O Departamento de Justiça (DOJ) dos EUA divulgou esta sexta-feira à noite 300 mil páginas de documentos ligados ao criminoso sexual Jeffrey Epstein. A extensa relação de ficheiros inclui milhares de imagens, desde a casa de Epstein em detalhe, até imagens da sala de massagens do empresário condenado, mas também diversas listagens. Uma delas, revela a Sky News, menciona 254 massagistas. Há também um registo de voos e de telefonemas ou listas de funcionários.

Há pelo menos quatro ficheiros de imagens, com vários gigas de tamanho. Surgem mais imagens de celebridades — há fotografias dos músicos Michael Jackson e Diana Ross ao lado de Bill Clinton, antigo Presidente dos EUA. Noutras, um jantar onde figura Mick Jagger. Também há fotografias de um concerto dos Rolling Stones.

Clinton é uma presença recorrente num dos grandes lotes de imagens. Há fotografias de Clinton ao lado do ator Kevin Spacey, mas também imagens do antigo Presidente norte-americano num jacuzzi e numa piscina. Noutras, surge no que parece ser uma viagem de férias com Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell, a companheira de Epstein condenada a 20 anos de prisão por crimes contra menores.

Angel Ureña, porta-voz do antigo Presidente norte-americano, acusa a Casa Branca de “se querer proteger”. “A Casa Branca não está a esconder estes ficheiros há meses só para agora os lançar tarde a uma sexta-feira para proteger Bill Clinton. Isto é sobre se protegerem a si próprios do que vem a seguir ou daquilo que vão tentar esconder para sempre”, diz numa mensagem na rede social X. 

“Portanto, podem divulgar quantas fotos granuladas com mais de 20 anos que quiserem, mas isto não tem nada a ver com Bill Clinton”, afirma o porta-voz. “Há dois tipos de pessoas aqui. O primeiro grupo não sabia nada e cortou relações com Epstein antes de os seus crimes conhecerem a luz do dia. O segundo grupo continuou relações com ele depois disso. Nós estamos no primeiro grupo. Nenhuma manobra dilatória por parte das pessoas do segundo grupo irá mudar isso. Todos, especialmente os apoiantes do movimento MAGA [Make America Great Again], esperam respostas, não bodes expiatórios.”

As imagens não são acompanhadas de legendas ou contexto, portanto não é possível perceber quando e onde foram captadas ou qual a relação entre os fotografados. Além disso, estar presente nas fotografias não é sinal de algum tipo de ilegalidade ou crime, realça o DOJ.

Muitas das imagens têm mulheres com rostos encobertos, por questões de privacidade. Também as fotografias mais explícitas estão rasuradas, assim como informação considerada confidencial. O facto de nem toda a informação estar disponível está a ser criticado pelo partido Democrata.

Pelas contas da CBS News, há mais de 500 páginas dos ficheiros que estão completamente censuradas. É o caso de um documento de 119 páginas, com o título “Grande júri – NY”, em que não é possível perceber o conteúdo.

O republicano Thomas Massie e o democrata Ro Khanna, que têm estado à frente do movimento que pressiona a divulgação dos documentos, afirmam que o DOJ não está a cumprir com a lei. “A divulgação de documentos do DOJ de centenas de milhares de páginas não cumpre com a lei criada por mim e por Thomas Massie”, assinala o democrata no X. “Infelizmente os documentos lançados hoje pela procuradora Pam Bondi e pelo procurador Todd Blanche falham de forma grave em cumprir tanto com o espírito como a letra da lei que Donald Trump assinou há apenas 30 dias”, completa Thomas Massie, partilhando o vídeo do democrata.

Numa mensagem na rede social X, o DOJ esclareceu que não foram ocultados os nomes de políticos. “As únicas rasuras aplicadas aos documentos são aquelas exigidas por lei — ponto final. Em conformidade com o estatuto e as leis aplicáveis, não estamos a rasurar os nomes de indivíduos ou políticos, a menos que sejam vítimas”, disse o procurador Todd Blanche.

No site do Departamento de Justiça é possível encontrar registos de transcrições de sessões em tribunal e também vários registos do Comité de Supervisão ligados à investigação. A área do site onde estão os documentos tem tanta procura que até há uma espécie de fila de espera para aceder à informação.

O Observador tentou aceder à área do site com os documentos e recebeu a mensagem da fila de espera

Há uma funcionalidade de pesquisa no site — é obrigatório por lei que os ficheiros sejam pesquisáveis — mas que não está a funcionar. Pesquisando por Epstein, Clinton ou Maxwell não são apresentados quaisquer resultados. É apresentada uma mensagem junto à função de pesquisa em que é dito que “devido a limitações técnicas e ao formato de certos materiais (por exemplo, texto manuscrito), partes dos documentos podem não ser pesquisáveis eletronicamente ou podem produzir resultados de pesquisa não confiáveis”.

Documentos incluem queixa de Maria Farmer, a primeira mulher a acusar Epstein

Os documentos libertados pelo DOJ esta sexta-feira incluem uma imagem da queixa original feita por Maria Farmer, em 1996. Farmer foi a primeira mulher a formalizar uma queixa contra Epstein.

