Ainda não foi desta. Apesar da vantagem conseguida ainda na primeira parte com um golo de Iván Fresneda, o Sporting acabou por consentir o empate nos descontos no clássico frente ao FC Porto e perdeu dois pontos entre toda a polémica gerada nos minutos finais entre um possível penálti sobre Quenda e as duas expulsões de Matheus Reis e Diomande, falhando a segunda vitória consecutiva como não acontece desde novembro. Nem tudo foi mau: substituído ainda antes do intervalo após um choque de joelhos com Eustáquio, João Simões não teve qualquer lesão grave e já regressou aos relvados. Em condições normais, o estado do jovem médio teria uma influência curta ou nula perante aquilo que se podia esperar na primeira mão do playoff da Liga dos Campeões frente ao B. Dortmund. No entanto, e perante todo o contexto que tem assolado a vida verde e branca nas últimas semanas, essa acabou por ser a notícia mais importante da semana.

Sporting perde com B. Dortmund em Alvalade e fica com a Liga dos Campeões presa por um fio

Como se as lesões não “bastassem”, Rui Borges teria também de fazer face à ausência por castigo de Morten Hjulmand, capitão que esteve em todos os últimos encontros sem parar pela preponderância que tem na equipa e que seria mais uma baixa de peso numa equipa que já não podia contar com Pedro Gonçalves, Nuno Santos e Geny Catamo e que continuava com Viktor Gyökeres e Morita a meio gás geridos com pinças. Em todos os encontros o técnico tinha de olhar para o boletim clínico e de castigos, perceber com quantas opções podia contar (e respetivos minutos de utilização) e lançar os jogadores que melhor pudessem interpretar a estratégia de jogo sabendo que na receção ao Arouca não poderia contar com Diomande e Reis.

“A equipa tem estado sempre desfalcada. Temos Pote, Nuno, Morita, Viktor… São jogadores importantes, importantes no Campeonato ganho na época passada. O Hjulmand não foge a isso. Tem sido importante. Tanto Viktor como o Morten são os melhores do Campeonato, não tenho dúvidas. O Morten é uma baixa importante, por tudo o que representa. Acredito que quem jogar quer dar uma demonstração que é capaz de substituir o Morten e ajudar a equipa. O Viktor e o Morita estão convocados. O risco existe sempre. Se se aleijarem, não devia arriscar… O futebol é muito discutível. Dentro do diálogo, tomamos decisões. Se só puder jogar 30 minutos e não souber, o jogador quer jogar 90. São opções nossas. Há Trincão, Quenda, o Morten vai descansar amanhã. Há jogadores quem têm jogado 90 minutos sobre 90 minutos”, comentara.

Num outro contexto, até pelo cruzamento com Lille ou Aston Villa nos oitavos (os adversários menos difíceis entre todos os top 8 da competição), o Sporting poderia não só estar a discutir o bicampeonato e a Taça mas também a Liga dos Campeões. Dúvida: com todas estas limitações, havia uma prioridade? “Não vou estar a dizer que preferia o Campeonato. Nós treinamos o Sporting. É certo que temos menos jogadores disponíveis, com fadiga mas é o que é. Jamais deixaremos de lutar pela vitória e sermos competitivos. Se me perguntarem se quero ganhar, com toda a certeza. Não prefiro nada, só quero ganhar”, destacara.

O momento do B. Dortmund, esse, também não era o melhor. Depois da rescisão com Nuri Sahin, treinador que era visto como um “guru” na sombra mas que falhou na primeira experiência como técnico principal, Mike Tullberg agarrou com sucesso na equipa de forma interina com duas vitórias e um empate mas a estreia de Niko Kovac trouxe de volta todos os fantasmas da irregularidade dos alemães que na última época foram à final da Champions, sendo capazes do melhor e do pior às vezes no próprio jogo. “É uma grande equipa. Há mudança de treinador, ideia de jogo… É uma equipa que tem muitos jogadores da época passada. Vai haver mudança de chip pela mudança de treinador. Estão a agarrar-se a uma ideia nova mas não deixa de ser uma grande equipa. Tem uma frente de ataque muito forte. Temos que ser ambiciosos e corajosos”, frisara Rui Borges, ciente de que a derrota com o Estugarda em casa na última jornada não “definiu” o momento.

Evitando cair na banalidade do chavão das “duas partes distintas”, foi isso que se viu em Alvalade. Até ao intervalo, dentro do equilíbrio, até houve mais Sporting. Depois do intervalo, entre o total desequilíbrio, só houve B. Dortmund. Questão importante: a melhor versão dos leões ou até mesmo uma amostra a 60-70% como aconteceu nos 45 minutos iniciais chegaria para discutir o encontro até ao final. Assim, a eliminatória está praticamente perdida com três golos num jogo onde sobram três certezas: 1) apesar da forma como a derrota chegou, os adeptos não deixaram cair a equipa (e isso, em Alvalade, é sempre um bom barómetro); 2) se o Sporting não ganhar capacidade para jogar durante 90 minutos, terá ainda mais dificuldades até ao final da temporada; 3) a melhor forma de resgatar algo na Liga e na Taça é perceber que Gyökeres, Morita, Trincão ou Quenda têm de parar, descansar e/ou debelar lesões de vez para regressarem a 100% porque caso contrário continuam a arriscar agravar ou criar problemas sem que a equipa ganhe com isso.

