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É uma "loucura", mas o Snapchat vai mesmo para a bolsa. E vale 20 mil milhões

Os "millennials" puseram a rede social de Evan Spiegel no radar dos investidores. Com 158 milhões de utilizadores, vai o IPO do Snapchat aguentar-se à concorrência feroz do Facebook?

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São 200 milhões de ações para serem compradas entre 14 e 16 dólares cada, o que deverá avaliar a empresa entre 19,4 mil e 22,2 mil milhões de dólares (18,3 mil e 21 mil milhões de euros). “É uma loucura“, diz a Bloomberg. “O maior IPO [entrada de uma empresa em bolsa] tecnológico desde o da Alibaba” em 2014, escreve a The Economist. A operação que vai obrigar “o ecossistema de startups a dar uma reviravolta“, sublinha a CNBC. O investimento que anda à procura do “dumb money” (do “dinheiro tolo”), acrescenta a Modern Trader. A rede social Snapchat está prestes a ir para a bolsa.

Tolo ou não, Evan Spiegel conseguiu, aos 26 anos, pôr o Snapchat – a rede social que em vez de eternizar momentos, fá-los desaparecer – a ecoar na imprensa da especialidade e no mercado tecnológico como a app que fez com que Mark Zuckerberg quisesse “desesperadamente” comprá-la, imitá-la ou… matá-la. O líder do Facebook ofereceu 3 mil milhões de dólares (2,8 mil milhões de euros) pelo Snapchat em 2013, depois de ter viajado de propósito para se encontrar com o líder da empresa, em Los Angeles. Spiegel recusou. “Foi um ato corajoso”, escreveu-se na altura. Ele tinha 23 anos. O Facebook já dominava a Internet.

Evan Spiegel tem 26 anos e lançou o Snapchat com Bobby Murphy e Reggie Brown em 2011. É o líder da empresa

Quatro anos depois, a entrada em bolsa do Snap – casa mãe da rede social Snapchat – era uma das mais esperadas para 2017 e tudo aponta para que, a 2 de março, quem quiser investir na app de eleição dos adolescentes já possa fazê-lo. Para que tudo corra bem e não se repitam os problemas que houve em 2012 com o IPO do Facebook – e que levaram o índice tecnológico NASDAQ a ter de pagar 10 milhões de dólares à Comissão de Valores Mobiliários norte-americana -, a operadora bolsista New York Stock Exchange (NYSE) avançou com uma simulação do que será o IPO de quarta-feira, conta a Reuters.

“É um grande negócio e eles querem ter claramente a certeza de que vai correr tudo bem – ninguém pode censurá-los por isso”, disse Ken Polcari, diretor de uma das divisões de NYSE. E a avaliar pelo apetite dos investidores, o NYSE tem motivos para preocupação. A 24 de fevereiro, a Business Insider contava que a procura pelo “sexy IPO” das ações da rede fundada por Evan Spiegel, Bobby Murphy e Reggie Brown, em 2011, já era superior a 10 mil milhões de dólares (9,4 mil milhões de euros) – o Snap procura angariar cerca de 3,2 mil milhões de dólares (3 mil milhões de euros) com a entrada em bolsa. Ou seja, a procura pelas ações já era, na altura, três vezes maior do que a oferta.

"Comprar ações do IPO do Snapchat é um ato de loucura. É de doidos comprar ações de uma empresa que só gera receitas há dois"
Shira Ovide e Rani Molla, na Bloomberg

As estimativas apontam para que o preço final dos títulos seja fixado a 1 de março, depois do fecho do mercado norte-americano. E não falta quem diga que todo este hype à volta de uma rede social que usa expressões como “sexting [troca de mensagens com teor sexual], festas e selfies” para atrair investidores seja, na verdade, “um ato de loucura”.

“Vamos dizer isto, antes de mais: comprar ações do IPO do Snapchat na próxima semana é um ato de loucura. É de doidos comprar ações de uma empresa que só gera receitas há dois anos. E uma empresa que, em 2016, por cada dólar de receitas que conseguiu teve de gastar 1,27 dólares. É uma empresa que tem uma avaliação mais elevada do que qualquer outra empresa tecnológica e cujo poder de decisão está centralizado nos dois fundadores que têm 20 e poucos anos”, escreveram as especialistas em tecnologia e mercados Shira Ovide e Rani Molla, na Bloomberg.

