Um plano global para o rio Tejo, que incluirá uma avaliação ambiental da foz até Espanha, vai avançar “muito brevemente”, anunciou o presidente da AdP AQUA, Macário Correia.

“Nós vamos arrancar muito brevemente com este plano global do Tejo, o qual não dispensa obviamente toda essa avaliação ambiental”, afirmou Macário Correia, acrescentando que o trabalho terá de abranger o rio “desde a foz até Espanha”.

O presidente da entidade responsável pela gestão, execução e coordenação da Estratégia “Água Que Une” fez esta revelação num webinar promovido na quarta-feira pelo #MovRioDouro, Plataforma Água Sustentável (PAS) e proTEJO, que juntou também Sara Correia, especialista em recursos hídricos da associação ambientalista ZERO.

Macário Correia disse que o futuro plano deverá considerar, entre outras matérias, o abastecimento da Margem Sul, a intrusão salina na zona do estuário, as questões do Alvito e Ocreza e a gestão do Alto Tejo, incluindo armazenamento para controlo de cheias, produção de energia e agricultura.

Sobre a possibilidade de novas infraestruturas para responder à cunha salina na zona do Conchoso, na Azambuja, afirmou que a questão deve ser estudada, mas ressalvou que “não há nenhuma decisão tomada”.

O anúncio surgiu depois de Paulo Constantino, porta-voz do proTEJO, ter defendido uma avaliação ambiental cumulativa das pressões previstas sobre a bacia, entre as quais o abastecimento da Margem Sul a partir de Castelo de Bode, o açude Constância-Praia do Ribatejo, transvases e a barragem do Alvito.

Em declarações posteriores à Lusa, Paulo Constantino manifestou receio de que algumas das infraestruturas previstas na Estratégia “Água Que Une” possam vir a concretizar, de forma faseada, soluções semelhantes às incluídas no denominado Projeto Tejo.

Segundo o porta-voz do movimento proTEJO, aquele empreendimento privado previa um investimento de cerca de 1.350 milhões de euros e a construção de quatro açudes e duas barragens entre Abrantes e Lisboa.

“O primeiro pode ser precisamente Constância-Praia do Ribatejo”, afirmou, admitindo que uma eventual infraestrutura destinada a responder à intrusão salina no Conchoso possa funcionar como o extremo a jusante desse conjunto.

“Se fizerem o primeiro e o último, é só fazer os outros pelo meio”, afirmou Constantino, sublinhando tratar-se de um receio do movimento e não de uma decisão anunciada pela AdP AQUA.

O presidente da AdP AQUA não respondeu diretamente, durante a sessão, ao ponto de situação do açude Constância-Praia do Ribatejo, remetendo a abordagem das diferentes soluções para o futuro plano global do Tejo.

Na discussão sobre as prioridades da estratégia, Sara Correia criticou a concentração de 65% do investimento no eixo da resiliência, onde se incluem barragens, interligações e dessalinização, face a 31% destinado à eficiência e 4% à monitorização, digitalização e regulação.

A responsável da ZERO considerou que a hierarquia inicialmente definida, que colocava em primeiro lugar eficiência hídrica, redução de perdas e reutilização e apenas depois novas origens e infraestruturas, ficou “um bocadinho invertida” na distribuição do investimento.

Macário Correia contrapôs que as barragens constituem a última prioridade formal da “Água Que Une”, salientando que estão previstas 14 num universo de 294 medidas e que a prioridade deve passar também pela redução de perdas e reutilização da água.

Paulo Constantino defendeu igualmente que o investimento deveria privilegiar a eficiência do uso da água, sustentando que uma redução significativa das perdas na agricultura e nas redes urbanas permitiria “fazer o mesmo que fazemos hoje com metade da água que usamos”.

O porta-voz do proTEJO reclamou ainda “mais diálogo, mais discussão, mais informação pública” e maior clareza sobre os projetos que avançam, respetivos calendários e avaliação conjunta dos impactos sobre a bacia.

Este foi o terceiro webinar do ciclo, após debates sobre cheias e restauro da natureza.