A Eurovisão na escala Conan: a final, canção a canção /premium

19 Maio 2019727

O lado holandês de Hugo van der Ding celebrou a vitória de Duncan Laurence. Foi o melhor de uma noite que por vezes foi só assim-assim ou então menos. Eis o relato do nosso enviado especial ao sofá.

A vantagem de ter dois países é que temos duas vezes mais hipóteses de ganhar a Eurovisão. Bom, isso e poder ter o nosso dinheiro num país onde se pague menos impostos, como faço eu e o Grupo Jerónimo Martins.

Com Conan Osiris (injustamente) fora do concurso, e sendo eu do Sporting, restava-me Ducan Laurence e o seu “Arcade” para ainda poder ir portar-me como um selvagem para o Marquês de Pombal.

A última vez que a Holanda ganhou a Eurovisão, ainda eu não tinha nascido, foi em 1975, com uma canção — “Ding-a-Dong” —  que começa precisamente por perguntar: “Is ‘t lang geleden?”. Ou, nesta língua que vocês falam: “Foi há muito tempo?”. Foi. Foi há 44 anos. Acabou o jejum, como dizem aqueles bichos dos programas de comentários da bola. Para o ano, conto alugar a minha casa de Amesterdão, como é sabido, a cidade mais densamente povoada da Europa e logo com muito pouca oferta de alojamento, por dez mil euros à semana durante o festival. Era o que vocês fariam se lá tivessem uma casa. Como não têm, também não sejam invejosos, se fazem favor.

Mas falemos desta noite: com o Benfica a sagrar-se, ou lá como eles dizem, campeão pela enésima vez, restaram em Portugal quatro pessoas a ver o festival na televisão, a saber: Nuno Galopim e José Carlos Malato, porque estavam lá e não dava para não ver. Depois, a sempre maravilhosa (não é por ser minha amiga) Inês Lopes Gonçalves, que teve de ver para saber quando chegava a sua vez de anunciar a votação do júri português. Concedo que tenha saltado uma ou duas músicas, para apanhar ar, mas viu com certeza mais do que qualquer benfiquista ou fã do Conan. E depois, eu. Sempre aqui, para vocês, como a Maria Leal.

Eis o que achei, canção a canção.

Serão as minhas impressões em tempo real, por isso, as opiniões e as preferências não foram marcadas pelo resultado final. A menos que eu seja um canalha e depois tenha corrigido tudo para ficar melhor na fotografia e parecer que percebo imenso da Eurovisão. Nunca o saberão. É um segredo que levarei comigo para o Céu. Ou o Inferno. Isso depois de verá. O mais provável é nem sequer existir vida para além da morte. Que Deus me perdoe. Bom, vamos lá à Eurovisão.

Para benefício do leitor acrescentei duas notas: a classificação final de cada país, e a minha classificação, em percentagem, de quanto determinado cantor é pior que Conan Osiris, em que 0% é o pior possível e 100% é quase tão bom quanto Conan.

A festa abriu com Netta Barzilai, a cantora de Israel vencedora da edição anterior, em Lisboa, a pilotar um avião e a espetá-lo contra um edifício, no caso a arena do festival. Teoristas da conspiração escreverão amanhã em blogues de fake news que é mais uma prova do envolvimento dos judeus nos trágicos acontecimentos de 11 de Setembro em Nova Iorque. Enfim, gente sem nada na cabeça.

De maneira que o avião entra pelo palco adentro e sai de lá a dita Netta e um corpo de baile, já bastante animado, como pertence. Não percebi se aquilo era mesmo um avião inteiro, ou só a parte da frente, a fingir. Fosse como fosse, estava muito bem feito, não desfazendo. Posto isto, surge Dana International, a vencedora da Eurovisão por Israel em 1995. Cantou uma música gira, mas não aquela com que ganhou, que essa cantaria mais tarde. A seguir, receberam no palco a cantora da primeira participação israelita na Eurovisão, em mil nove e troca o passo. À primeira vista, pareceu-me a Dra. Edite Estrela, mas provavelmente não seria.

