1230,6kWh poupados 1230,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A Brotéria abriu portas "a quem a queira visitar" há cinco anos: onde está a espiritualidade de um centro cultural?

Uma casa de jesuítas aberta à cultura, ao encontro e aos afetos, assim se apresenta a Brotéria, com mais de 120 anos de história e há 5 no Bairro Alto. Fomos conhecer quem a move, para quem e porquê.

    Índice

    Índice

Nasceu em 1902 como uma revista científica escrita no Colégio de São Fiel, em Louriçal do Campo (no sopé da serra da Gardunha, perto de Castelo Branco), por padres jesuítas, para gáudio de professores e alunos e como prova de um ensino exemplar, assente em métodos científicos reconhecidos pelos pares a nível nacional e internacional. O tempo era o do ataque à ordem Jesuíta, mais uma vez, acusada de ensinamentos obscurantistas, como sempre, e de ser mais um órgão ao serviço da Igreja Católica contra a ideologia liberal. Implantou-se mesmo assim e chamou-se Brotéria, em homenagem a Félix Avelar Brotero, um naturalista do final do século XVIII e princípio do século XIX. Com altos e baixos, mesmo durante a expulsão dos jesuítas, imposta em 1910 pela implantação da República, registou, ao longo dos anos, quase tudo o que se ia passando no país, qual repositório ou observatório dos acontecimentos nacionais a vários níveis, e no que respeita à Cultura em particular a partir de 1925. Não quis parar nunca de olhar, pensar, dizer, analisar, refletir.

Hoje, mais de um século depois, continua a fazer o mesmo, mas com mais força, com mais garra, com mais veemência, de forma mais notada e muito, muito mais alargada, a mesma sapiência outros estímulos a convocar pessoas para o encontro com a cultura e com o outro, consigo próprio, com o mundo, com a cidade na cidade. A Brotéria, muito mais do que uma revista, está agora no coração de Lisboa, no Bairro Alto, mesmo ao lado da Igreja de S. Roque, e transformou-se numa casa habitada por um público eclético com vontade de aprender, de dar e receber. E tem várias formas além da de publicação mensal. É uma biblioteca com um acervo consultável, uma sala de estudo, uma galeria de arte contemporânea, um café e um espaço cultural com uma programação extensa com mais 450 iniciativas anuais e que vão dos seminários aos cursos temáticos, das apresentações de livros às manhãs de espiritualidade, congregando esforços em torno da necessidade do saber e da partilha, à volta de um universo temático vastíssimo e que se situa na interseção entre “o património cristão e as culturas urbanas contemporâneas”.

Fomos descobrir o que é que isso significa há cinco anos, pois é há cinco anos que a Brotéria, enquanto associação cultural, se constitui como uma casa de portas abertas ao público. A hospitalidade é a primeira nota a fazer-se sentir. Nesse ambiente acolhedor, cada espaço abre uma vontade diferente de entender, de procurar saber mais, e o tempo abranda.

▲ Padre Manuel Cardoso: “Que a Brotéria seja um espaço que procura facilitar e suscitar encontros entre a fé cristã e as culturas urbanas contemporâneas, é um refrão que vamos sempre aprofundando"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Que a Brotéria seja um espaço que procura facilitar e suscitar encontros entre a fé cristã e as culturas urbanas contemporâneas, é um refrão que vamos sempre aprofundando com diferentes matizes e disciplinas e com distintos pontos de atenção. Nos últimos dois anos e meio, por exemplo, temos andado à volta da palavra ‘Eutopos’, que é uma palavra grega que significa ‘bom lugar’”, explica ao Observador o padre Manuel Cardoso. É o diretor-geral deste novo formato da Brotéria, ou da Brotéria enquanto associação cultural aberta ao público e fala da necessidade do encontro, talvez o ponto de partida e o ponto de chegada da casa.

