Até ao início do verão, Jordan Bardella seguia lançado nas sondagens e era uma grande esperança da União Nacional (UN) para finalmente chegar ao Palácio do Eliseu. Agora, o eurodeputado pode estar a dificultar as contas de Marine Le Pen, que se mantém na liderança destacada dos estudos de opinião para as eleições presidenciais de 2027, mas poderá ser afetada pela mais recente polémica da política francesa. O jornal Mediapart revelou esta semana várias mensagens de teor antissemita que alegadamente foram trocadas, em privado, por Bardella com colegas do partido.

As mensagens reveladas pela investigação terão sido trocadas no verão de 2013, quando o agora eurodeputado tinha 17 anos — um ano depois, Bardella era eleito dirigente da Frente Nacional (FN, antigo nome da UN) na concelhia de Seine-Saint-Denis. “Todos os bancos são propriedade de judeus”, escreveu Bardella numa ocasião, acrescentando que os judeus têm como princípio “dominar os outros povos, esmagá-los e roubá-los”. Numa crítica ao governo de François Hollande, então em funções, Bardella sugeria que “os ministérios mais importantes são atribuídos a pessoas para quem Israel e os interesses bancários se sobrepõem aos interesses franceses”.

Jordan Bardella defendeu-se entretanto, dizendo que a notícia do Mediapart se baseia em “falsificações grosseiras” e constitui uma “operação de espionagem”, ameaçando avançar com um processo judicial por falsificação contra o jornal que acusou de ser um antro de “militantes” políticos. “Contesto formalmente as vossas alegações de que eu teria proferido, tanto em público como em privado, oralmente ou por escrito, comentários racistas ou antissemitas desse tipo”, respondeu o presidente da UN. “Penso que estamos perante algo perfeitamente organizado, há já vários meses”, disse, sugerindo que poderá apresentar brevemente provas materiais para desmentir as acusações.

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A candidata da UN às presidenciais, que lidera as sondagens à primeira volta e em qualquer cenário da segunda, também rejeitou as acusações de antissemitismo. “Parece tão absurdo que só pode ser uma falsificação, uma manipulação, uma manobra secreta”, acusou Le Pen. “O sistema fará tudo, incluindo as coisas mais repugnantes, para tentar travar este ímpeto”, disse numa referência à sua campanha eleitoral. “Estamos a ver os primeiros sinais de uma guerra total, tentativas de desestabilizar a campanha presidencial”, acrescentou Bardella.

O tema é particularmente sensível para Marine Le Pen, que conseguiu renovar a imagem do partido ao afastá-lo das simpatias ao antissemitismo que marcaram a liderança de Jean-Marie Le Pen, que disse nomeadamente que as câmaras de gás foram um “detalhe” da Segunda Guerra Mundial. As acusações a Bardella reacendem suspeitas sobre se a UN virou definitivamente essa página.

“Se os elementos tornados públicos forem confirmados, o antissemitismo dos comentários atribuídos a Jordan Bardella é um desmentido veemente da estratégia de desdiabolização da União Nacional”, escreveu nas redes sociais Yonathan Arfi, líder da principal associação de representação de judeus em França (CRIF). “Como é que um responsável político que proferiu comentários antissemitas tão nauseantes pôde, em seguida, obter tais responsabilidades num partido que pretende ter mudado e lutar contra o ódio aos judeus?”, acrescentou.

O ex-ministro das Finanças francês Pierre Moscovici — um dos governantes da era Hollande visados pelo comentário de Bardella sobre a ligação do governo aos judeus — disse ao jornal Politico que se trata de “um assunto muito sério” para a candidatura de Le Pen. “Vão ter de demonstrar que tudo isto é falso”, afirmou. Já o antigo ministro da Justiça Éric Dupond-Moretti, que esteve em funções durante a presidência de Emmanuel Macron, afirma que a investigação do Mediapart mostra que “os esforços para purificar o partido eram, na verdade, uma operação de encobrimento”. E acrescenta: “As máscaras vão cair.”

A reportagem publicada esta segunda-feira também revela várias mensagens de Bardella a apoiar o escritor de extrema-direita Alain Soral, acusado de espalhar várias teorias da conspiração e condenado por discurso de ódio e negar o Holocausto. Em 2013, o agora eurodeputado disse que o escritor tinha razão ao falar numa “submissão francesa aos interesses sionistas”. Soral chegou a ser dirigente da FN, mas acabaria por, à semelhança de Jean-Marie Le Pen, ser afastado do partido durante a liderança de Marine Le Pen, num esforço para a “desdiabolização” do partido que consistiu num afastamento de posições claramente antissemitas, racistas e em apoio ao marechal Pétain, que colaborou com os nazis durante a Segunda Guerra Mundial.