Damos depois as boas-vindas ao quarteto de apresentadores, dois homens e duas senhoras. Giros, todos. Quer dizer, todos menos um, que não era lá muito giro, confesso. Mas no meio dos outros até parecia, coitado. Se calhar era dos óculos. Olhe, para a próxima vá de lentes de contacto, que é o que eu faço. Os apresentadores estavam de smoking e as apresentadoras de vestidos cor-de-rosa. Tudo como deve ser e à antiga, que para modernas já bastam os cantores e o público. Enfim, cala-te boca. E, por falar em vestidos, por esta altura já eu estava uma pilha de nervos para saber com que vestido iria aparecer Inês Lopes Gonçalves. Todas as minhas tentativas de lhe sacar a informação foram inúteis. Teria de esperar.

Mas a coisa mais importante do festival é a música. Estou a brincar. De qualquer forma, vamos às vinte e seis canções! Let the Eurovision Song Contest begin! Ou, como se dirá para o ano, Laat het Eurovisie Songfestival beginnen!

Malta

Michela, “Chameleon”

Já dizia o outro que o que faz falta é animar a Malta. De facto. Porque é que nunca passou pela cabeça desta gente mandarem o gato maltês, que toca piano e fala francês? Mas não. Resolveram mandar este “Chameleon” de Michela Pace. Que parece, mal comparado, uma música da Floribela.  Aliás, não sei se não será mesmo a Floribela. Por Galopim e Malato, fiquei a saber que cada música tem forçosamente de ter três minutos. Nem mais, nem menos. Mas esta acho que teve meia hora. Pareceu-me. E creio que Michela também achou o mesmo, que estava uma pilha de nervos.

Pontuação final: 16.º lugar
Escala de Conan Osiris: 17%

Albânia

Jonida Maliqi, “Ktheju Tokes”

Para a sua participação este ano, a Albânia, que é um país que tem nome de tia velha, escolheu Jonida Maliqi, que veio cantar “Ktheju Tokës” (acho que se lê como se escreve). É uma espécie de Rita Pereira vestida de Severa. Para os fãs da Rita Pereira e da Severa, esclareço que isto não era um elogio. De todo. Bom, e a música? Pois que vai resgatar do passado as raízes da música tradicional albanesa. Percebe-se porque é que, entretanto, tinham sido perdidas. Estou a brincar. Mesmo que fosse uma porcaria, as raízes culturais são como as do cabelo mal pintado: o melhor é assumir que é mesmo assim. O cante alentejano, por exemplo, não é melhor. Antes pelo contrário. Até agora, foi a minha música preferida. Mas a verdade é que é só a segunda. É para verem o que eu gostei da de Malta…

Classificação final: 18.º lugar
Escala de Conan Osiris: 27%

República Checa

Lake Malawi, “Friend of a Friend”

Traz-nos este ano a República Checa Lake Malawi com “Friend of a Friend”, muito apreciado na arena. Cantaram em inglês, o que já é uma vantagem em relação às duas anteriores. Que a gente sabe lá se elas, lá em estrangeiro, nos estavam a mandar a todos àquela parte. Este, pelo menos, já sabemos que não está. Por palavras. Que há várias maneiras de mandar pessoas àquela parte. São miúdos e têm bom ar, são giros, não cantam mal, saltam imenso. A música entra no ouvido e dá vontade de bater o pé e de cantarolar o refrão. E é essa a única coisa que não lhes perdoo.

Classificação final: 11.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 20%

Alemanha

S!sters, “Sister”

Este ano, a Alemanha foi uma das sérias candidatas a ficar em último lugar, mas nem isso conseguiu, coitada. Elas chamam-se Sisters e a música chama-se “Sister”. É mais ou menos a mesma coisa que a Dulce Pontes ter ido cantar uma música chamada Dulce Ponte. Olha, peço desculpa aos fãs, mas pior que a “Lusitana Paixão” não seria seguramente. Ai, desculpem! Esqueço-me sempre que em Portugal as pessoas adoram cantoras aos gritos a falar de Fado. Não volto a dizer mal. Bom, a música “Sister” é sobre a amizade. Eu gosto de amizade, por isso já estava predisposto para gostar da música. Têm genica. Cantam com garra. Com paixão. Como é apanágio desse povo caloroso, espontâneo, que adora festa e deixar-se ir nas asas da loucura. Estou a brincar. São mais secos e hirtos que bacalhaus, os alemães. Odiei.