“É preciso o ócio e aprender a gerar ócio”

“A realidade tem desafios grandes, sim, mas também tem aspetos muito interessantes. Há pessoas, há projetos, há ideias que são profundamente fecundas. A Brotéria está a colocar os holofotes em coisas que são prometedoras e que nos podem abrir. Queremos olhar para a realidade tal e qual ela é, ver o mal e o difícil para tratar, mas também ver o bom e o prometedor para sabermos por onde ir. Senão ficamos só no desespero de ficarmos fechados nas coisas horríveis. Falta-nos horizonte. Para a Brotéria é importante a ideia de que há solução. Há imensa gente interessantíssima, há ideias fantásticas, trabalhos de arte absolutamente prometedores. Vendo e olhando para estas coisas que são reais, e que estão a acontecer em simultâneo com os riscos grandes à democracia, uma arte demasiado comercializada, um tempo hiperacelerado para viver…”, diz.  O apelo é para que percebamos, a partir da nossa realidade concreta, “a riqueza do mundo e as coisas interessantes que também existem e que se calhar são germinadoras de raízes, para que possamos contrariar os grandes desafios mais difíceis”.

Ali, só os sinos da Igreja de São Roque e o barulho do elétrico abalam a calma e o silêncio do lugar, apesar de situado em pleno Bairro Alto, na Rua de São Pedro de Alcântara, no meio de um turbilhão de gente, sobretudo, agora, no verão, que tantos turistas se atrevem a subir e descer a colina ávidos de vida e distração, entre o espanto e o cansaço que o calor provoca.

“A ideia de ter um espaço físico onde encontramos pessoas que pensam de forma diferente permite-nos colocar a pergunta: 'se este tipo não é burro, porque é que pensa de forma diferente de mim?' Isso ajuda-nos a questionar as nossas próprias certezas e preconceitos.”
Padre Manuel Cardoso, diretor-geral da Brotéria

“É preciso o ócio e aprender a gerar ócio. É preciso uma certa perspetiva para viver esse ócio de forma construtiva e positiva. Tanto do lado do pensamento, como do lado da arte, ou da leitura, todas as dimensões que aqui se cruzam, são formas de ócio positivo e construtivo. Não são ócio de alienação, como é certo tipo de entretenimento”, garante o padre Manuel Cardoso, enquanto nos conta a história deste “centro cultural que quer ser casa” e onde ele agora mora com mais cinco colegas jesuítas. “Os jesuítas e a Brotéria estiveram 90 anos instalados na Lapa, num espaço que se foi progressivamente degradando. Havia uma vontade muito grande de podermos receber com condições na biblioteca, de podermos ter alguma programação. Foi uma década de procura por espaços fora do sítio onde estávamos. Tivemos muitas conversas com muita gente até a Santa Casa da Misericórdia facultar a utilização deste espaço na Rua de São Pedro de Alcântara. A exploração é nossa, o edifício é da Santa Casa, que fez a reabilitação arquitetónica. Penso que estavam interessados neste núcleo cultural à volta da Igreja e do Museu de São Roque, do arquivo e da Casa Ásia, da Casa do Comum, da ZDB, estavam interessados em criar um cluster simpático e com alguma massa crítica que pudesse enriquecer os sítios. Tiveram a simpatia de achar que nós poderíamos trazer alguma coisa a esta praça. E trouxemos também a coleção de arte contemporânea, que surge do nosso desejo grande de habitar este espaço que é um antigo palácio sem ser como quem vai ao Palácio da Ajuda ver como viviam os reis. A coleção, formada por peças quase todas emprestadas, quer quebrar barreiras, pretende a democratização da arte através da fruição no espaço público de peças privadas, e mostra que o centro cultural é um espaço de hoje para os dias de hoje. Essa ideia de nos enraizarmos no presente vai tocando todas as dimensões da casa.”

Uma morada visitada por 40 mil por ano

Tudo aqui parece embebido de um outro espírito — se calhar, está apenas embebido de espírito, e é essa toda a diferença. Há uma noção de vida ali dentro. Uma vida alimentada de muita coisa e onde vive também a ideia de que se ensina a pensar partilhando pensamento. Há uma vontade rara de deixar de lado as resistências que cada um de nós sempre cria perante o desconhecido. “A ideia de ter um espaço físico onde encontramos pessoas que pensam de forma diferente permite-nos colocar a pergunta: ‘se este tipo não é burro, porque é que pensa de forma diferente de mim?’ Isso ajuda-nos a questionar as nossas próprias certezas e preconceitos”, continua Manuel Cardoso. “Entram nesta casa cerca de 40 mil pessoas por ano, algumas muito próximas umas das outras e muito diferentes de outras que também são próximas de outras que também cá estão. O espaço físico onde se cruzam é por si só gerador de pensamento, não no sentido de uma construção teorética, mas sim de pensamento no sentido de interrogação existencial, de como é que construímos um espaço plural, como é que vivemos aquilo que dizemos que queremos viver, que é o espaço democrático plural, feito daquilo que é a riqueza de cada um. Não é uma lógica doutoral, não, nós não sabemos aquilo que é verdade e vamos dizer-vos o que é.”

