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epaselect epa12084598 Newly elected Pope Leo XIV, Cardinal Robert Francis Prevost from the USA, greets faithfuls from the central loggia of Saint Peter's Basilica, Vatican City, 08 May 2025.  EPA/FABIO FRUSTACI
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▲Considerado um moderado com algumas tendências progressistas e uma figura conciliatória no Vaticano, o novo líder da Igreja Católica é o primeiro norte-americano a ocupar o cargo

FABIO FRUSTACI/EPA

▲Considerado um moderado com algumas tendências progressistas e uma figura conciliatória no Vaticano, o novo líder da Igreja Católica é o primeiro norte-americano a ocupar o cargo

FABIO FRUSTACI/EPA

A favor da imigração, crítico de JD Vance e procura a paz. Como o novo Papa pode gerir a política externa do Vaticano

Reservado, Leão XIV nunca deixou claro que rumo vai o Vaticano tomar tomar na política internacional. Mas Papa já subscreveu críticas a JD Vance, defendeu imigrantes e solidarizou-se com a Ucrânia.

“Que a paz esteja com todos vocês. Queria que esta saudação de paz entrasse no vosso coração e chegasse a todos, onde quer que estejam, a todos os povos na Terra inteira, que a paz esteja convosco.” Este é um excerto do discurso desta quinta-feira do Papa Leão XIV e mostra um dos objetivos novo líder da Igreja Católica: ajudar a alcançar a paz num mundo envolto em guerras. Como é habitual, o pontífice desempenhará um papel fundamental na política externa e Robert Francis Prevost não será exceção.

De natureza reservada, o contributo que o Papa Leão XIV dará ainda é difícil de precisar. Considerado um moderado com algumas tendências progressistas e uma figura conciliatória no Vaticano, o novo líder da Igreja Católica é o primeiro norte-americano a ocupar o cargo. No entanto, o local de nascimento não quer dizer muito neste caso, uma vez que Robert Francis Prevost viveu no Peru desde os 30 anos (tem mesmo nacionalidade peruana) e tem ascendência espanhola e francesa. O jornal La Repubblica designou-o como o “Papa [norte] americano menos americano de todos” não só pela sua trajetória de vida, como também pelo seu estilo.

Nos Estados Unidos da América (EUA), o Presidente Donald Trump saudou a escolha do pontífice. Na Truth Social, o chefe de Estado escreveu que é uma “honra” que o primeiro Papa seja norte-americano. “Que excitação e que grande honra para o nosso país”, celebrou. A administração Trump nunca escondeu que quis influenciar quem lideraria a Igreja Católica nos próximos anos. O vice-presidente, JD Vance, é católico e gostaria de ter um aliado ideológico no Vaticano.

No entanto, isso não deverá acontecer com o novo Papa. Todos os indícios parecem apontar para que o novo pontífice não vá apoiar as causas mais conservadoras defendidas pela administração norte-americana. Na sua conta do X, Robert Francis Prevost republicou recentemente dois artigos de opinião, nos quais se criticava diretamente JD Vance. Um desses textos denunciava as políticas migratórias adotadas pela presidência Trump.

Os sinais ainda não são claros e há várias dúvidas sobre o posicionamento do Leão XIV em várias questões internacionais, como a guerra em Gaza ou na Ucrânia. Porém, o Papa Francisco era bastante próximo do novo pontífice; foi, aliás, Francisco quem o nomeou como cardeal. Não é, por isso, expectável uma rutura completa, apesar das possíveis diferenças no estilo e na forma de comunicar.

Defensor do imigrantes e contra a polarização política

As raras intervenções públicas de Robert Francis Prevost dão poucas pistas sobre o que vai defender em concreto. No entanto, há um tópico que, tal como Francisco, Leão XIV dá grande importância: a imigração. Na sua conta do X, republicou uma mensagem do arcebispo de Chicago, Blase Joseph Cupich, que criticou a política de separação de crianças que Donald Trump adotou durante o primeiro mandato.