Classificação final: 24.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 9%

Rússia

Sergey Lazarev, “Scream”

Este ano, a Rússia também cantou em inglês. Quer dizer, não foi a Rússia toda, que ele era só um, apesar de, com o jogo de espelhos, parecerem mais. Chama-se o rapaz Sergey Lazarev, e a música “Scream”. Peço desculpa, que aquilo afinal não eram espelhos, eram ecrãs gigantes, com imagens gravadas que depois faziam movimentos diferentes dos dele. Hoje em dia já não se pode confiar em ninguém, tudo parece uma coisa e depois é outra, caraças. Gostei da melodia, parece assim um musical. A páginas tantas, começou a chover no palco. Fiquei logo em cuidados, que aquilo está tudo cheio de cabos de eletricidade pelo chão, o que é que não estão à vista. Ainda se dava alguma desgraça. Mas não. Nem aquilo meteu água, nem ele, que não envergonhou ninguém. Muito antes pelo contrário. Agora faço ideia de como ficou aquele chão… Lá vai uma desgraçada qualquer ter de passar uma esfregona a correr, nos poucos segundos que têm para mudar de cenário. Provavelmente uma emigrante palestiniana… Bom, adiante.

Classificação final: 3º lugar
Classificação de Conan Osiris: 57%

Fizeram aqui um intervalinho. Aproveitaram para entrevistar Jean Paul Gautier, que disse umas banalidades quaisquer sobre música e sobre vestidos. Mas gostei de vê-lo. Aquele homem não se faz velho.

Dinamarca

Leonora, “Love is Forever”

A apresentação deste “Love is Forever” de Leonora podia ter sido encenado pelo La Feria. Aquelas peças que ele faz para as crianças. Tinha uma sonoridade bem infantil. A mensagem era bonita. Mas ela estava uma pilha de nervos. Não conseguiu esboçar um sorriso que não fosse forçadíssimo, pareceu-me. Não sei se por causa dos nervos ou por ser dinamarquesa. É que aquilo é gente que não se ri. Tenho vários amigos dinamarqueses e é uma tristeza. Quando vou lá jantar a casa, pois que de cada vez que conto uma piada, geralmente à sobremesa, ficam a olhar muito sérios para mim, sem se rirem. “Então, não perceberam?”, pergunto. “Percebemos”, respondem eles. “E não acharam graça?”, pergunto. “Achámos”, respondem eles. Enfim, só à chapada.  Mas a música é mesmo gira. Fiquei fã desta Xana Toc Toc dinamarquesa, sentada numa cadeira gigante.

Classificação final: 12.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 29%

San Marino

Serhat, “Say Na Na Na”

Portugal ficou cheio de ódio a San Marino, porque ficou a parecer que foi ele que roubou o lugar a Conan Osiris, por ter sido ele o último a passar à final. Mas filhos, odiar San Marino é como bater num cavalo morto. Coitados. Já imaginaram o que é viver num rochedo, a ter de comer os primos e as primas, porque não há lá mais ninguém? Peço desculpa aos leitores dos Açores, mas tinha de dizer isto. Tenho ouvido dizer que este Serhat, que nos trouxe “Say Na Na Na”, é o Leonard Cohen de San Marino. Sim, de facto lembra muito. Se nunca se tiver ouvido o Leonard Cohen cantar. Ou se se achar que o Leonard Cohen é um jogador de futebol. Mas a música é gira. A letra também. Na na na. Que deve ser a sílaba mais repetida em todas as letras da Eurovisão. Por acaso, gostei. A voz dele parece a voz que se faz quando se está a fumar erva e não se quer deitar logo o fumo fora, porque ainda precisamos de contar uma piada antes que ela se perca para sempre nas brumas da memória da erva. E então, falamos assim a puxar o ar para dentro, sabem? Quer dizer, contaram-me que era assim. Eu não sei, que nunca fumei erva na vida, nem sequer conheço ninguém que tenha fumado.

