Os últimos três anos foram os mais quentes desde que é feito este registo. Em média, a temperatura global entre 2023 e 2025 ultrapassou por 1,5 ºC o patamar pré-industrial, sendo a primeira vez que estes níveis são registados consistentemente num triénio. Destes anos, 2025 foi “o mais frio”, apenas 0,01 ºC abaixo dos valores médios medidos em 2023, e a 0,13 ºC de 2024, o ano mais quente de sempre. Apesar de quebrar a tendência de sucessivas temperaturas médias recorde, especialistas mantêm que estes valores, mesmo sendo expectáveis, continuam a ser alarmantes.
“Ultrapassar uma média de três anos de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais é um marco que nenhum de nós desejava atingir”, confessa Mauro Facchini, Chefe da Observação da Terra na Direção-Geral da Indústria da Defesa e Espaço da Comissão Europeia, no mais recente relatório do Copernicus, publicado esta quarta-feira. O responsável por este programa europeu, Carlo Buontempo, reforçou o tom alarmante pela “rápida aproximação do limite definido pelos Acordos de Paris”. “A escolha que temos agora é como gerir da melhor forma o inevitável e as suas consequências nas sociedades e nos sistemas naturais”, acrescentou.
A temperatura do ar sobre superfícies terrestres foi a segunda mais quente de sempre, ficando apenas atrás de 2024. Contudo, notam a maior temperatura média anual alguma vez registada na Antártida (1,05ºC), bem como a segunda mais alta no Ártico (1,37ºC). Estas observações obtidas pelo serviço de monitorização das alterações climáticas da União Europeia, de acordo com o climatologista Carlos da Câmara, são “as leis da Física a funcionar”.
“No fundo, vivemos num laboratório, e o que o Homem está a fazer é alterar a composição da atmosfera. E, com esta experiência, está a alterar o equilíbrio radiativo — a Terra passa a reter mais radiação infravermelha — e, para que se restabeleça este equilíbrio perdido, há alterações brutais ao nível da circulação geral, quer da atmosfera, quer dos oceanos”, explica ao Observador o investigador do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. “O que é interessante é que as observações neste laboratório, com estas modificações, estão a seguir certinhas com aquilo que devem seguir. Para o bem e para o mal”, acrescenta.
▲ Variação da temperatura média global. A temperatura média de 2025 foi ligeiramente mais baixa que a de 2023. 2024 continua o ano mais quente de sempre
Copernicus
Segundo o climatologista, esta média inédita de três anos chega “essencialmente por causa de 2024”, que teve um “pico muito acima do patamar do 1,5 ºC”. Diz, também, que o mesmo fenómeno que fez as temperaturas globais disparar nesse ano, influenciou a sua descida em 2025. Para Carlos da Câmara, em 2024 houve uma “aliança entre a parte estrutural e conjuntural” do clima. Ou seja, para além do sucessivo crescimento das emissões de gases com efeito estufa (parte estrutural), 2024 foi um ano de El Niño (parte conjuntural), uma “interação específica entre os oceanos e a atmosfera”, que resulta no aquecimento da temperatura média dos oceanos e em secas em várias regiões do globo.
Em 2025, o El Niño esteve mais adormecido, o que explica o ligeiro decréscimo face aos últimos dois anos. Mas, como alerta o especialista consultado pelo Observador, “a coisa é um bocadinho mais complicada”, uma vez que as alterações climáticas estão a “influenciar esta variabilidade, tornando-a cada vez mais exacerbada”. “Não é preto e branco, há muito cinzento”, afirma.
A média global em 2025 foi de 14,97 ºC, pouco mais de meio grau acima da média entre 1991 a 2020, mas uma décima abaixo do ano anterior. Na Europa, 2025 foi o terceiro ano mais quente de sempre — seguindo a média global — com uma média de 10,41 ºC.
O aumento de eventos extremos e os recordes de temperaturas nos polos
Acima da variação da temperatura média global, Carlos da Câmara diz que o foco deve estar sobre “os fenómenos extremos que acontecem raramente”, apesar de os dois fatores estarem relacionados. “Se a temperatura média global aumentar uma décima de grau, o problema não é essa décima, são as situações extremas que vêm com ela”, explica o climatologista, com uma analogia.
▲ Variação de eventos climatéricos extremos nos últimos três anos. Calor extremo e anómalo é registado com o vermelho mais intenso
Copernicus
“Se a porta de uma sala tem 1,90m de altura e uma vez por ano há alguém que bate com a cabeça por ser demasiado alto, ao alterar a altura para 1,88m, se calhar em vez de termos uma pessoa a bater com cabeça por ano, passamos a ter duas ou três”, exemplifica, referindo que, da mesma forma, um evento meteorológico extremo que aconteça uma vez a cada 20 anos, com uma ligeira alteração da temperatura média global, pode significar que este se irá repetir duas ou três vezes no mesmo período de tempo.
“Aquilo que preocupa o climatologista não é a média global, mas o impacto que esta tem ao nível de extremos”, acrescenta. E neste relatório, o serviço de monitorização das alterações climáticas do Copernicus nota que, ao longo dos últimos três anos, as situações extremas “aumentaram drasticamente”. No documento partilhado pelo organismo da União Europeia, são destacados os grandes incêndios em Espanha, no Canadá e na Califórnia, tal como recordes de ondas de calor e tempestades graves na Europa, na Ásia e na América do Norte.