São sementes que a Brotéria lança à terra, assim parece. Sementes traduzidas em interesses que divergem na temática e na regularidade, na atenção ou na vontade. “Damos sempre à pessoa um ponto seguinte, ou seja, se isto lhe interessou, veja aquilo.” É uma forma de abrir horizontes. Manuel Cardoso resume a ideia: “Não somos uma instituição quimicamente pura, somos mais um cocktail que tenta encontra lugar entre a fé cristã e as culturas urbanas contemporâneas e que tem a interdisciplinaridade como eixo ou método de trabalho”. Mas a definição desse método de trabalho pode ser mais alargada: “Aqui, as diferentes valências da casa estão em contacto umas com as outras. É assim que a galeria de arte contemporânea não é alheia à revista ou à biblioteca, à programação, ou à espiritualidade. Pensa-se a partir desse contexto. Cruza-se a dimensão espiritual na casa com as manhãs de espiritualidade, a dimensão intelectual com a escrita tão eclética como é a da revista, por exemplo. A galeria é um espaço expositivo que convoca plasticamente os problemas trabalhados pelas artes, sejam eles sociais, culturais, afetivos, filosóficos”. Fala agora o padre João Sarmento, coordenador da Galeria da Brotéria.

▲ Padre João Sarmento: “Há sempre uma descoberta de que a arte é provavelmente o lugar social, público, secular, do dia a dia das pessoas, onde se toca em coisas que são próprias da dimensão espiritual"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Funcionamos a partir de problemáticas que nos interessam e dos artistas com quem trabalhamos. Surgem propostas de pessoas que gostam da nossa forma de trabalhar a cultura, ou acham que é potenciador do seu trabalho. Tendemos a criar-lhes perguntas para que possam investigar os seus temas com outros inputs vindos de áreas que não lhes são tão familiares”, assinala João Sarmento, formado em Teologia, Filosofia e Belas-Artes. Para ele é muito simples: “Há sempre uma descoberta de que a arte é provavelmente o lugar social, público, secular, do dia a dia das pessoas, onde se toca em coisas que são próprias da dimensão espiritual. Há uma coisa que nós crentes partilhamos muito com os não crentes e que é da ordem do espanto, da ordem do sublime e do indizível. Estamos neste campo comum do não dito e do não dizível, o campo do sentir e das emoções estéticas, das emoções que são próprias dos sentidos”, continua o coordenador da galeria.

Contemplar através da arte

A Galeria quer diversidade, e aposta tanto em artistas mais velhos, como em artistas mais novos, conhecidos, não conhecidos, e de várias famílias dentro da arte contemporânea. Expõe pintura, tridimensionalidade, som, vídeo, instalação, site specific. “Queremos estar muito atentos a isso para que não haja uma concentração num tipo de medium e de atitude.” Geofilia é o título da mostra patente atualmente na galeria. Trata-se de um vídeo, da autoria de Mariana Caló e Francisco Queimadela, e de uma enorme instalação feita pelos Gorvell, um coletivo de arquitetos, sobre a relação do homem com a terra e as técnicas primordiais de transformação do território. Em outubro e em meados de setembro, chegam as próximas exposições, duas individuais de dois artistas muito diferentes, “um com 80 e muitos anos e outro com 30 e poucos, Manuel Costa Cabral e Hugo de Almeida Pinto, um que dedicou uma vida inteira à pintura sem nunca ter mostrado muito o seu trabalho mas que é muito conhecido pelas curadorias que realizou e pelo trabalho na Gulbenkian e como fundador do AR.CO, o outro que se exprime através de uma componente tecnológica forte onde trabalha muitos meios. Trata-se de uma viagem ao centro da terra, consciente de que o mundo na sua superfície está em grande destruição, e pergunta o que é o centro da terra, considerado em várias culturas como o umbigo do mundo?”, avança João Sarmento.