A queixa feita ao FBI está ligada a pornografia infantil. Maria Farmer, uma artista, trabalhou para Epstein na década de 90 — foi contratada para adquirir obras de arte para o empresário. Na queixa, não surge o nome de Maria Farmer, mas a imprensa internacional estabeleceu a ligação entre as situações. Farmer acusou Epstein de lhe ter roubado fotografias das irmãs mais novas, então com 12 e 16 anos, que surgiam nuas nas imagens. Maria Farmer explicou que as imagens foram captadas para um projeto pessoal de arte. O New York Times (NYT) cita o relatório da queixa feita ao FBI: “Epstein roubou as fotografias e os negativos”. A queixa também acusa Epstein de ter pedido a Farmer para captar imagens de raparigas em piscinas e ouviu ameaças de “que iria incendiar-lhe a casa” caso contasse a alguém sobre as fotografias.

Ao longo dos anos, o FBI nunca confirmou a existência desta queixa, nota o NYT. A queixosa afirmou que só foi contactada pelo FBI mais de uma década após a queixa. Maria Farmer acusou também Epstein de agressão sexual. E, ao longo dos anos, também tornou público que viu Donald Trump nos escritórios de Epstein em Manhattan, em 1995, e que numa das ocasiões ouviu Epstein dizer a Trump que “ela não estava lá para ele”. A Casa Branca negou os relatos de Farmer.

Na rede social Instagram, através dos advogados, Maria Farmer reagiu à divulgação dos documentos e da sua queixa ao FBI “Este é o momento pelo qual esperei três décadas, mais de metade da minha vida. Quando fui ignorada pelo FBI em 1996, o meu mundo ficou virado ao contrário e senti-me parada no tempo. Recebi ameaças de morte, fui ridicularizada e gozada por algumas das pessoas mais poderosas na Terra”, disse Farmer. “Quando os meus relatórios do FBI ficaram finalmente disponíveis, tenho esperança de poder recomeçar de onde fiquei aos 26 anos. Também tenho esperança de que isto seja um passo importante para várias das sobreviventes e que se possa responsabilizar o governo pela sua grotesca falha em aplicar a lei, uma das maiores [falhas] na história dos EUA.”

Departamento de Justiça ainda tem mais documentos por revelar

Esta sexta-feira era o prazo final previsto para a divulgação pela administração do Presidente republicano Donald Trump de todos os documentos em sua posse sobre este caso, que agita os Estados Unidos há anos.

“Espero que hoje [sexta-feira] publiquemos várias centenas de milhares de documentos”, disse o número dois do Departamento de Justiça, Todd Blanche, à estação televisiva Fox News, especificando que esses documentos serão “de formas muito diversas”. No entanto, o responsável deu a entender que não se trataria da totalidade dos documentos, pois “várias centenas de milhares” de outros ainda deveriam ser divulgados “nas próximas semanas”.

É expectável que o DOJ continue a divulgar documentos ao longo das próximas semanas.

Blanche justificou esse prazo pela necessidade de o Governo garantir que “cada vítima seja totalmente protegida”. “Estamos a examinar cada documento que vamos tornar público, garantindo que cada vítima — o seu nome, a sua identidade, a sua história — seja totalmente protegida, na medida do necessário”, insistiu Blanche. “Até ao momento, não há previsão de novas acusações, mas a investigação continua”, afirmou também o ex-advogado pessoal de Donald Trump.

A morte de Jeffrey Epstein, encontrado enforcado na sua cela em Nova Iorque a 10 de agosto de 2019, antes de ser julgado por crimes sexuais, alimentou inúmeras teorias da conspiração segundo as quais ele teria sido assassinado para abafar um escândalo que envolvia figuras proeminentes do país.

Donald Trump prometeu, durante a sua campanha presidencial de 2024, revelações bombásticas sobre o “caso Epstein”, um bilionário de quem foi amigo durante décadas. No entanto, nos últimos meses o Presidente republicano tem mudado o discurso, classificando o caso como uma “farsa” montada pela oposição democrata.

Depois de se opor durante muito tempo, em novembro acabou por promulgar a lei que obriga a sua administração a tornar públicos todos os documentos relacionados com este caso.

Algumas das fotos já divulgadas mostram Epstein num escritório com Steve Bannon, antigo conselheiro de Donald Trump, a posar com o cineasta Woody Allen e com o intelectual de esquerda Noam Chomsky aparentemente a bordo de um jato privado. Outras imagens mostram passaportes e cartões de identidade pertencentes a mulheres ucranianas, russas e sul-africanas, com os seus nomes e fotos rasurados. A existência de ligações entre Epstein e as pessoas retratadas era conhecida e nenhuma das fotos divulgadas desde a semana passada parece revelar qualquer comportamento criminoso.

Na semana passada, os deputados democratas já tinham divulgado várias imagens, incluindo de Trump e do ex-presidente Bill Clinton, bem como do ex-príncipe britânico André. Outros retratados eram Bill Gates, cofundador da Microsoft, e Richard Branson, fundador do Grupo Virgin.

Donald Trump sempre negou ter qualquer conhecimento de atividades criminosas de Epstein e afirma ter rompido com este no início dos anos 2000, muito antes de ser investigado judicialmente.