“Em resumo, é naturalmente arriscado investir em novas empresas que entram na bolsa. E investir num IPO tecnológico é duplamente arriscado. Já investir numa empresa que tem uma história tão curta como a do Snapchat, então, é triplamente arriscado”, acrescentaram. A história curta não impediu Evan Spiegel de se tornar no décimo empresário com menos de 40 anos mais rico dos EUA, segundo a Forbes, com uma fortuna pessoal avaliada em 4 mil milhões de dólares (3,7 mil milhões de euros), aos 26 anos.

Membro do tão conhecido grupo de college dropouts – aqueles que nunca chegaram a acabar os estudos superiores para lançarem empresas, como Mark Zuckerberg ou Steve Jobs -, o percurso de Spiegel tem sido controverso desde o início, com um dos amigos com quem lançou a app, Reginald Brown, a processá-lo depois ter sido dispensado da equipa. Em setembro de 2014, chegaram a um acordo, mas os pormenores não foram revelados. O Snapchat continuou nas mãos de Spiegel e de Bobby Murphy.

No Snap, o futuro só a Spiegel e a Murphy pertence

No centro do maior ato de loucura está o facto de o Snapchat ser a primeira empresa norte-americana a não conceder direitos de voto a quem comprar ações. As tomadas de decisão ficam nas mãos dos dois cofundadores: Evan Spiegel e Bobby Murphy que, juntos, detêm controlo sobre 88,5% do poder de voto da empresa. Se um deles morrer, o poder de decisão fica na mão do outro. E se forem despedidos pelo conselho de administração, continuam a deter o controlo da empresa. Motivo? “Porque não há Snapchat sem Spiegel e Murphy”, diz o Business Insider. “São indispensáveis à empresa.”

Evan Spiegel e Bobby Murphy conheceram-se na Universidade de Stanford, onde estudaram e lançaram o Snapchat

Os potenciais investidores reagiram “em fúria”. Vários gestores dos maiores fundos dos EUA mandaram uma carta de objeção ao Snap pela imposição da medida que consta na apresentação do IPO e houve um líder da indústria que disse que a decisão ia abrir um precedente no mercado a nível mundial, segundo o Financial Times. É por esse motivo que Garrett Baldwin, jornalista do Modern Trader, diz que investir no Snap não é investir numa empresa. “É um investimento nos seus cofundadores e numa estratégia de longo prazo que permanece pouco clara.” Assim, o futuro da rede social que fez inveja ao Facebook só a Spiegel e a Murphy pertence.

“De acordo com o Conselho de Investidores Institucionais, as empresas que têm um acionista no controlo tendem a apresentar um desempenho inferior ao das empresas que não têm [esse mesmo controlo]. Essas empresas também têm maior probabilidade de transacionar com partes interessadas e de criar mais situações de conflitos de interesse”, escreveu a especialista em ética Ann Skeet no MarketWatch, num artigo de opinião intitulado “Três razões pelas quais deve escapar ao IPO do Snap”. Mark Zuckerberg também tinha ações especiais no Facebook, que lhe davam a maioria do controlo de voto, mas em junho de 2016 essas regras foram revistas.

Esta não é a única razão que tem feito soar os alarmes quando o assunto é a entrada em bolsa da rede social que foi criada pelos dois ex-alunos da Universidade de Stanford, nos EUA. Para Ann Skeet, vai ser “extremamente difícil” obter liquidez num investimento deste tipo. Ou seja, não se espera que no dia-a-dia, na bolsa, haja muitas transações de ações da empresa dona da rede social, o que é um fator importante para quem gosta de poder entrar e sair, com facilidade, de um investimento.

O Facebook, fundado e liderado por Mark Zuckerberg, é o grande concorrente do Snapchat

As histórias que já acompanham a vida do icónico líder da app aumentam a desconfiança da diretora de Ética do Markkula Center for Applied Ethics, na Universidade de Santa Clara. Em causa estão os emails tornados públicos em maio de 2014 – e que foram enviados por Spiegel em 2009 e 2010 -, que revelaram detalhes sobre os hábitos de vida do presidente do Snapchat – consumo de drogas ilegais, bebidas alcoólicas e comportamentos misóginos, como urinar em cima de uma mulher depois de terem relações sexuais ou assediar mulheres que considerava estarem com peso a mais.