Mostras e exposições que constituem uma dimensão outra na casa cultural da Brotéria: “Há uma cultura visual que não estamos habituados a associar às fontes de conhecimento. A cultura visual não ilustra uma ideia, ela é uma ideia, é por si um ponto de conhecimento, de construção de pensamento. Há uma dimensão contemplativa na Brotéria que é conseguida através da arte”, sinaliza o responsável pela Galeria.

“Temos uma preocupação eclética de não afunilarmos as temáticas, e de não sermos uma revista de observação explicitamente cristã para católicos."
Padre José Frazão Correia, diretor da revista Brotéria

“Quando uma programação convida os curadores da Bienal de Veneza e ao mesmo tempo pensa sobre a espiritualidade no mundo de hoje, que vive uma crise existencial enorme e tenta pensar isso a nível filosófico, a nível literário ou através da arte contemporânea, consegue criar uma oferta que vai ao encontro de várias comunidades diferentes na cidade. É um discurso muito rico, há uma vontade de aprofundamento dos temas, que muitas vezes surgem e regressam em formas diferentes, numa conferência, num artigo na revista, numa exposição. Essa revisitação dos temas faz com que a nossa abordagem seja mais profunda, que não se esgote”, explica Leonor Carrilho, coordenadora de Comunicação e Design.

“Este é um contexto muito especial, há uma produção muito grande de conhecimento e uma capacidade intelectual muito forte. Há uma grande atenção a esse aprofundar. Não nos interessa nada que as coisas sejam rápidas. Este mundo já é suficientemente rápido, de consumo rápido, reações a quente aos temas, não nos interessa estar presos a uma atualidade mas sim a temas que achamos que são atemporais e que muitas vezes se traduzem na atualidade, mas que vão sendo amadurecidos e revisitados aqui, muitas vezes”, continua Leonor.

Da Igreja para a Cultura e da Cultura para a Igreja

“Temos uma preocupação eclética de não afunilarmos as temáticas, e de não sermos uma revista de observação explicitamente cristã para católicos. Sempre procurámos que o olhar cristão sobre a realidade fosse um olhar que abrisse e que permitisse uma visão ampla sobre a realidade, que não fosse sobre uma comunidade fechada nem uma voz identitária dessa comunidade. Sempre procurámos mais uma maturação dos temas e uma análise crítica dos fenómenos do que ser um órgão de uma doutrina”, começa por esclarecer o padre José Frazão Correia, diretor da revista Brotéria, cuja linha cultural foi inaugurada em 1925 e completa agora o seu primeiro centenário.

“Quando a Brotéria deixou de ser uma revista e passou a ser uma casa de cultura aberta à cidade, à comunidade, e nos mudámos para aqui, a linha editorial tornou-se mais explícita. Quando passou a ser parte de um todo maior, passou também a seguir, naquilo que lhe é específico, com artigos e reflexão escrita, a missão que identificámos para a casa: a de ser um lugar onde o património cristão se encontra com as culturas urbanas contemporâneas. Um chapéu gigante mas significativo e que se traduz pela convicção de que a identidade cristã não é uma identidade formada e fechada sobre si mesma, mas ela própria enriquecida pelos múltiplos contactos que estabelece com o seu exterior. Entendemos que a identidade cristã não se estabelece no sentido unidirecional da Igreja para a Cultura, mas também da Cultura para a Igreja. Entendemos que a abertura às expressões contemporâneas da Cultura e à arte enriquece a compreensão que a Igreja tem de si mesma e do seu próprio património. A revista procura também ser esse olhar atento às múltiplas expressões, do ponto de vista cultural, social e político, não apenas para ensinar alguma coisa, mas também para aprender. E interessa-nos sobretudo um olhar crítico e distanciado. Não nos interessa estar na crista da onda da atualidade, essa é a função do jornalismo. Interessa-nos um certo recuo, uma certa maturação e análise para que as coisas se decantem. Não somos uma revista académica, que tem revisão de pares, com rigor científico explicito. Assumimos que somos uma revista diferente, eclética, queremos olhar para os temas com rigor crítico, mas, ao mesmo tempo, que a generalidade das pessoas possa entender. Não queremos que sejam artigos de especialistas para especialistas, mas que possam ser artigos fundamentados, rigorosos e críticos para leitores cultos não especialistas.”

