquer um dos elementos do plantel, alguém com provas dadas como técnico, alguém que não vai aceitar o claro problema de disciplina de uma equipa que acumula dezenas de cartões amarelos e vermelhos ao longo da temporada.

Depois de o treinador espanhol ter sido oficialmente confirmado este domingo, no concretizar de um rumor que já corria há várias semanas, a comunicação inglesa reuniu-se à volta da mesma pergunta: como é que Xabi Alonso, um dos treinadores da moda, aceitou entrar numa aparente casa a arder como o Chelsea? Ao contrário do que acontecia com Potter, Pochettino, Maresca ou Rosenior, fica a ideia de que o Chelsea precisa muito mais de Xabi Alonso do que Xabi Alonso precisa do Chelsea. E essa, na verdade, pode ser a chave da próxima temporada.

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Vencedor da Bundesliga com o Bayer Leverkusen, recusou o Liverpool pós-Jürgen Klopp para cumprir mais um ano nos alemães antes de substituir Carlo Ancelotti no Real Madrid. A aventura correu mal, mas o facto de a época dos merengues ter ficado ainda pior depois da saída do treinador espanhol ajuda a alimentar a versão de que o problema, por muito que se finja o contrário, está mesmo no balneário. Em Stamford Bridge, Xabi Alonso também vai encontrar um balneário com muitos jovens, um capitão que há algumas semanas abriu a porta da saída e egos em conflito. A diferença, contudo, é que Xabi Alonso já não quer nem precisa de provar nada — só pretende repetir o sucesso que teve na Alemanha.

A tarefa, contudo, é mais complexa. O Chelsea é atualmente um clube descaracterizado, aparentemente sem política de contratações e com centenas de milhões de libras investidos em jogadores muito jovens que acabam emprestados ou sem minutos. Os adeptos sentem-se desligados da liderança, como se existisse um corpo estranho a tomar conta de um clube que já não é o que conheceram e decidiram apoiar, e tudo isso ficou claro no protesto deste sábado junto a Wembley e antes da final da Taça de Inglaterra, onde se exigia a saída de Todd Boehly e da BlueCo.

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Para além de ter perdido a final da Taça de Inglaterra para o Manchester City no sábado, levando agora sete finais consecutivas a perder nas duas competições internas, o Chelsea está atualmente no 10.º lugar da Premier League, já sem possibilidades de chegar ao apuramento para a Liga dos Campeões, a sonhar com a Liga Europa, a contar com a Liga Conferência e a ter até a possibilidade de não jogar quaisquer provas europeias na próxima temporada. A missão de Xabi Alonso, portanto, é reabilitar um clube que conquistou o Mundial de Clubes no verão passado, mas parece a anos-luz da confiança com que lá chegou.

O Chelsea não precisa de uma revolução absoluta, não precisa de muitas contratações, não precisa de um antes e depois de Xabi Alonso. Mas precisa de estabilidade. E o treinador espanhol, elogiado pelo “caráter e integridade” no comunicado de apresentação, pode ser a pessoa certa para a garantir. Até porque, numa das primeiras decisões já tomadas, parece rumar precisamente nesse sentido: vai ficar com Calum McFarlane como adjunto, o interino que rendeu Liam Rosenior e conduziu a equipa até ao fim da época, e também com os treinadores de guarda-redes e bolas paradas.