25 anos sem Natália Correia, a mulher da língua de fogo

17 Março 20182.370

Um quarto de século da morte da escritora, editora e deputada que animou tertúlias famosas no mítico Botequim. Lembramo-la com a ajuda de biógrafas, estudiosas da sua obra e quem a conheceu de perto.

“As causas, as pessoas do coração e do sonho, e da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação”. Assim lembra Fernando Dacosta Natália Correia, em O Botequim da Liberdade, livro cujo título recupera a afamada tertúlia do bar do Largo da Graça. Continua a sua evocação em termos extremos – porque era extremada a figura que pretendeu retratar: “Sabia indignar-se com grandeza – e indignar os outros à sua altura. Era uma mulher inigualável. Nos caprichos, nos excessos, nas iras, nas premonições, nos exibicionismos, na sedução, na coragem, na esperança. Cantava, dançava, declamava, improvisava, discursava, polemizava como poucos entre nós alguma vez o fizeram”.

Há 25 anos, a 16 de Março de 1993, morreu, com 69 anos, uma figura maior da vida intelectual portuguesa, com obra vasta e diversificada, e uma personalidade excessiva, ora generosa ora colérica, em terra associada ao comedimento e à brandura no espírito, na pose e no gesto. Usar a expressão “saiu de cena” não é descabido – porque Natália era uma performer, alguém que representava o que deveras era. E que assim se apresentava no bilhete de indentidade, referindo-se ao arquipélago onde nascera e que em si permanecera:

“Sou da ilha das línguas de fogo. Com elas aprendi a metrificar o espírito. O indizível”.

Ângela Almeida, escritora e investigadora, doutorada em Literatura Portuguesa com uma tese sobre a simbólica da ilha e do Pentecostalismo em Natália Correia, caracteriza assim a relação que esta mantinha com as ilhas açorianas: “Conforme a própria autora escreveu em documento inédito, tinha uma relação ‘visceral’ com os Açores, muito especialmente com a ilha-mãe”. Lembre-se que a autora de “Mátria” e “A Ilha de Circe” viveu na ilha de São Miguel até aos 11 anos, indo depois viver para Lisboa na companhia da mãe e da irmã. Esses anos muito a terão marcado. Diz Ângela Almeida, que, além de ter feito a pesquisa na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada dos inéditos, escreveu a introdução e as notas dos recém-reeditados livros Descobri que Era Europeia – Relato de Viagem aos EUA em 1950, e Entre a Raiz e a Utopia (Ponto de Fuga): “Como viveu na ilha natal um templo de pleno amor, paz e liberdade, tendo cedo conhecido o culto do Espírito Santo, visionava nas ilhas aquilo a que chamava ‘o último reduto da portugalidade’”.

Mulher de paixões, valorizava muito a amizade. Um dos seus amigos fundamentais foi David Mourão-Ferreira, que dizia que ela era a irmã que nunca havia tido. Admirava-lhe a coragem e foi sua testemunha quando Natália encontrou problemas com a Justiça.

Ana Paula Costa, autora da Fotobiografia de Natália Correia (Dom Quixote, 2006), abre as páginas da Poesia Completa e lê um sublinhado que fez quando preparava o trabalho:

“Basta cerrar os olhos e fixá-los na constelação das turmalinas mais rápidas do sangue para saber que a ilha é a mãe que se fecha na sua insânia de morta a percorrer impudicamente as nossas artérias.”

O excerto é retirado de A Mosca Iluminada, de 1972.

O abandono da ilha. A viagem aos Estados Unidos (1950). O casamento com Alfredo Machado (“o amor da sua vida”, para muitos). A amizade com António Sérgio, Almada Negreiros e Vitorino Nemésio. A criação do Botequim e todas as tertúlias que lá se fizeram. A amizade com Sá Carneiro que também incluía a admiração pela circunstância de ter assumido perante a sociedade a sua relação com Snu Abecassis.

Estes são alguns dos momentos da biografia da autora de A Madona destacados por Ana Paula Costa. Ângela Almeida acrescenta outros: todo o tempo vivido num ideal cooperativista, ao lado de figuras como António Sérgio e Urbano Tavares Rodrigues, lutando sem medo contra a ditadura, não obstante os livros apreendidos, e a condenação em tribunal pela publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. A  esperança que viveu com a chegada da Revolução do 25 de Abril e o desencanto posterior, quer pelo domínio comunista que se seguiu, quer por nunca ter sentido que os ideais tivessem sido realmente alcançados. “Ainda a sua acção interventiva, desde tenra idade, a favor do integral cumprimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e da Paz, enquanto direito universal, que só poderia ser trazido pelo Amor”.