Ficha de jogo

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Sporting-B. Dortmund, 0-3

1.ª mão do playoff da Liga dos Campeões

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Espen Eskäs (Noruega)

Sporting: Rui Silva, Iván Fresneda (Eduardo Quaresma, 73′), Diomande, St. Juste, Matheus Reis (Daniel Bragança, 62′); Debast (Biel, 73′), João Simões (Morita, 62′); Geovany Quenda, Maxi Araújo; Francisco Trincão e Conrad Harder (Gyökeres, 59′)

Suplentes não utilizados: Franco Israel, Diego Callai, Gonçalo Inácio, Ricardo Esgaio, Alexandre Brito, Lucas Anjos e Afonso Moreira

Treinador: Rui Borges

B. Dortmund: Kobel; Ryerson, Nico Schlotterbeck, Emre Çan, Svensson (Niklas Süle, 90+3′); Pascal Gross (Özcan, 90+3′), Sabitzer; Adeyemi (Duranville, 86′), Julian Brandt (Carney Chukwuemeka, 86′), Jamie Gittens (Maximilian Beier, 65′) e Guirassy

Suplentes não utilizados: Alexander Meyer, Marcel Lotka, Yan Couto, Waldemar Anton e Giovanni Reyna

Treinador: Niko Kovac

Golos: Guirassy (60′), Pascal Gross (68′) e Adeyemi (82′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Guirassy (66′) e Francisco Trincão (78′)

Com várias mudanças na equipa inicial, juntando-se ainda a condição de suplente de nomes como Gonçalo Inácio ou Daniel Bragança além de Gyökeres e Morita, o Sporting não conseguiu inverter um início nervoso com vários passes falhados de parte a parte mas foi depois deixando alguns sinais interessantes em termos ofensivos entre as combinações à esquerda entre Matheus Reis e o agora ala Maxi Araújo, os passes longos de Zeno Debast e o futebol rendilhado dos artistas Francisco Trincão e Geovany Quenda. Mais: os leões jogavam rápido, mostrando como o potencial futebolístico do conjunto mesmo muito desfalcado multiplica quando as pernas respondem ao que a cabeça pensa. Trincão teve a primeira ameaça a chegar à baliza para defesa fácil de Kobel (15′), Maxi Araújo recebeu a seguir entre linhas, arriscou de fora e acertou na trave (16′).

João Simões também arriscou a meia distância para defesa de Kobel mas aquilo que se via era um encontro com tendência para partir, com o Sporting a encontrar mais espaços para as transições mas o B. Dortmund a ter também outra margem para sair em ataque rápido. Ponto comum? Ambos falhavam no último terço, quase como se aquele terreno fosse lava onde pouco ou nada saía bem. Até mesmo quando as jogadas eram bem construídas havia sempre um corte providencial, como aconteceu num cruzamento de Quenda para a assistência de Matheus Reis ao segundo poste para Harder com interceção de Emre Çan. E se na área não dava, a meia distância continua a ser uma solução, com o mesmo Conrad Harder a sair do seu raio de ação, a arriscar uma autêntica “bomba” de muito longe e a obrigar Kobel a defender para a frente (35′).

Foi preciso esperar quase até ao intervalo para o B. Dortmund ter um remate com algum perigo, com Gittens a testar também o pontapé de fora que saiu perto do poste da baliza de Rui Silva (39′) depois de mais uma boa oportunidade dos leões, num cruzamento atrasado de Harder para o remate fraco de João Simões à figura de Kobel (37′). O descanso chegaria mesmo sem golos quando o jogo dava indicações num sentido contrário, apesar de um remate prensado na defesa verde e branca de Guirassy que ganhou um arco estranho e teve de ser desviado por Rui Silva por cima da trave (45+1′). O Sporting estava bem em termos defensivos, Debast disfarçava a ausência de Hjulmand, faltava o último passe para materializar o ascendente.

O segundo tempo começou sem alterações nas duas equipas mas com diferenças no sentido da partida, com um B. Dortmund mais perigoso e a montar o cerco à baliza de Rui Silva ainda que sem oportunidades de grande perigo a registar. Rui Borges não esperou e, quando Adeyemi teve a grande chance do jogo depois de uma assistência de Guirassy para grande defesa de Rui Silva (52′), Viktor Gyökeres já se preparava para ir a jogo no lugar de Conrad Harder, que teve mais uma exibição esforçada, a dar tudo mas ainda com muito para progredir entre todo o potencial evidente que tem. Problema? O sueco não tinha sequer tocado na bola e o B. Dortmund já estava na frente, com Brandt a cruzar largo na direita para a zona entre central e lateral e o inevitável Guirassy a desviar de cabeça por cima de Rui Silva para o golo inaugural (60′).

Rui Borges reagiu de seguida, com as entradas de Daniel Bragança e Morita para os lugares de Matheus Reis e João Simões. Geovany Quenda passou para a esquerda, Francisco Trincão deambulou para a direita, os dois médios alternavam para combinar em jogo frontal com Gyökeres. Sobravam problemas: espaços que iam ficando por preencher, incapacidade de jogar na profundidade, desconfiança face ao que se passara na primeira parte adensada com o 2-0, num lance em que Guirassy caiu sobre a direita, teve espaço para cruzar e Pascal Gross encostou com a coxa ao segundo poste (68′). A partir daí, já com o estreante Biel ao barulho, o Sporting quis mas nunca conseguiu, ao passo que o B. Dortmund deixou de querer tanto – e quando quis, numa transição rápida, Adeyemi apareceu no local certo na área para fazer de forma fácil o 3-0 (82′).