Maria de Lourdes Pereira Lupi d’Orey dedicou a sua vida à preservação do património familiar, à promoção das tradições da região e à ligação que manteve desde sempre com a Herdade de Rio Frio, em Palmela. Figura emblemática do panorama agrícola e social daquela região, morreu na semana passada, aos 93 anos. “93 anos não é uma vida interrompida, é uma vida cumprida. 93 não é morrer, é descansar”, escreveu nas suas redes sociais o neto Pedro d’Orey.
Filha de José Lupi e de Maria Amélia de Freitas Pereira, e irmã do cavaleiro tauromáquico José Samuel Lupi (1931-2022), o seu envolvimento nos órgãos sociais da Sociedade Agrícola de Rio Frio remonta, segundo o Jornal Concelho de Palmela, aos anos 50. Localizada na freguesia de Pinhal Novo, a Herdade era originalmente composta por 50 000 hectares e terrenos em redor da mesma, datando do século XIX, uma história que nos leva até à figura de José Maria dos Santos.
Em 1892, ainda antes de o palácio existir, Rio Frio era uma propriedade de 17 mil hectares, onde o veterinário mandou plantar uma gigantesca vinha, o equivalente a dez milhões de cepas, que chegou a ser considerada a “maior vinha contínua do mundo” e a “maior mancha de montado artificial do mundo”. Em junho de 2022, a Corticeira Amorim ficava com a totalidade da Herdade de Rio Frio, o imóvel que tinha acabado nas mãos dos bancos pela execução do património do antigo dono, escrevia o Observador, dando conta de como o BCP já tinha aceitado vender a sua posição e então também a Parvalorem — empresa do Estado com alguns dos ativos que eram do BPN — aceitara alienar os seus 50% ao grupo liderado por António Rios Amorim.
Com os seus então 3.600 hectares, continuava a ser um dos maiores terrenos agrícolas do país, mantendo a exploração de cortiça e produção de vinhos, bem como a produção de arroz, de gado bovino autóctone e de cavalos puro-sangue lusitanos e anglo-luso-árabes aptos para as atividades equestres.
No seu perímetro, ergue-se o Palácio de Rio Frio, um projeto arquitetónico cuja autoria não é certa, já que a documentação terá desaparecido num incêndio. Certo, porém, é que se encontra decorado com azulejos de Jorge Colaço, inspirados em temas agrícolas e vitivinícolas da herdade. Foi construído no início do século XX, em 1918, com uma situação privilegiada próxima do Montijo, de Alcochete e das margens do Tejo, por Alfredo Santos Jorge, que herdara a herdade do tio José Maria dos Santos. Sobrinha neta de Alfredo, Maria de Lourdes Pereira Lupi d’Orey era a atual proprietária do Palácio de Rio Frio, que se mantinha nas mãos da família, tendo herdado o imóvel depois da morte da mãe.
Tal como muitas grandes explorações agrícolas e latifúndios meridionais, a propriedade foi ocupada por trabalhadores e movimentos afetos à Reforma Agrária logo a seguir a abril de 1974. Rio Frio foi, aliás, a grande fonte de inspiração para o enredo de A Herdade, o filme de 2019, dirigido por Tiago Guedes, com argumento de Rui Cardoso Martins e Tiago Guedes, com colaboração de Gilles Taurand, a partir de uma ideia original do produtor Paulo Branco. A obra é protagonizada por Albano Jerónimo, no papel de João Fernandes, o patriarca de uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, na margem sul do rio Tejo. O palácio é atualmente utilizado para eventos e alojamento turístico.
A matriarca, que aqui viveu desde pequena, herdara o palácio depois da morte da mãe, dirigindo uma verdadeira empresa familiar, liderando então uma família de oito filhos e 20 netos. “Será uma festa muito alegre”, antecipava ao Público, em 1998, Maria de Lourdes Lupi D’Orey, então com 65 anos, sobre os festejos de réveillon, uma das muitas tradições que o clã continua a viver em Rio Frio, à semelhança do Natal.