A sua afamada passagem pela Assembleia da República, na qualidade de deputada, e as intervenções que a tornaram conhecidas – como do poema do “Morgado” – não são, no entender de Ana Paula Costa, o que de mais importante se terá passado na sua vida. Lembra o que escreveu sobre o assunto:

“Não tenho qualquer espécie de carreira. Fui deputada porque me pediram para introduzir o discurso cultural no Parlamento, o que fiz nunca abdicando de me dedicar à minha obra literária que se desdobra em vários géneros”.

Mulher de paixões, valorizava muito a amizade. Um dos seus amigos fundamentais foi David Mourão-Ferreira, que dizia que ela era a irmã que nunca havia tido. David Ferreira, filho do autor de “As Lições do Fogo”, recorda essa irmandade. Conheceu-os como irmãos de temperamentos muito diferentes, irmãos pela camaradagem e pela convergência em matérias muito importantes: contra o Estado Novo e contra qualquer condicionamento estético e ideológico (“contra o pior neo-realismo, por isso”), contra o puritanismo e a moral burguesa, novos e abertos ao novo mas sem paciência para o modernaço, poetas, estudiosos e divulgadores da poesia de outros séculos, atraídos pela música e sem preconceitos contra o fado. E europeus convictos.

As reedições da Ponto de Fuga

David Mourão-Ferreira admirava-lhe a coragem e foi sua testemunha quando Natália encontrou problemas com a Justiça. “Depois da Revolução”, conta David Ferreira, “tiveram trajectórias parecidas: próximos do PS a certa altura, afastando-se depois (a Natália aproximando-se do Sá Carneiro, o meu pai do Eanes), reaproximando-se do Mário Soares no fim”. Foi a suspensão pelo Conselho de Redacção d’’A Capital’ de um artigo de Natália Correia que levou David Mourão-Ferreira a demitir-se, em 1975, do cargo de director do jornal.

David Ferreira, que após o trabalho na edição discográfica durante quase 40 anos se dedica hoje à realização de vários programas na Antena 1, lembra, a propósito, um serão histórico que juntou Vinicius de Moraes e Amália Rodrigues, nascido num jantar de Vinicius em casa de David Mourão-Ferreira, ao qual Amália não pôde comparecer por estar constipada, acabando por lhe pedir para se dirigirem à sua casa. “Eram muitos em casa do meu pai nessa noite. Uns tinham vindo ao jantar, outros vieram depois para estar com o Vinicius. E como nessa altura moravam perto acabou tudo em casa da Amália”.

Só faltou o material de gravação adequado para registar o encontro. Mas o seu tio Rui Valentim de Carvalho também apareceu e combinaram logo repetir o serão, agora preparados para gravar um disco. “A Natália, claro, era um dos amigos que desceram da Estrela para a Rua de São Bento”. Na sequência disso, veio a gravar vários discos, entre 1968 e 1974 (uns para a Valentim de Carvalho e outros para a Sassetti) de poesia sua e de poesia medieval (um deles com a própria Amália).

O juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça e ex-ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio, autor dos romances O Chamador e O Homem que Escrevia Azulejos (ambos editados pela Quetzal), define com estas palavras a sua relevância: “Da poesia, do teatro, do romance, mas também da política, da intervenção cívica, fez lugares para si, púlpitos para o discurso da transcendência que apontava como desígnio das gentes. Desprezando o banal, renegando o vulgar, a sua luta travava-se no palco das ontologias, ali, onde a verdade não conhece concessões”.

Laborinho Lúcio foi um dos frequentadores do Botequim, aonde afluíam, entre outros, políticos, intelectuais e artistas. Refere que “era má a notícia, dada à entrada pelo barman, de que ‘a senhora dona Natália hoje não vem’”. Sem Natália, o Botequim era apenas um bar. Aí, afirma, “ao contrário do julgamento de muitos, todos eram figurantes. Vedeta, era só ela”. Discutia-se política, políticas e políticos, acontecimentos mundanos, paixões reveladas, segredos espreitados, revelações literárias, temas que haveriam de ser assunto de todos, conspirava-se. “Natália tinha, porém, a palavra final retirada do desassombro com que pensava e dizia o que pensava”. A poesia chegava mais tarde e ficava reservada para os resistentes, para os que ficavam para a ouvir. E, recorda Álvaro, Natália cantava. “Era então que voltavam as Ilhas, e o canto popular açoriano enchia a voz sonora, de um timbre perfeito, envolvendo todos na emoção de uma interpretação culta e sentida”.

Laborinho Lúcio foi um dos frequentadores do Botequim, aonde afluíam, entre outros, políticos, intelectuais e artistas. Refere que “era má a notícia, dada à entrada pelo barman, de que ‘a senhora dona Natália hoje não vem’”. Sem Natália, o Botequim era apenas um bar.