Classificação final: 20.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 25%

Macedónia do Norte

Tamara Todevska, “Proud”

Temos agora o país que todos os anos muda de nome na Eurovisão. A Macedónia é uma espécie de Prince dos países. Parece que ela, Tamara Todevska, que nos trouxe “Proud”, é repetente na Eurovisão. Diz que já veio outras vezes, mas a fazer coros. Mas desta vez estreia-se a solo. Nuno Galopim e José Carlos Malato chamam a atenção para a letra, um hino ao Orgulho. E eu fico a sentir-me mal por, até agora, não ter prestado atenção às letras das músicas anteriores. Mas agora também não vou voltar atrás para prestar, não é? Ainda faltam imensas, presto atenção daqui para a frente. Prometo. Ela é mesmo gira, e canta bem como o caraças. Talvez até um pouco melhor que o caraças, quando o caraças está naqueles dias em que as coisas não lhe saem tão bem.

Classificação final: 8º lugar
Classificação de Conan Osiris: 60%

Suécia

John Lundvik, “Too late for Love”

Devo dizer já de caras que adoro a Suécia. Se eu pudesse ter um terceiro país, seria a Suécia. As pessoas não têm nada na cabeça, como em toda a Escandinávia, mas são giras, que é o que interessa. Como é o caso de John Lundvik, que nos trouxe “Too Late for Love”. E também tem boa voz, o que é sempre engraçado num cantor. A música tem força. Ajudou bastante o coro, que era francamente bom. Gostei eu e gostou o público na arena. Cheguei a pensar que ia ganhar, o que não me teria entristecido muito. Ele também achou, mas não ganhou. O que o deve ter entristecido mais do que a mim, coitado.

Classificação final: 6º lugar
Classificação de Conan Osiris: 65%

Eslovénia

Zala Kralj & Gasper Santl, “Sebi”

Vêm representar o país a dupla Zala Kralj & Gašper Šantl, com “Sebi”. Espero que aquele primeiro apelido não se leia como se escreve, que em português fica a parecer um grande palavrão. Cantaram na língua lá deles, que é um susto. Não se percebe nada. Pelo menos, para quem não fala esloveno. Que é o meu caso. Foram vestidos de branco. Tudo dentro do simples. Cabelo escorrido, ela. De caracóis, ele, penso que lavados, mas não posso jurar. A música é bonita. Esperem, acho que ele só toca, quem canta é ela, afinal. Fiquei com a impressão de que se comem. Mas talvez sejam só amigos. Mas se ganhassem, ai, isso tenho a certeza que iria acontecer. Com a excitação toda da coisa. Eu faria o mesmo.

Classificação final: 13.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 29%

Chipre

Tamta, “Replay”

Esta Tamta, com o seu “Replay”, é a Madonna antes da Madonna. Vestida como a Madonna. Aliás, achei que era mesmo a Madonna. É que, entretanto, a meio da canção da Eslovénia, me caiu uma lente de contacto. Mas foi só à primeira vista. Depois ouvi-a e percebi que não era a Madonna. É que a concorrente de Chipre sabe de facto cantar. E, no entanto, anda a concorrer à Eurovisão, enquanto a outra, a verdadeira, pode ter uma voz pior, mas está a ganhar uns bons milhões para ir lá cantar. Olha, estudasses, filha.

Classificação final: 15º lugar
Classificação de Conan Osiris: 30%

Holanda

Duncan Laurence, “Arcade”

Pronto! Esta “Arcade” de Duncan Laurence é a minha preferida. E ainda nem sequer a tinha ouvido. Mas o que é que querem? Cada um puxa pelo seu país. E a música é mesmo fixe, não desfazendo. Ele tem uma voz rica, como se costuma dizer. E não só canta como toca também. Nós, os holandeses, somos assim. Sabemos fazer de tudo, e fazemos tudo bem. E, por falar em holandeses, vi entre o público o meu amigo Niels, que está lá em Tel Aviv. Sim, que eu até tenho amigos que são. Diz Duncan que “love is a losing game”. Olha, nunca tinha ouvido isto numa letra de uma música! Brincadeira! Mas sim senhor. Se não tivesse ganhado, nunca mais via a Eurovisão. Que é o que dizem os portugueses todos os anos. Mas depois veem sempre.

