A passerelle e toda a logística das modas saltou da Estufa Fria para o Capitólio, onde vai ficar até domingo. Neste segundo dia, o regresso de Luís Buchinho à ModaLisboa era dos momentos mais aguardados, desta vez para celebrar os 30 anos do evento: “é para estar perto daqueles com quem estive quando comecei a carreira”, confessou. Ao longo da tarde passaram pela sala de desfiles Carolina Machado, Lidija Kolovrat e Joana Duarte e a sua Béhen, que prestou uma homenagem a 15 mulheres da história portuguesa numa parceria com a Casa do Artista.
Joana confessa que não soube bem como conseguiu pôr de pé esta coleção, uma empreitada que envolveu entrevistas, conversas informais, procura de tecidos, desenhos e todo o processo de produção artesanal. “Foram seis meses duros, mas o resultado valeu a pena. Eu queria fazer uma coleção que tivesse uma associação direta com pessoas que tiveram um papel muito interessante na década de 70, no fundo, que apanhasse um período antes e depois do 25 de Abril”, conta. “O objetivo era encontrar pessoas reais que o público conseguisse associar a um conceito maior.”
Em “Liberdade é nome de mulher”, a criadora conseguiu imprimir nos seus 15 coordenados uma interpretação sua daquilo que resultou das conversas com estes 15 nomes “do pensamento maior”, com apoio da Casa do Artista que fez a ponte e permitiu que esta sexta-feira se fizesse e se contassem histórias na ModaLisboa. Joana falou com mulheres como Maria João Seixas, Helena Vieira, Simone de Oliveira, Ana Vidigal, Margarida Tengarrinha, Olga Mariano, Maria Candal, Tony Valério, Casimira Frazão, Olga Roriz, Anita Guerreiro e Lily Neves, mas também homens como Carlos Avilez, Filipe La Féria e António da Cunha Telles, por terem “sido figuras que representaram de alguma forma uma alavanca para o empoderamento da mulher naquela altura”.
“É impossível eu conseguir retratar todos os gostos e todas as ideias e valores destas 15 pessoas em roupa”, explica. “São detalhes das conversas que tive que tentei transpor. A Simone disse-me que gostava de azul e verde, então isso fazia sentido, mas depois pensei que o bordado da Madeira encaixava porque achei que era um material muito nobre e muito ligado à cultura portuguesa, por exemplo.”
Nesta coleção continuou a utilizar a matéria prima que a consagrou, os enxovais — uma paixão que começou quando decidiu desenterrar o seu próprio enxoval, feito com a avó, que a ensinou a bordar e a costurar. São visíveis as colchas antigas bordadas com floral em casacos tipo blazer com detalhes inacabados ou as cortinas e toalhas de mesa em renda que deram origem a camisas detalhadas, como se de um napron no centro da mesa se tratasse — mas aqui vestíveis e de uma delicadeza e pormenor que só Joana consegue imprimir. Se por um lado há peças delicadas, por outro a designer gosta de arrojar nos pormenores, como os sapatos e as malas forrados a tecido e os grandes chapéus de aba transformados em autênticos canteiros de flores.
▲ Alguns coordenados de Béhen
MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR
E apesar de ser uma coleção quase toda ela construída com materiais antigos que Joana coleciona, a designer introduziu também algumas técnicas feitas de raiz como foi o caso do bordado da Madeira, sobretudo as peças de cor, e o bordado de Viana do Castelo. “Este é o início de um trabalho maior e é este caminho que quero traçar no futuro: trabalhar de perto com artesãos e com a comunidade local que executa estas técnicas como ninguém”, explica.
Pela passerelle desfilaram conjuntinhos de saia e casaco ou de calça e casaco, com muitos brocados e rendas, calças à boca de sino e mangas com chumaços.
Joana Duarte mantém-se fiel ao propósito da sua Béhen: representar as mulheres de alguma maneira, fazer-lhes uma homenagem. “Estas conversas que tive foram fundamentais para aprender ainda mais sobre o que é ser mulher. Há uma conexão entre nós por sermos mulheres, independentemente de onde estamos no mundo inteiro”, confessa. “Acho que o nosso papel e a figura da mulher tem de ser falado e mostrado, sobretudo na indústria da moda que é muito marcada pelo papel do diretor criativo, um papel dominante do homem. É importante que comecemos a mudar isso. É preciso iniciar a conversa.” A Béhen não é só de Joana, é de todas as mulheres, é de todos.
“Houve um retorno à emoção e ao sonho”
Em março de 2020, para assinalar 30 anos da sua marca, Luís Buchinho ainda apresentou na última edição física da ModaLisboa, ao abrigo do protocolo de cooperação estabelecido entre a Associação ModaLisboa e a ANJE, responsável pelo Portugal Fashion, onde o designer tem vindo a apresentar desde 2015. Esta edição marca o seu regresso, desta vez para celebrar os 30 anos de ModaLisboa, onde tudo começou. Onde ele próprio começou.
“Depois do confinamento muita coisa mudou e eu achei que o meu mindset estava agora virado para aqui. A ModaLisboa começou há 30 anos e eu fiz cá o meu primeiro desfile e quis, sem dúvida, estar perto de quem estive quando comecei a carreira. É um sentimento mútuo e uma data muito especial para ambos”, conta ao Observador.