O ex-ministro da República para os Açores (2003-2006) salienta um ponto essencial na sua tempera: “Natália escolhia. Tomava partido. Distinguia e agia de acordo com as escolhas que fazia”. Não gostava de Juízes, diz. “Bramava contra o Plenário. Ficara-lhe a revolta desde os tempos da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, do julgamento, da condenação. E não deixava que a memória se apagasse no registo do processo que lhe haviam movido pela edição de Novas Cartas Portuguesas”.

Até que um dia, depois de aturada resistência, que teve o Botequim como palco, aceitou participar num debate sobre ética e estética, no âmbito da formação de magistrados, a decorrer na respectiva escola, na vizinhança do bar. E tudo mudou. Segundo relatos de amigos, a partir daí passou a dividir os juízes em dois grupos, os “Plenários” e os “Outros”. “E destes, dos ‘Outros’, vários passaram a acorrer também ao Botequim onde, no entanto, nunca se sentiram dispensados de fazer prova de que o eram realmente”.

Depois de uma vida de múltiplas actividades, da escrita (do teatro à poesia, passando pelo romance e pelo ensaio) à edição, do jornalismo à política, e após muito pensar o país, a Europa e o mundo com fervor utópico e uma perspectiva apaixonada, progressista e exigente, ficou com um sentimento dividido em relação a Portugal. Ângela Almeida usa a seguinte formulação para o caracterizar: um sentimento “de encanto pelas raízes da nossa Portugalidade, onde se aloja a nossa interioridade” e aquilo que classifica como “um profundo e crescente desencanto pelo desaire neo-liberal europeu, a que naturalmente Portugal não escapou”. Era, diz, “verdadeiramente pessoana, apesar de tudo, aguardava a Hora”.

Que legado deixa a autora de Sonetos Românticos e de O Dilúvio e a Pomba? Para Ângela Almeida, o seu legado literário funde-se com o seu ideal ético. “Longe dos poetas das torres de marfim, escreveu que a literatura serve a vida e, por isso,  defendia a síntese agregadora de todas as antinomias e de todas as antíteses existenciais, que dariam lugar ao Absoluto heterodoxal, através da fusão dos  contrários, viabilizada pelo Amor incondicional, a que chamou Espírito”. Essa era, acrescenta, a morada da libertação da alma universal: longe de qualquer espécie de ortodoxia, o ser humano teria que divinizar-se pelo fogo (agregador) de Pentecostes. “Foi esse ideal de libertação humana, através dessa fusão dos contrários, que a fez estudar e amar o Trovadorismo (onde a mulher é dignificada), o Romantismo e o Surrealismo. A sua corrente literária era a sua voz pessoal”. A estudiosa realça um aspecto pouco conhecido: “Há uma profunda unidade temática entre a obra édita e a obra inédita de Natália Correia. Como se a inédita provasse o pensamento de Natália ou vice-versa”. A mesma realização do Amor Total, “muito importante para o mundo de hoje, onde as diferenças ainda não são respeitadas, antes alvo de balas de variada ordem. Veja-se o que aconteceu recentemente no Brasil, que é de gelarmos”.

Recententemente, Ana Paula Costa conheceu uma jovem professora de Português e História que não sabe quem é Natália Correia. E teme que não seja a única. É por isso que deseja que a autora que morreu há 25 anos seja descoberta pelas novíssimas gerações e mais conhecida e respeitada pelas entidades responsáveis pelo impulso de uma divulgação que, acha, ainda não começou. Considera A Madona” um romance admirável, muito pouco lido e estudado. E classifica a sua poesia, pautada por um ecletismo de forma e conteúdo, como um tesouro nacional. “O ensaio que escreveu reflecte momentos e circunstâncias do pensamento português no século XX e terá que ser, mais cedo ou mais tarde, objecto de estudo por parte dos académicos ou de jovens autores que tenham a preocupação de conhecer a herança que lhes coube”.

Ao falar do seu legado ético, nomeia a palavra “verdade”, mesmo que ultrapasse os contornos do razoável ou do politicamente correcto. “A verdade poética que, para ela e segundo ela, não é corrompível”. A professora e escritora pensa muitas vezes no que poderia dizer e escrever sobre algumas questões com que nos debatemos hoje.

A citação é recuperada por Álvaro Laborinho Lúcio. Disse Natália Correia, na linha do pensamento de Pascal, que a verdadeira moral se atinge apenas quando ela se ri da própria moral. Eis uma proclamação, remata, que bem pode ouvir-se ainda hoje, recordando-a, de pé, braço direito ao alto, voz no peito, projectada, junto ao balcão, ali, onde ela e o seu Botequim se confundiam, e agora se confundem para sempre, num só ser.

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