▲ Leonor Carrilho: “Este é um contexto muito especial, há uma produção muito grande de conhecimento e uma capacidade intelectual muito forte"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A caracterização dos objetivos e valências da revista é assim feita por quem a decide e melhor a conhece. “Não estando alheios ao que está a acontecer na realidade, queremos dar mais um ângulo, mais um ponto crítico, diversos ângulos de observação e de leitura que possam acrescentar alguma coisa a outros, para que a partir daí o leitor possa também fazer o seu ângulo e ter a sua leitura das coisas. Um lado de verdade. Queremos ser honestos com a realidade, não pintar as coisas de cor de rosa quando elas são dramáticas, também não deixar de procurar o bem no drama das coisas. Precisamos de vários olhares e de várias perspetivas para sermos honestos com aquilo que se passa”, continua.

José Frazão Correia lidera uma equipa de três executivos e muitos autores. Através de reuniões semanais, avançam-se com possibilidades de temas, de convites a autores, de reflexões, até se chegarem aos sete ensaios, o editorial e o caderno cultural de crítica, que é a estrutura atual da revista mensal.

A Brotéria tem uma tiragem de 900 exemplares, sendo que 550 a 600 são  asinaturas, entre papel e digital numa relação de 90 para 10%. Cento e muitos exemplares são ofertas, permutas com outras revistas nacionais e internacionais e bibliotecas. E, desde 2021, são enviadas 120 revistas para o Ministério dos Negócios Estrangeiros para serem distribuídas pela rede de embaixadas e consulados. O resto é vendido avulso. Todos os autores escrevem pro bono. “Gostávamos de os remunerar, mas não temos uma estrutura económica que o permita”, lamenta o padre José Frazão.

“Curadoria das pequenas coerências”

“A riqueza das coisas que preparamos é também um modo de enriquecer a experiência de crente e o contrário para quebrar preconceitos, desconhecimentos que afastam as pessoas. A história das relações entre a Igreja e a sociedade tem altos e baixos, múltiplas facetas e, por vezes, grandes atritos. Parece-nos que esse desejo de procurar bons lugares, os Eutopos [de que começou por falar o padre Manuel Cardoso], e que a Brotéria também seja um bom lugar enquanto permite o encontro e o conhecimento e o reconhecimento de protagonistas, de interesses, individuais e de grupo, de maneira a que se possa construir qualquer coisa em conjunto que não seja a partir de preconceitos seja de que natureza forem. Criar uma casa aberta que tem como ponto de partida um desejo honesto que as pessoas se encontrem e se reconheçam e que, a partir daí, possam conversar, possam pensar, possam escrever, ter experiências de relação gratuitas. Parece-nos que isso já é um bom lugar. Entendemos que a identidade cristã não é uma identidade que afunila, mas uma identidade que abre”, concretiza mais um pouco o diretor da revista.

"Cruzar ecologia e espiritualidade, cultura e espiritualidade, e com muitos outros aspetos que refletem preocupações atuais. Essa junção é verdadeiramente surpreendente para as pessoas que nos descobrem”
Leonor Carrilho, coordenadora de comunicação e design

Leonor Carrilho fala de espiritualidade em vez de identidade cristã quase como sinónimos: “A espiritualidade não é uma área da casa, a espiritualidade existe aqui em casa em tudo o que fazemos. A hospitalidade é um valor ligado à espiritualidade, muito dela está ligado à forma de abrirmos uma casa à cidade, a espiritualidade faz parte dessa atitude, é um modo de vida, digamos, é um modo de operar. As pessoas valorizam muito isso. Cruzar ecologia e espiritualidade, cultura e espiritualidade, e com muitos outros aspetos que refletem preocupações atuais. Essa junção é verdadeiramente surpreendente para as pessoas que nos descobrem”. Leonor é uma daquelas peças essenciais, sempre atenta às movimentações interiores e exteriores. A “curadoria das pequenas coerências” é a função que lhe cabe, unindo espírito das multifunções e das ligações entre as várias áreas da casa. João Sarmento diz de outra forma ainda: “Todas as coisas têm a sua latência espiritual. Para os jesuítas é muito claro: o objetivo é ver Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus, é perceber que Deus está a agir e a trabalhar misteriosamente a partir das coisas que acontecem”.