Classificação final: VENCEDOR
Classificação de Conan Osiris: 75%

Grécia

Katerine Duska, “Better Love”

Informam-nos Galopim e Malato que Katerine Duska, que nos traz “Better Love”, é advogada. Tomei nota de nunca na vida arranjar uma advogada grega. É que ela, apesar de advogada, apresenta-se, no entanto, como se fosse a Ana Malhoa. Nada contra, até gostei. É assim pró escândalo! O festival é isto: fireworks. E eu gosto disso. Dispõe bem. Se eu quisesse apanhar uma seca a ouvir música, ouvia o Salvador Sobral. Pronto! Andava há dois anos com isto entalado na garganta. Agora já disse. Vamos seguir em frente.

Classificação final: 21.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 28%

Isarel

Kobi Marimi, “Home”

Representa o país anfitrião Kobi Marimi, com “Home”, nem de propósito. Para quem não fala inglês, quer dizer casa. E ele está a cantar em casa. Já perceberam, ou querem que eu faça um desenho? Também posso fazer, não me custa nada. É só dizerem. E o que é que eu achei da música? Olha, muito original: uma balada romântica cantada por um homem a fazer olhinhos para a câmara… Francamente, tragam o Salvador de volta! Retiro tudo o que disse dele na canção anterior. Bom, depois lá entra um coro e a coisa compõe-se um bocado. Diz-nos Galopim que ele chora sempre no fim da canção. E, certo como o destino, chorou outra vez. E sabem que mais? Também eu! Juro. Caraças do miúdo, pá!

Classificação final: 23.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 29,5%

Noruega

KEiiNO, “Spirit in the Sky”

Este país escandinavo traz-nos KEiiNO, com “Spirit in the Sky”. São um trio. Quem nunca, não é? Um dos deles pertence ao povo sámi, que vive no norte da Noruega e que antes se dizia lapões, mas parece que agora não se pode dizer, que é ofensivo. Enfim, trouxeram o Pai Natal. Ai, espero que eles não leiam o Observador, que isto agora foi um bocado indelicado. É… devem mesmo ler o Observador na Lapónia, devem… Quer dizer, em Sápmi, que é como eles agora chamam à Lapónia. Bom, chamem o que quiserem, a verdade é que a música é bem gira. Dá vontade de cantar no duche! Ou de saquear uma vila, queimar tudo e matar toda a gente. Afinal de contas, são vikings.

Classificação final: 5.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 48%

Reino Unido

Michael Rice, “Bigger Than Us”

Diz-nos Nuno Galopim que este miúdo, Michael Rice, que nos trouxe “Bigger Than Us”, aprendeu a tocar piano a ver vídeos no Youtube. Tal como Mozart, segundo se diz. A música é tão desinteressante que me pus aqui a pensar: será que o Reino Unido também vai deixar a Eurovisão? Olha, se for para isto, não faz cá falta nenhuma. Michael Rice cantou na sua língua natal, por isso não percebi nada da letra. Estou a brincar, pá! A língua natal dele é o inglês! Era só para ver se vocês estavam com atenção ou se chegaram agora do Marquês e estão a cair de bêbedos. Há tarados para tudo. Como por exemplo, para votar nesta música, que é uma seca. Das grandes.

Classificação final: 26.º lugar, ou seja, EM ÚLTIMO
Classificação de Conan Osiris: 1,3%

Islândia

Hatari, “Hatrio mum sigra”

No número mais original desta edição, estes Hatari trouxeram-nos “Hatrið mun sigra”, que quer dizer — explicam de novo Galopim e Malato — não sei quê, não sei quê sobre o ódio. Eu acho que é uma piada a Israel, que estes punks têm mesmo cara de estar aqui para armar barraca. A apresentação foi uma pouca vergonha, tudo em sado-maso. Estou a brincar, até gosto bastante. Mas, de facto, os islandeses não têm nada na cabeça. No bom sentido, claro. Confesso que nestas coisas gosto é de baladas. Por isso, aproveitei para ir passear o cão à rua num instantinho. Ainda pensei: “Ai, mas depois se ganha esta parece mal eu não ter visto”. Mas logo me apercebi que esta canção tinha tantas hipóteses de ganhar a Eurovisão como os bancos têm de reaver os mil milhões de euros com que o Berardo se afiambrou. Ou até menos.

