Nada é impossível. E, às vezes, é só mesmo preciso conseguir olhar para as coisas de forma diferente. |
Não sei quantos dos que estão a ler esta newsletter se lembram do MacGyver. Espero que sejam ainda alguns. O MacGyver era o meu herói de infância. Numa altura em que só existiam dois canais de televisão, lembro-me de estar ansiosamente à espera dos finais de tarde de domingo para ver um novo episódio da série. |
Ele era uma espécie de herói improvável. Um agente secreto enviado para várias partes do mundo para resolver situações complicadas, mas que tinha aversão a armas. A grande “arma” dele era um canivete suíço, que levava sempre no bolso. E, normalmente, conseguia safar-se das situações mais difíceis com engenhocas que inventava a partir do que tinha mais à mão. Podia ser uma pilha, um arame ou um cordel. Uma vez usou mesmo uma pastilha elástica para desativar uma bomba. |
Para fazer o novo Podcast Plus do Observador, “As Sombras de Duarte Lima”, nós contámos com o nosso próprio MacGyver para sair de uma situação complicada. |
O Carlos Diogo Santos, autor do podcast, tinha várias entrevistas gravadas em 2015 com muitas pessoas importantes para a história: o assassinato de Rosalina Ribeiro no Brasil, em dezembro de 2009. Rosalina era herdeira do milionário Lúcio Tomé Feteira e o único acusado pelo homicídio é o homem que se apresentava como advogado dela: Duarte Lima, um ex-político poderoso do PSD, entretanto caído em desgraça. |
Os testemunhos registados na altura eram muito valiosos. Algumas das pessoas entrevistadas já faleceram entretanto. E as entrevistas nunca tinham sido publicadas em áudio (o Carlos usou-as para o livro que escreveu sobre este caso, “Rio Derradeiro”, em conjunto com Aurílio Nascimento, comissário da polícia brasileira que investigou o crime). Problema: foram gravadas num iPhone 4, um modelo muito antigo. |
Havia um ponto positivo: os áudios ainda estavam intactos. Se ligássemos uns auriculares ao aparelho conseguíamos ouvi-los. Mas as boas notícias paravam por aí. O sistema operativo estava totalmente desatualizado, e quanto a isso já não havia nada a fazer. Era impossível reencaminhar os ficheiros por email. O telefone nem sequer permitia abrir outras aplicações. Por outras palavras, os ficheiros das entrevistas estavam selados numa espécie de “sarcófago digital” impossível de abrir. |
Chegámos a contactar especialistas para tentar resolver o problema. Aparentemente, era possível tentar fazer um backup. Mas não era garantido, e havia um risco enorme: a possibilidade de se perder tudo. |
Quando pensávamos que já não havia solução possível, um dos nossos “MacGyvers” (sim, temos mais do que um) entrou em cena. A Mariana Sousa Aguiar, uma das nossas sonoplastas, lembrou-se de uma ideia engenhosa (aqui vai entrar alguma linguagem técnica, desculpem): pegou num adaptador de linha, que habitualmente é usado nos “Quantum” (os aparelhos que os nossos repórteres usam para entrar em direto na Rádio Observador) e ligou-o à saída dos auscultadores do velhinho iPhone. Depois, teve de usar um conversor para que a entrada da ligação fosse compatível com um gravador. No final, funcionou mesmo: com essa engenhoca era possível ligar os dois aparelhos, reproduzir a entrevista no telefone antigo e registá-la no gravador. Os ficheiros estavam salvos. |
Como esse processo tinha de ser feito em tempo real, e as entrevistas duravam várias horas, nos dias seguintes o Carlos foi avistado várias vezes na redação de auscultadores na cabeça e junto à engenhoca com o iPhone antigo ligado ao gravador. Entre essas conversas estavam os testemunhos de Rosemary Spínola e da fadista Maria Alcina, amigas de Rosalina Ribeiro, que pode ouvir logo no primeiro episódio do podcast. Mas também de Olímpia Feteira, filha do milionário Tomé Feteira, que chegou a disputar a herança com a vítima, e que pode ouvir no segundo episódio. (De recordar ainda que os assinantes standard e premium do Observador já têm acesso antecipado a todos os episódios). |
As entrevistas resgatadas são apenas uma parte de todo o acervo documental que sustenta o novo Podcast Plus do Observador, “As Sombras de Duarte Lima”. Durante os últimos meses, o jornalista Carlos Diogo Santos — que investigou este crime desde o primeiro momento — voltou a mergulhar no caso: centenas de páginas do processo e de notícias da época, fotografias, áudios e vídeos. E até bilhetes com ameaças deixados à vítima pouco tempo antes de morrer. |
Dezassete anos depois do crime, o julgamento de Duarte Lima, acusado do homicídio de Rosalina Ribeiro, está agendado para arrancar no Tribunal de Sintra na próxima semana, no dia 5 de novembro. Quem ouvir o novo Podcast Plus do Observador, narrado pelo ator João Reis e com banda sonora original de Filipe Raposo, vai ficar a saber tudo sobre este caso. |