A trabalhar na casa há cinco meses, Simão Lucas Pires tem o cargo de leitor da Biblioteca, um acervo monumental que ocupa o coração do prédio da Rua de São Pedro de Alcântara em cinco andares climatizados, higienizados e arrumados de acordo com as mais rigorosas técnicas bibliotecárias, e está ainda a identificar livros “muito interessantes ou edições particularmente importantes e ver de que maneira podem ser explorados na programação da Brotéria”. O objetivo é “estabelecer ligações tanto entre a biblioteca e a programação, através de iniciativas de programação, como ligações entre a Biblioteca e a revista, por exemplo, através da escrita e publicação de artigos sobre livros que temos cá. No próximo trimestre vai haver uma apresentação de Os Miseráveis, de Victor Hugo, porque há cá uma primeira edição acabada de restaurar”, conta o especialista em literatura e filosofia.

“Olhar com mais atenção para o que temos neste fundo imenso e ver de que maneira isso pode ser explorado, dado a conhecer. Outro trabalho que será desenvolvido mais a partir do próximo ano é o de escrever artigos na revista sobre literatura portuguesa contemporânea, com um olho na literatura portuguesa do século XX e um olho na literatura portuguesa do século XXI, uma vez que hoje em dia já não há tanto espaço nos jornais para a crítica literária, serão artigos de fundo, isto a par das recensões”, adianta Simão Lucas Pires. De resto, para colmatar a mesma lacuna, vai nascer na próxima temporada um novo seminário na casa. Além dos já existentes, um sobre a História da Companhia de Jesus e outro intitulado Pensar a Educação, haverá um seminário dedicado à literatura contemporânea. “A criação de um seminário de literatura contemporânea à semelhança do seminário sobre a História dos Jesuítas em que todos os meses há uma apresentação que permite aprofundar o conhecimento, tal como o seminário Pensar a Educação, em que todos os meses é proposto um texto curto relacionado com a educação, de cartas de escritores a capítulos de tratados de educação. A ideia é, em contracorrente com a perda da importância da crítica literária e o vender-se mais livros, ter um fórum sério mas aberto de reflexão sobre literatura, com críticos, com académicos, com escritores e aberto ao público em geral.”

▲ A trabalhar na casa há cinco meses, Simão Lucas Pires tem o cargo de leitor da Biblioteca, um acervo monumental que ocupa o coração do prédio da Rua de São Pedro de Alcântara em cinco andares

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ainda a perder-se nas descobertas deste fundo tão rico, cerca de 95 mil livros e 65 mil revistas, Simão tem um trabalho fantástico pela frente, o de criar um novo olhar sobre o acervo literário e sobre o fundo filosófico, duas das grandes áreas temáticas da grande biblioteca dos jesuítas: Literatura; Teologia (espiritualidade, religião); História (e História da Companhia de Jesus); e Filosofia. De entre tantos títulos, o destaque do público que procura a Brotéria é e continua a ser a história da Companhia de Jesus, sobretudo ao nível da investigação, e dos mestrados e doutoramentos, e outros níveis de investigação para artigos e livros, e ainda o enorme interesse pelos periódicos, mais de 700 títulos. Mas convém não esquecer os maravilhosos quatro mil livros antigos, acabados de organizar através de quotas feitas à mão que permitem a sua localização nas prateleiras.

“Descobri livros que não sabia que existiam cá em Portugal sequer. E descobri, por exemplo, que os filósofos mais representados no acervo são aqueles que não são conhecidos por terem grande amizade com os jesuítas, Blaise Pascal, por exemplo, sobre quem estou a fazer a minha tese e que celebremente teve imensas polémicas com os jesuítas, com as Cartas a um Provincial, e fiquei agradavelmente surpreendido. No fundo, esta atitude reflete um bom princípio, o de querer conhecer com quem se está a discutir, o de não ficar preso só ao próprio ponto de vista. Outro exemplo disso, talvez mais óbvio, é a quantidade de obras de Nietzsche, muitas coisas do autor e sobre o autor”, conta o leitor da biblioteca. Simão Lucas Pires explica ainda: “Dedico-me mais a perceber o que é que falta e a perceber o que seria interessante arranjarmos para a nossa biblioteca, a identificar lacunas, falhas e melhorias no acervo. Uma coisa que também notei rapidamente é que há uma riqueza enorme de literatura portuguesa do século XX, primeiras edições e edições autografadas pelos escritores que conheciam os críticos da Brotéria. Mas, depois, no início do século XXI há uma quebra. Estou a identificar livros a adquirir”.