Classificação final: 10.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 34%

Estónia

Victor Crone, “Storm”

Este ano, a Estónia trouxe um sueco. Victor Crone, com “Storm”. Não tem mal nenhum, que a Suíça já concorreu com a Celine Dion, que é canadiana, e até ganhou. Ele tem bastante pinta, para quem gosta do género, e também toca guitarra. Viveu nos Estados Unidos, e nota-se imenso no sotaque. Confesso que já ouvi esta música mais de cem vezes. Ao longo da minha vida. Perceberam? Não estava dizer que gostei tanto que estive a ouvir repetidamente. Estava dizer que é igual a outros milhões de músicas. Ou seja, estava a dizer mal da música. É sempre preciso explicar tudo, credo…

Classificação final: 19.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 19%

Bielorússia

Zena, “Like it”

Esta Zena, com “Like It”, é a terceira sósia de uma portuguesa a cantar esta noite, depois de Floribela e de Ana Malhoa. Desta vez, parece a Judite de Sousa, assim no look, de botas altas, calções curtos e top acima do umbigo. Com a diferença que esta está a cantar no palco da Eurovisão, não está a apresentar o Jornal da Noite, logo a roupa aqui faz sentido. Ouch, eu sei. Eu cá sou assim, não mando dizer por ninguém. Mas a música é bem gira. Bati o pé. Mas só uma vez.

Classificação final: 25º
Classificação de Conan Osiris: 12%

Azerbaijão

Chingiz, “Truth”

Adoro dizer Azerbaijão. Parece um insulto. Como em: “Já viste o namorado novo da Teresinha?” “Não! Então, que tal?” “Olha, é simpático, mas tem um ar assim meio azerbaijão, coitado”. Fala-nos esta música de Chingiz, “Truth”, de relações tóxicas. Credo. Odeio. A certa altura, aparece um robot. Por falar em olha o robot, já ouviram o CD novo da Lena d’Água? Se ainda não ouviram, oiçam, que é ótimo! E até tem uma música sobre o festival. Juro! E isto não é product placement. Quer dizer, não vou jurar que ela não me tenha oferecido o CD e um bilhete para o concerto que vai dar no Teatro Villaret no próximo dia 4 de Junho. Mas isso não tem nada a ver. Onde é que eu ia? Ah, o Azerbaijão! Olha, sei lá. Não é boa, mas também não é má. A voz dele é bem fixe, e tem uma boa presença no palco. Bom, vou buscar o cão à rua.

Classificação final: 7.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 51%

França

Bilal Hassani, “Roi”

Bilal Hassani, com “Roi”, é o concorrente não binário desta edição. Canta em inglês e em francês ao mesmo tempo. Quer dizer, não é o mesmo tempo mesmo, não é? É umas partes em inglês e outras em francês. É mais um hino de afirmação e de orgulho, emocionante por vezes. Em palco estão também uma rapariga plus size — ou gorda, como dizem as pessoas sem respeito pelos outros — e uma rapariga surda-muda. Lá atrás, a música aparece traduzida para língua gestual. Fala de coroas, que isso percebi, que o gesto é muito óbvio. “Quando sonho sou um rei”, diz ele. Mas depois no fim diz que é uma rainha. Olhem, não percebo nada destes miúdos de agora. Estou a brincar. Estou é a fazer pouco das pessoas preconceituosas. Estamos em 2019, saiam das vossas cavernas, se fazem favor.

Classificação final: 14º lugar
Classificação de Conan Osiris: 39%

Itália

Mahmood, “Soldi”

Chega a vez de Mahmood, filho de pai egípcio e de mãe italiana, que vem cantar “Soldi”, que em italiano quer dizer dinheiro. Cantou em italiano, com uns versos em árabe. Mas não ficou mau ambiente, pelo contrário. As pessoas gostaram mesmo. Eu tive sentimentos mistos. Ensinaram-me em pequeno que é ordinaríssimo falar de dinheiro. Ainda que seja, de facto, a única coisa que se leva desta vida. O rapaz é giro que se farta, assim com ar de mau, que é uma linha que faz sempre muito sucesso. Já da música, não percebi nada. Felizmente, tinha legendas. Mas eles batiam palmas, e eu adoro músicas com palmas! Por isso, gostei bastante. E o público passou-se. Ia ganhando, mas não ganhou, graças a Deus.

