A Câmara do Porto anunciou esta sexta-feira que chegou a um “pré-acordo” com o proprietário de duas salas de cinema no centro comercial Stop, para dar condições “de ensaio e de apresentação” a músicos e bandas.
Segundo explicou o vereador da Cultura e Património, Jorge Sobrado, a intenção é integrar estas duas salas na nova Rede de Centros de Criação do Porto, ainda por cima por um “valor imperdível”. “É bastante abaixo do preço de mercado e mantém, no fundo, a vocação das salas, não apenas de cinema, porque elas estão licenciadas para atividades de espetáculo. É um valor imperdível, irrecusável. (…) Esperamos nos próximos meses ter novidades”, afirmou, em declarações aos jornalistas no Centro de Criação Almada.
Sem precisar o valor antes de “ir à reunião de câmara”, referiu que o objetivo agora é “inscrever o Stop na cidade” e “proteger o fenómeno”, para proteger um “centro nevrálgico de criação sonora e musical” e “afastar de uma vez por todas a sombra que foi pesando” sobre o espaço.
“Este grande centro do Porto, de cultura mais underground, alternativa e independente, dispõe de dois grandes espaços, um cinema com 240 lugares e outro com cerca de 120 lugares. Estão fechados praticamente desde que o centro comercial deixou de ter essas funções. Estão em condições legais de serem devolvidos à cidade”, declarou.
O objetivo, segundo referiu, é ali criar “espaços híbridos de criação, ensaio técnico, produção e apresentação“, para permitir às bandas que não o consigam fazer nas “salas exíguas” onde trabalham, pela morfologia do centro comercial, realizar outros trabalhos e também dinamizar programação.
Faltam condições de segurança, explicou aos jornalistas, mas o acordo com o proprietário, a NOS, está finalizado, estando a ser trabalhadas, para fechar o acordo, sobretudo medidas de autoproteção e servidão de segurança, numa fase em que o município quer garantir também a inscrição do espaço não só como edifício, mas pelo uso, como Património Cultural e Imaterial.
“A expectativa que me criaram foi que até ao final do ano essas medidas de autoproteção estariam apresentadas e acordadas com a Proteção Civil”, garantiu. Questionado sobre se o município também teria interesse em adquirir o parque de estacionamento, afirmou que essa aquisição “não está no horizonte”.
A intenção de comprar as salas de cinema do Stop, de resto, já tinha sido colocada pelo anterior autarca, o independente Rui Moreira, em fevereiro de 2025.
A 30 de julho do ano passado, o Centro Comercial Stop foi classificado como monumento de interesse municipal, segundo um edital publicado no Diário da República, que estabelece uma zona de proteção de 50 metros em redor do edifício utilizado como centro cultural.
Jorge Sobrado, que concorreu nas listas do Partido Socialista (PS) e desenhou o programa para a cultura dessa candidatura, já tinha definido a proteção do “ecossistema” do Stop como prioridade, tendo depois chegado a acordo com o presidente da câmara, Pedro Duarte (PSD-CDS-IL), para assumir a vereação da Cultura.
Rede de Centros de Criação do Porto terá nove espaços até 2029
A notícia do STOP surge no dia em que a Câmara do Porto anuncia que terá até 2029 nove espaços integrados na nova Rede de Centros de Criação da cidade, a partir de quatro espaços já existentes a que se juntou, esta sexta-feira, o Centro de Criação Almada.
Entre 2025 e 2029, entrará em funcionamento esta “primeira versão”, apresentada pelo vereador da Cultura e Património, Jorge Sobrado, no dia em que inaugurou oficialmente o centro na Rua do Almada, onde antes funcionava a Mala Voadora e que a autarquia está a arrendar, por um valor a rondar os 13 mil euros mensais.
Segundo explicou aos jornalistas o presidente da câmara, Pedro Duarte (PSD-CDS-IL), o investimento nos espaços que ainda precisam de obras rondará “uns sete milhões de euros”, em concreto para a Escola Pires de Lima e a Escola 85, enquanto a recuperação de duas salas de cinema do Stop que a autarquia quer adquirir ficará por um valor “muito residual”.