Evan Spiegel desculpou-se mais tarde, afirmando que estava “obviamente mortificado e envergonhado com os emails idiotas” que tinham vindo a público e explicando que “não tinha desculpa” para tal comportamento. As desculpas não convenceram os críticos, que chegaram a dizer que aquele que era um dos multimilionários mais jovens do mundo e era também, na verdade, “um palerma“. “Fui um idiota por ter escrito aquilo”, disse. Ann Skeet desconfia: “Esta é a pessoa que vai ter um controlo considerável e pouco habitual sobre o Snap depois do IPO”.

“O Evan Spiegel revolucionou as redes sociais”

Em março de 2016, Bill Burnett, diretor do curso de Design da Universidade de Stanford e um dos designers por detrás dos PowerBook da Apple, deu uma entrevista ao Observador. Quando questionado sobre que produtos sinónimo de bom design escolheria para expor numa galeria sua, apontou três. E explicou o segundo assim:

“Tive um aluno que um dia entrou no meu gabinete e me disse que estava a desenvolver uma nova aplicação. (Isto foi na altura em que o Instagram e outras apps do género estavam a começar a ser muito populares.) Ele disse-me que as pessoas andavam todas a tentar perceber como tornar as imagens melhores, mais permanentes, com filtros, etc. Mas questionava-se sobre o que aconteceria se conseguíssemos que as imagens desaparecessem. Perguntei-lhe porque é que alguém haveria de querer que as suas imagens desaparecessem. Respondeu que achava que havia potencial naquela ideia: o que acontece quando a imagem se torna efémera e pode ser trocada? Eu achei a ideia muito disparatada, mas disse-lhe para tentar.

O nome desse meu aluno é Evan Spiegel e é o fundador e presidente do Snapchat. Para mim, o Snapchat é o exemplo de alguém que viu algo onde ainda ninguém tinha visto. Ele percebeu que o facto de tornar as coisas temporárias estimularia as conversas entre as pessoas. Os miúdos do liceu não utilizam o Facebook, utilizam o Snapchat. É esta a rede social deles. O Evan Spiegel revolucionou as redes sociais.”

Bill Burnett: “Estamos cada vez mais impacientes com o mau design”

Na era das redes sociais, para Spiegel o que estava a dar não era aparecer, mas desaparecer. E foi assim que os Snaps – que duram apenas 24 horas – se tornaram na maior ameaça viva do reino de Zuckerberg. O Facebook conta com cerca de 1,8 mil milhões de utilizadores mensais ativos e detém, igualmente, a rede social de partilha de imagens Instagram e a app de troca de mensagens Whatsapp. Em 2013, quando Zuckerberg quis comprar o Snapchat por um valor que foi considerado “absurdo” (de tão elevado que era na altura), os fundadores recusaram. “Foi a decisão mais criticada” da comunidade tecnológica desse ano, explica a Forbes. Segundo as contas de alguns investidores, os fundadores conseguiriam encaixar cerca de 750 milhões de dólares (708 milhões de euros) cada um, com a operação.

Como resposta, o Facebook tem vindo a imitar as funcionalidades do Snapchat em tudo o que pode: da funcionalidade “Stories” do Instagram à recente “Status“, do WhatsApp. Amy Cole, que é responsável pelo desenvolvimento da marca Instagram, explicou ao Observador, em janeiro, que o facto de a app de partilha de imagens (que foi adquirida pelo Facebook em 2013 por mil milhões de dólares) ter lançado uma ferramenta muito parecida com a da rival Snapchat era algo sobre o qual o Instagram “tem sido muito aberto”. “Acho que as Stories são um formato que ainda aparece muito ligado ao Snapchat e a outros concorrentes, mas é um formato que começa a tornar-se cada vez mais relevante em várias plataformas”, acrescentou.

Amy Cole. “As pessoas estão a mudar a forma como se comportam no Instagram”

A guerra parece estar declarada. Sobretudo, a guerra pelo mercado dos adolescentes. Para Paulo Pinho, diretor do The Lisbon MBA e especialista em private equity (fundos de capitais privados), há efetivamente uma luta por ser o operador dominante nas redes sociais, mas é o Facebook quem está mais bem posicionado na matéria.