Classificação final: 2.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 56%

Sérvia

Nevena Bozovic, “Kruna”

Tenho de começar por dizer que Nevena Božović, que nos trouxe “Kruna”, é gira nas horas. Mas mesmo gira à séria. Olha, à sérvia, vá. Gostei mesmo muito. Cantou em sérvio e em inglês. Gostei mais das partes em sérvio, confesso, que pelo menos não se percebia o que ela estava a dizer. Estou a brincar. Ela é mesmo gira, pá. E grita maravilhosamente bem. A melodia é engraçada. Esteve muito bem. Nem sei como é que ficou tão mal classificada. Mas ficou.

Classificação final: 17.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 31%

Suíça

Luca Hanni, “She Got Me”

Chega-nos agora Luca Hänni com “She Got Me”, o representante do país onde Ricardo Salgado esconde parte do dinheiro que diz que já não tem. O resto estará em países que, pela sua localização do Oceano Pacífico, não podem concorrer à Eurovisão. Mas é uma questão de tempo, que a Austrália já cá canta. Literalmente. Ele também é giro. Mas, agora que penso nisso, todos os cantores e cantoras destas coisas são sempre giros. Por isso escusava de estar sempre a dizer que são giros. Bom, mal não faz. Não percebi em que língua estava a cantar porque os suíços falam, como se sabe, francês, alemão e italiano, qualquer uma delas pessimamente. Afinal, parece que foi em suíço, que é uma salganhada. Mas a música é gira. É animada. O público adorou. Ficou toda a gente passada, aos gritos e a saltar. Se calhar, como é das últimas músicas, já está tudo bêbedo. Ai, não, que eles não deixam levar álcool para dentro da arena. Bom, então já está tudo drogado, que a droga é mais fácil de esconder nas meias ou nas cuecas.

Classificação final: 4º lugar
Classificação de Conan Osiris: 28%

Austrália

Kate Miller-Heidke, “Zero Gravity”

E chega agora a vez de Kate Miller-Heidke, com “Zero Gravity”. Vou ter de confessar uma coisa: tenho uma irritação enorme com esta música, apesar de ser uma das preferidas. Elas cantam sobre estacas. E fazem assim uns trinados pseudo-operáticos. Se isto ganhasse, aí é que eu nunca mais via a Eurovisão. Nem nunca mais ia à Austrália. Não é que já alguma vez lá tenha ido, é só uma forma de dizer. A música é sobre o aquecimento global e a proteção do planeta. Já não há pachorra para essa conversa. Brinco, é um assunto muito sério, que andamos a lixar o planeta todo. Depois não digam que eu não avisei. Bom, mas vendo melhor, o efeito das estacas é de facto muito fixe. Se estão à espera que eu faça a gracinha de perguntar onde é que elas estariam sentadas, não contem comigo. Eu sou um gentleman, caraças.

Classificação final: 9.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 36%

Espanha

Miki, “La Venda”

E para o final ficou Miki, com “La Venda”. Apareceu dentro de uma casinha. Por esta altura, confesso que já me dói a cabeça. E como esta é a última, achei um bocado uma tortura. Mas posso ser só eu. Era mexida, e assim em espanhol. Também tem um robot. Eles saltam e gritam que se fartam. Se tivessem sido os primeiros, acho que eu próprio me poria aos saltos, mas agora só quero é que eles se lixem. Peço imensa desculpa aos artistas. Mas pelo menos sou sincero, não sou cínico como certas pessoas. Olhem, como o Malato e o Galopim que foram cantar e dançar para a bancada dos comentadores espanhóis. Estou a brincar, adoro esse espírito! E os espanhóis sempre serão os nuestros hermanos. Só é pena a música ser uma merda.

Classificação final: 22.º lugar
Classificação de Conan Osiris: 7%

Pronto, já está tudo.