Ao CAMPUS Paulo Cunha e Silva, espaços de residência no Teatro Campo Alegre, os Ateliês da Lada e o Apartamento da Ribeira, que já funcionam, junta-se agora este novo centro, de “vocação multidisciplinar”, com uma ‘white box’ e uma ‘black box’, além de terraço, sala polivalente e dois estúdios, para poder receber tudo, das artes performativas às artes digitais e cinema.
A reserva para este espaço, até final do ano, arrancou esta sexta-feira, estando já no local o grupo Maduro Maio e o espanhol Rafael Maté, para períodos que podem ir até 14 dias, segundo o regulamento, contemplando também a possibilidade de apresentação ao público.
Na rede, inspirada nas fábricas de criação de Barcelona, juntar-se-ão a este centro os apartamentos Aurélia e Sofia de Souza, no edifício onde está instalado o Museu Aurélia e Sofia de Souza (antiga Casa Museu Marta Ortigão Sampaio), que vai abrir até final do ano, mas também a Escola 85, que se espera ser disponibilizada “até final de 2028”, estando em fase de encomenda de projeto.
Já a Escola Pires de Lima, a funcionar até final de 2029, será “o porta-aviões” da rede, descreveu Jorge Sobrado, por poder disponibilizar “pelo menos 40 espaços de residência” naquele edifício de arquitetura brutalista, e no qual estará também instalado o primeiro centro de recursos partilhados, para a disponibilização de apoios à criação artística e recursos técnicos e logísticos.
Por outro lado, a intenção de adquirir os dois cinemas do Centro Comercial Stop permite novo polo cultural, num edifício em que ensaiam e trabalham “mais de 100 bandas, mais de 400 músicos”, segundo a estimativa da vereação.
“Chegaremos a este mapa até final de 2029, a que se juntarão outros espaços de gestão independente. O Centro FITEI será um deles, temos esse compromisso protocolado, mas posso adiantar que há outros espaços não municipais que já manifestaram intenção de se juntar à rede, viabilizando uma gestão mais integrada, inteligente, complementar, destes espaços”, reforçou Jorge Sobrado.
Dentro da rede há oferta para artes performativas mas também cinema, artes visuais, arte contemporânea, artes digitais e mesmo outras “atividades ditas ‘limpas'”, como a investigação e a edição.
O vereador também revelou a intenção de lançar, “em breve”, o Balcão Cultura Porto, uma nova plataforma digital integrada para gerir toda a relação do município com o ecossistema artístico da cidade, através da empresa municipal Ágora, numa fase em que têm estado a rever as mais linhas de apoio ao setor artístico independente que disponibilizam.
“Esta rede procura ser uma resposta pública, um reforço das condições de residência, radicação e continuidade das estruturas do Porto, mas também perseguir um caráter integrado da oferta”, explicou o vereador.
A intenção não é de impor, nem “prejudicar a autonomia própria de cada indivíduo e estrutura”, como referiu Pedro Duarte, mas antes saber que “todos ganham se funcionarmos em rede”.
“Não temos uma visão dirigista, não queremos impor uma visão da cultura nem indiciar uma visão cultural para a cidade. Queremos que venha de baixo para cima e queremos espaços onde a liberdade individual e o espírito criativo devem crescer com naturalidade”, afirmou.
Questionado sobre a procura que os espaços possam vir a ter, Jorge Sobrado disse que “não há uma semana em que não receba três, quatro, cinco ou seis pedidos de acolhimento para residências artísticas na cidade”.
“É seguramente uma centena de pedidos sem capacidade de resposta, neste momento, que recebi ao longo do último ano. (…) Esta foi uma das principais aspirações do setor, espaços de trabalho, criação, residência. É uma das grandes lacunas da cidade do Porto”, admitiu.
Também Pedro Duarte notou a capacidade de resistência do tecido cultural da cidade, “mesmo em momentos em que houve opções políticas menos favoráveis à cultura”.