“O que o Facebook não controlava na área dos adolescentes era, precisamente, o Snapchat. E comprou o Instagram e o WhatsApp a valorizações completamente absurdas por causa do mercado dos adolescentes, que é um mercado muito interessante, porque é um mercado do futuro. Os adolescentes são muito mais utilizadores da internet do que os mais velhos e, portanto, são utilizadores em relação aos quais pode ser mais fácil mostrar grandes lotes de publicidade. É um mercado que lhes interessa muito. Agora, como é evidente, isto é um bocadinho como a Amazon versus eBay — aquele que tem a base mais instalada consegue, com pequenos incrementos de investimento, replicar o que o outro está a fazer. E não há nada no Snapchat que não seja replicável por uma empresa como o Facebook”, explicou Paulo Pinho, numa entrevista ao Observador em dezembro.

Startups? “Os investidores comportam-se em manada”

A “inércia” fez do Instagram a maior ameaça do Snapchat?

A app que mais tem rivalizado com o Snapchat é o Instagram e o cenário não parece, de todo, animador para Spiegel. A rede controlada pelo Facebook conta com 400 milhões de utilizadores diários ativos. Destes, 150 milhões utilizam diariamente a ferramenta “Stories”, que é uma réplica do Snapchat. E são mais diversificados em termos de faixa etária. Se na rede social de Spiegel cerca de 85% dos utilizadores têm menos de 35 anos, no Instagram essa fatia desce para 69%, segundo os dados recolhidos pelos analistas da Bloomberg Intelligence.

“O Snapchat, Instagram e o Facebook não têm ganho ou perdido muitos utilizadores norte-americanos nos últimos meses, mas o posicionamento do Snapchat no terceiro lugar do ranking pode não inspirar confiança nos investidores, tendo em conta que muitos consumidores tendem a permanecer nalguns produtos e marcas por inércia. Se as pessoas estão já satisfeitas com o Facebook e o Instagram, esses serviços oferecem-lhes um novo serviço que gostam, porque é que se dariam ao trabalho de mudar para a app que inventou esse mesmo serviço?”, questiona o jornalista Mike Murphy, no Quartz.

Mas nem tudo são más notícias para o IPO que promete agitar a bolsa nova-iorquina a partir de quarta-feira. Uma das vantagens do Snapchat é a faixa etária dos seus utilizadores: são mais jovens do que os do Facebook e Instagram. “Se os investidores estiverem a pensar num futuro de longo prazo para o Snap, pode ser encorajador saber que a maioria dos utilizadores tem menor probabilidade de morrer do que o dos concorrentes. Isto também significa que eles estão a crescer com a app, o que foi um grande bónus para o Facebook na última década, porque à medida que os seus utilizadores saiam do liceu e iam para a universidade, começavam a trabalhar, começaram a ter dinheiro disponível para gastar nos produtos que eram anunciados no Facebook. Os utilizadores do Snap podem amadurecer à medida que a app também amadurece”, explica Mike Murphy.

Em breve será possível ver o mundo com o Snapchat. Literalmente

Os analistas da Bloomberg Intelligence destacam, ainda, outros pontos de interesse com a dispersão do capital do Snap em bolsa. Estimam que as vendas cresçam anualmente 50% até 2020 – em 2016, o volume de negócios da startup atingiu 404,5 milhões de dólares, sete vezes o valor de 2015 (58,7 milhões) – e que no próximo ano mais do que dupliquem para perto de mil milhões de dólares. Na base das estimativas otimistas dos analistas estão as vendas de publicidade e uma sondagem que revelou que 8% dos utilizadores do Snapchat estão dispostos a comprar os Spectacles – o primeiro produto offline da marca, uns óculos que permitem fazer vídeos de 10 segundos, através de um pequeno botão circular ao lado da lente. Só com a venda dos Spectacles, os analistas estimam que a empresa faça 200 millhões de dólares (189 milhões de euros) em faturação.

Os olhos dos investidores estão postos não só nos Spectacles, mas no comportamento das ações da empresa que está sob o comando e controlo de Evan Spiegel, de 26 anos. As especialistas da Bloomberg Shira Ovide e Rani Molla recuperam uma frase de um investidor não identificado, citado pela Fortune, para justificar que a loucura do IPO do Snap pode ser “uma loucura boa”: “Estou disposto a arriscar perder 50% se houver uma hipótese de isto ser como o Facebook e conseguir um retorno de 10 vezes mais”.

É esta a lógica do ato lunático que é investir em empresas tecnológicas jovens. “A desvantagem não parece tão drástica quando comparada com o potencial de ganhos”, escreveram. Mas o futuro, afinal, só aos mercados pertence.

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