"A ideia é, em contracorrente com a perda da importância da crítica literária e o vender-se mais livros, ter um fórum sério mas aberto de reflexão sobre literatura, com críticos, com académicos, com escritores e aberto ao público em geral”
Simão Lucas Pires, leitor da biblioteca

Não é fácil nem óbvio. “Nesta avalanche editorial, tentar fazer uma espécie de friso e escolher um determinado número de livros para serem recenseados e pedi-los às editoras com algum critério. Olhar para o presente e dizer como é que a Brotéria quer continuar esse legado de atenção ao presente literário que foi o que fez com que tenhamos esta biblioteca do século XX. Uma atenção que pode ser enriquecida por visitas ao passado. Há sempre esta tensão entre aproveitar o que temos cá e que é uma herança do passado e continuar com esta atenção ao presente”, remata Lucas Pires.

O que falta fazer?

Entre tempos, à procura de pontes, sempre em rede, o trabalho na Brotéria cresce e faz acontecer. “Acredito muito neste funcionamento em rede, juntar boas vontades cada uma com um talento diferente. Juntos vamos a algum lado, em si mesmo isto é um resultado. Congregar boas vontades sem medo de ir ao público, ao privado e ao municipal”, diz Manuel Cardoso. O diretor da casa, onde trabalham já 25 colaboradores, tem um bom exemplo, concreto e com resultados espantosos. “O ano passado ganhámos o Prémio Gulbenkian Património – Maria Tereza e Vasco Vilalva com a Biblioteca. A Biblioteca era da Companhia de Jesus e foi dada à Associação Brotéria, está instalada neste edifício porque a Santa Casa da Misericórdia nos cedeu o edifício para a sua instalação e disponibilização do seu fundo editorial e porque a Jerónimo Martins, patrocinador oficial da Biblioteca, nos pagou o restauro do livro antigo e a higienização e todo o trabalho de recuperação dos títulos agora perfeitamente conservados, e porque a Câmara Municipal de Lisboa nos apoiou com o mobiliário da Biblioteca. Cada um deu aquilo que tinha de bom a dar e foi possível transformar uma biblioteca que estava em mau estado e com poucas condições de consulta numa biblioteca que ganha prémios.”

Esse sucesso, ou não, materializa mais vontades, aspirações talvez. As do padre Cardoso moldam-se de forma especial. “Que o resultado seja que as pessoas percebam a nossa intencionalidade, que as pessoas percebam por que é que fazemos o que fazemos. Quem acha que a Brotéria é uma estrutura que faz coisas é a maior tristeza que me dá. Gostava que as pessoas percebessem porque é que estamos a fazer as coisas que estamos a fazer, que nos ajudassem a perceber se estamos a ir bem ao não e o que falta fazer nas nossas linhas de programação e investigação. Se formos percebidos como programadores de coisas e não como gente que está ativamente à procura de fazer um caminho e num processo, acho que seria pena.”

▲ Padre José Frazão Correia: "Sempre procurámos mais uma maturação dos temas e uma análise crítica dos fenómenos do que ser um órgão de uma doutrina”

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Para avançar, conta com muitos apoios. A Fundação Santander apoia as conferências; a Jerónimo Martins apoia a Biblioteca; a Fundação Amélia de Mello apoia um seminário; a Gulbenkian apoia as apresentações da revista (itinerâncias pelo país que acontecem uma vez por mês). A lista estende-se e altera-se em função das atividades que se programam. Eutopos, o tal bom lugar dito à maneira dos gregos, é um filão grande a explorar na programação a todos os níveis. Depois de 15 dias de férias, a Brotéria volta convidar para uma visita a partir de 18 de agosto.

O convite é grande e diz muita coisa. “Olharmos para a vida, olharmos à nossa volta para a natureza incluindo os minerais, não apenas nós e os animais; o gratuito e o lúdico; a arte como encontro social, a nível da arte contemporânea, da filosofia e do pensamento; a literatura como área central, literatura portuguesa do século XX…” Isto porque, como afirma Manuel Cardoso, “não somos fruto de uma ideologia, a Brotéria não nasceu da ideia, nasceu de ideias que foram testadas pela prática e que foram sendo moldadas e alteradas em função da realidade das pessoas que constituíram as equipas e pela realidade das pessoas que nos visitam”.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.