Enquanto pela Europa fora as pessoas se agarram aos telemóveis (ai, pronto, agora lembrei-me outra vez do Conan), no palco há um intermezzo. Vêm vários participantes de edições anteriores cantar as músicas uns dos outros. Começou a Conchita, vestida de coirão mas de barba, a cantar a música de um tipo todo grosso da Suécia, depois uma boazona cantar a música de uma velha e a velha a cantar a música da gaja que ganhou o ano passado. Estou a brincar, eu nunca me referiria a ninguém nestes termos. Façam favor de esquecer esta parte.

Depois, os quatro juntaram-se a Gali Atari para cantarem todos o maior sucesso de sempre de Israel na Eurovisão: “Hallelujah”. Quer dizer, eles disseram que era a Gali Atari, a mim pareceu-me a Margarida Mercês de Melo. Pode muito bem ser, que ela já apresentou aquilo uma data de vezes. A mim não me enganam.

E aproxima-se agora o momento mais esperado da noite, que este ano não é saber-se quem ganhou, mas sim a atuação de Madonna. A Rainha da Pop apresenta-se nos seguintes preparos: com uma pala no olho, e vestida de nazarena, mas de minissaia. Que chique…

Consolou os vinte cinco futuros perdedores da noite dizendo que já ganharam todos. Realmente, as pessoas ricas e bem-sucedidas só dizem disparates. Mas foi emocionante. É o poder da música. Madonna acaba a ensaiar todos os concorrentes da noite a cantarem em coro um verso de uma letra dela. Ainda pensei que também fosse fazê-los dizer os números das votações assim com paminhas no meio, como fazem no programa do Goucha, mas não. É dar-lhe mais um ano ou dois a viver em Portugal, que vão ver.

Ato contínuo, Netta apresentou uma música do seu novo CD, chamada Nana Banana. Queria dizer que a música é uma merda, mas já escrevi merda para me referir à música do concorrente espanhol e não quero usar duas vezes merda no mesmo artigo, que depois a minha Mãe liga-me a chatear-me a cabeça, a dizer que escuso de ser ordinário, que não preciso de dizer palavrões para ter graça. Por isso, direi apenas que não adorei.

Gostava de saltar a parte da atuação de Madonna. Gostava eu e os fãs de Madonna com quem já falei antes de escrever estas linhas. Mas teve, segundo um especialista, o mérito de ser a pior apresentação televisiva da cantora norte-americana. Eu, por acaso, gostei de vê-la a descer as escadas com bastante cuidado, que ela já se estampou umas poucas de vezes em palco e não está para isso. É com certeza o treino com a calçada portuguesa. Que é uma coisa que parece sabão, sobretudo quando chove. Odeio calçada portuguesa. Não percebo este fascínio que os lisboetas têm com pedrinhas. Nós na Holanda pomos tijolos no chão, como pertence. E mais para mais, é tudo a direito. Quando aparecer um candidato à Câmara de Lisboa que prometa arrancar isto tudo, terá o meu voto. Isso e mandar tirar todas as marquises ilegais que fazem a maior parte dos prédios de Lisboa dos anos 60, 70 e 80, já de si sinistros, uma coisa que parece que estamos na Bósnia. Bom, mas perco-me. Dizia eu que adorei Madonna a descer as escadas e também não desgostei das partes em que fez playback, numa homenagem às dobragens das telenovelas mexicanas. Foi bonito. Cantou Like a Prayer e mais duas músicas do CD novo. E depois foi-se embora.

Nisto, fecharam as votações.

Quem deu um baile à Madonna com a sua prestação foi Inês Lopes Gonçalves, que foi a primeira a anunciar as votações, uma simpatia que fazem sempre ao país anfitrião do ano anterior. E ficou desvendado o mistério do vestido. Inês levou uma t-shirt com a cara de Conan Osiris. E, com isto, conseguiu a proeza que nem o próprio conseguiu: levar Conan à final da Eurovisão. Que era onde ele merecia estar.

E, vai daí, anunciou sorridente os doze pontos que Portugal deu à Holanda.

E deu muito bem, que foi de facto a Holanda que levou para casa aquele microfone de cristal que eles dão ao vencedor.

Parabéns à Holanda, parabéns a Duncan Laurence!

E para o ano lá estarei, em Amesterdão (que É a capital da Holanda, Malato).

E se o Sporting for campeão, então vai ser mesmo perfeito.

Beijinhos.

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