Era o desfile mais aguardado deste segundo dia de Moda Lisboa “And Now What?”, notava-se a agitação para que tudo estivesse nos conformes para o que se ia passar naquela sala de desfiles ao fechar da noite. À hora marcada, a música ditou o ritmo de “Another Hope Feeds Another Dream”, uma coleção cheia de sensualidade e cortes arrojados, feita a pensar “no regresso à vida de uma mulher liberta”.
“Esta coleção foi feita de uma maneira muito mais livre, não a fiz tanto a pensar na parte da produção ou na parte mais comercial”, confessa. “Foi toda ela muito feita em modelagem de atelier, pelo que é muito difícil de ser fabricada em série. Teve tudo mais a ver com o fabrico mais individualizado porque haverá um grande retorno a festas, e os consumidores querem propostas únicas, adequadas a cada tipo de corpo.”
Apesar das silhuetas mais curtas serem predominantes, Luís Buchinho tem outras mais longas, outras fluídas, outras justas, até porque o que importa é “haver um misto de todos os gostos e de todos os corpos”, porque “hoje em dia é fundamental isso existir em todas as coleções”, diz.
As silhuetas dinâmicas e os jogos de cores e texturas são imagem de marca de Buchinho, que nesta coleção não quis deixar para trás a sua insígnia. O criador de moda confessa que nestes seus últimos trabalhos tentou ao máximo “transformar matéria prima extremamente básica” em algo maior que implica “voltar a um trabalho mais específico e especializado de design de autor”, explica. “É pegar em nessa matéria em bruto e começar a transformar, fazer um print em cima dela, plissar, cortar a laser, drapear, tudo isso muda aquilo que pode parecer básico e converte-o numa peça de passerelle que é também uma peça que não deixa de ser para vestir, isso é fundamental.”
Há um trabalho muito claro com os folhos e os drapeados que formam um certo volume em tops e vestidos que o designer apresentou, contrastando com a fluidez dos plissados de outros. Em várias peças era visível o trabalho minucioso de recorte das formas para criar as tais silhuetas dinâmicas e extremamente femininas e texturas marcantes. As cores caíram numa paleta de pretos e brancos e com apontamentos verdes — do verde bandeira ao néon. “O verde que escolhi foi uma cor que associo muito ao otimismo, acho que é uma cor com uma vibração boa. Quis trabalhar com cores que estão mais ligadas ao imaginário feminino, que até são de certa maneira menos as minhas cores, mas que depois misturados desta maneira conseguem ter o look que eu habitualmente passo nas coleções”, conclui.
Luís Buchinho confessa ter sido um “processo muito emotivo e gratificante” pensar uma coleção para novamente para o formato físico. “Voltei a sentir uma vibração que não estava a sentir que fiz aqueles modelos para apresentação digital, com coleções super pequenas. Houve um retorno à emoção e ao sonho e isso é importante.”
O verão de linho de Carolina Machado e o streetwear de Kolovrat
Carolina Machado, que apresenta na plataforma LAB da ModaLisboa desde 2017, tem-nos habituado à simplicidade das formas e de como essa leveza e minimalismo se podem transpor no imediato da passerelle para os corpos de quem a observa. Nesta sua apresentação Carolina, como símbolo do fio de continuidade e evolução entre cada coleção, optou por reaproveitar deadstock de coleções passadas. A esses materiais juntaram-se tecidos naturais predominantes como o algodão e o linho que oscilavam ali entre peças mais fluídas e um tailoring delicado para o verão 2022.
“Sóbrio, contemporâneo, elegante e intemporal” — é assim que Carolina define o ADN da marca que aqui se mostrou através de silhuetas midi, fluidas e outras mais slouchy em tons contrastantes como o preto e o branco, o cru e o cinza, o fúchsia e o laranja.
▲ Lidija Kolovrat apresentou a nova coleção esta tarde de sexta-feira
MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR
Lidija Kolovrat já é veterana nestas andanças e não perde uma oportunidade para mexer nas formas convencionais de determinadas peças para as transformar em novas composições. No ecrã, antes de os modelos irromperam pela passerelle, liam-se coisas como “New language” e “Non logical way”, já a preparar o público para o desmantelamento das formas que Kolovrat assumiu nesta coleção.
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E tal como já tinha falado ao Observador esta semana, a designer diz que está “no ADN da marca” a transformação do desperdício de tecidos “para os tornar nobres”, e por isso, num trabalho contínuo que assume há já vários anos, também nesta coleção quis aproveitar sobras de tecidos para valorizar o vestuário. Vestuário esse que culminou num casamento entre o streetwear e o tradicional, que acabam por encontrar nas mandalas o lado mais espiritual que Lidija não esconde. “O segredo da mandala é levar-nos propositadamente a lidar com a estratificação e acumulação das nossas experiências diárias. As ilusões vêm do ego, a verdade vem do coração. Quando abraçamos a cor, encontramos a liberdade”, lê-se no descritivo da coleção.
E liberdade foi o que não faltou por ali. A criadora meteu os patins aos modelos e lá foram eles pela passerelle fora, a deslizar no chão negro e brilhante do Capitólio. Malhas de rede, transparências pretas em silhuetas bem justinhas ao corpo, coordenados de streetwear de calças e calções foram alguns dos destaques do desfile. A coleção tinha vários apontamentos de cor em rosa, verde e azul, predominantemente, e algumas peças mais descontraídas com um detalhe curioso: umas mãos brancas de unhas vermelhas sob tecido preto. Entraram de patins, e de patins saíram.