Mas os aumentos da temperatura não foram iguais em todos os pontos do globo. “É algo que a média esconde, que é o facto de ter havido locais em que o aumento não foi só de 0,1 ou 0,2, mas sim muito superior”, continua o especialista do Instituto Dom Luiz. Neste caso, Carlos da Câmara menciona a Europa e as regiões polares como as principais afetadas, devido a ciclos de feedback que amplificam ou reduzem os efeitos das emissões de gases de efeito estufa.
▲ No verão de 2025, arderam mais de 300 mil hectares em Espanha
Anadolu via Getty Images
“A Europa, o Norte do Canadá, a Sibéria são exemplos de zonas que têm grandes áreas geladas. Estas zonas são brancas, têm uma larga superfície que reflete brutalmente a radiação solar incidente”, começa por explicar o climatologista. “Com o aumento das temperaturas, a neve começa a derreter a um ritmo mais acelerado e a aquela camada branca que cobria o território transforma-se num solo mais escuro”, acrescenta. É o que se tem vindo a verificar no topo das montanhas e nos glaciares e, quanto mais escura estiver esta superfície, mais é absorvida a energia solar, traduzindo-se num maior aquecimento.
“Se está mais quente, vai derreter mais neve. Se derrete mais neve, mais zonas escuras vão aparecer. Se zonas mais escuras estão a aparecer, mais aquece, e estamos aqui neste ciclo vicioso”, afirma Carlos da Câmara, remetendo para os dados presentes no relatório do Copernicus. “A cobertura de neve e de gelo no Ártico está a diminuir drasticamente, o mesmo acontece na Antártida e vemos que na Europa está a aumentar mais do que nos outros sítios”.
2025 não bate recordes em termos absolutos de anomalias, mas foi neste ano que se registaram as temperaturas anuais mais altas de sempre na Antártida — e no Ártico as segundas mais altas. Através dos dados publicados pelo organismo europeu, nota-se que esta tem sentido uma tendência crescente nos polos, mas que na região dos trópicos houve um decréscimo significativo face aos valores registados em 2024.
Mesmo com o El Niño adormecido, terá a Terra atingido o “ponto de não retorno”? Existe forma de prever como será 2026?
2023 bateu o recorde de ano mais quente de sempre, mas 2024 foi rápido a destroná-lo. 2025 acaba por quebrar um pouco o registo, mas continua a ser “excecionalmente quente” comparativamente aos anos que precederam este período. No relatório divulgado esta madrugada, o Copernicus diz que existem principalmente duas razões que explicam estas observações.
A acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera é o primeiro fator mencionado, “devido às emissões contínuas e à redução da absorção de dióxido de carbono pelos sumidouros naturais”, como os oceanos e as florestas. Em segundo lugar, referem que “as temperaturas da superfície do mar atingiram níveis excecionalmente altos em todo o oceano, associados a um evento El Niño e outros fatores de variabilidade oceânica, amplificados pelas alterações climáticas”.
▲ Variação da temperatura média anual das regiões polares do planeta. Em 2025, a região da Antártida atingiu uma temperatura média recorde
Copernicus
O que explica a diferença entre os dois últimos anos é precisamente este fenómeno meteorológico que acaba por desregular a temperatura das superfícies oceânicas. Como é mencionado no documento, a principal diferença sublinhada é a temperatura média nos trópicos. Apesar de continuar acima da média, 2025 viu um decréscimo das temperaturas nestas regiões, quando 2023 e 2024 mostraram picos inéditos. Porquê? O Copernicus diz que o Pacífico equatorial experienciou “fracas condições” de La Niña ao longo do último ano, mas que apesar da sua intensidade se fizeram sentir.
Estas interações acabam por contrabalançar os efeitos de El Niño e de aquecimento dos oceanos, o que se traduziu numa redução das temperaturas no Atlântico e no Índico em 2025, comparativamente àquilo que foi registado nos dois anos anteriores. “O El Niño tende a ter um efeito de aquecimento nas temperaturas globais, sobreposto ao aquecimento global causado pelo homem a longo prazo, enquanto a La Niña tende a ter o efeito oposto”, explicam no relatório.
Visto que na primeira metade da década o planeta já enfrentou dois anos de El Niño, é possível que haja um regresso nos restantes cinco anos. “O fenómeno tem uma certa predictabilidade”, refere o climatologista Carlos da Câmara, mas a verdade é que continua a ser algo muito incerto. “O ano passado havia a possibilidade de haver uma La Niña [mais expressiva] que acabou por não haver, pelo que esta predictabilidade a longo prazo acaba por ter uma fiabilidade relativa”, continua.
Para o especialista, no entanto, o problema transcende o que pode ser esperado. “O que temos, em pano de fundo, é um forçamento da atmosfera que faz com que se aumente a temperatura mesmo sem El Niño. E às vezes, quando vem uma La Niña, estes efeitos são contrariados. Mas acaba por ser o equivalente a termos uma estrada com o pavimento horrível e pensar: ‘Espero que o tempo esteja bom para não haver acidentes’”, exemplifica.
Carlos da Câmara esclarece que o fenómeno El Niño é oscilatório, “vai e vem”, mas independentemente de regressar no próximo ano ou daqui a dois, o “pano de fundo” está “sempre a piorar”. O climatologista português reforça que no relatório é repetidamente mencionada a urgente necessidade de agir para “mitigar os efeitos” destes efeitos meteorológicos. “Já não se fala em controlar”, aponta. “Temos de tomar medidas que façam com que as situações climáticas de extremos tenham impactos mais controlados na economia, na população e no ambiente. [Os investigadores do Copernicus] Estão a lidar com isto como se já estivéssemos num ponto de não retorno”, acrescenta o investigador, indicando que ainda não estão na fase de “atirar a toalha ao chão”, mas que o cenário atual está “complicado”.