Além disso, também fez questão de divulgar iniciativas de acolhimento de imigrantes venezuelanos no Peru, onde era arcebispo-bispo Emérito em Chiclayo, uma cidade no norte do país sul-americano. No X, em agosto de 2018, publicou um crowdfunding da Conferência Episcopal Peruana a “favor dos migrantes que deixaram as suas terras de origem em situações de emergência”. O New York Times subscreve que o papa Leão XIV “apoiou os imigrantes venezuelanos” no Peru e visitou “comunidades distantes” no país.

Tendo em conta todos estes sinais, o novo Papa deverá renovar uma forte mensagem de apoio aos refugiados e aos imigrantes, o que choca com os posicionamentos adotados pela administração Trump nesta temática. No X, Robert Francis Prevost republicou ainda uma crítica à reunião entre o Presidente norte-americano e o seu homólogo do El Salvador, Nayib Bukele, sobre o cidadão deportado por engano para aquele país da América Central.

Com o mesmo tom crítico, Leão XIV, numa entrevista citada pelo La Croix Internacional, também condenou a atual polarização política. “Manter unidade na diversidade é um grande desafio. Especialmente quando a polarização se tornou o modelo de sociedade que, em vez de procurar unidade como um princípio fundamental, passa de um extremo para o outro”, afirmou o Papa Leão XIV, ressalvando, no entanto, que não se deve confundir unidade com uniformidade ou se deve abraçar a diversidade sem ordem. Estas declarações vão em linha com a sua postura mais moderada pela qual é conhecido.

"Manter unidade na diversidade é um grande desafio. Especialmente quando a polarização se tornou o modelo de sociedade que, em vez de procurar unidade como um princípio fundamental, passa de um extremo para o outro"
Papa Leão XIV

Os pontos de interrogação, a Ucrânia e a personalidade unificadora

Pouco interventivo, Leão XIV tentou não pronunciar-se diretamente sobre vários tópicos de política externa. Francisco, por exemplo, prestava grande atenção à guerra na Faixa de Gaza, telefonando quase diariamente à paróquia do enclave palestiniano. No conflito da Ucrânia, o antigo Papa procurar sempre a “paz”, mas irritou por vezes os ucranianos com algumas declarações que foram interpretadas como pró-russas. No Sudão, o ex-líder da Igreja Católica também fazia vários apelos à paz.

Sobre o novo pontífice, há poucos detalhes sobre como vai agir perante o momento conturbado que vive o mundo. No entanto, na sua conta do X, Leão XIV republicou vários posts nos primeiros tempos da guerra da Ucrânia. Até pareceu lamentar um bombardeamento russo contra o escritório da Cáritas em Mariupol, que causou sete vítimas mortais em março de 2022.

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As guerras serão um desafio para o pontífice e o Vaticano deverá continuar a desempenhar um papel nos bastidores para tentar resolver conflitos. No seu discurso, Leão XIV pediu a Deus que ajude a Humanidade a “construir pontes com diálogo, encontro, unindo-nos todos para sermos um só povo sempre em paz”.

E não é só isso. Como ficou patente nas suas críticas à polarização, Leão XIV parece ser alguém contra o autoritarismo e ideologias mais radicais. Os cardeais parecem ter visto isso em Leão XIV. Como escreve o Crux, a maioria do conclave queria um “estadista, alguém que possa enfrentar no palco global Donald Trumps, Vladimir Putins e Xi Jinpings deste mundo”.

A caracterização do “americano menos americano” não é à toa e ajudou a consolidar esse estatuto de “estadista” do novo Papa. Leão XIV tem dupla nacionalidade, viveu no Peru e em Itália, fala seis línguas (uma das quais português) e é discreto. Essas características podem ter sido, como continua o Crux, uma prova da sua preparação para o cargo. “A sua experiência global é positiva e a sua personalidade reservada e consensual pode ajudá-lo na arte da diplomacia.”

Um Papa moderado, consensual e com algumas posições progressistas. Ainda que não sejam conhecidas muitas das posições na política externa de Leão XIV — nem a que assuntos dará importância —, o Papa parece combinar uma capacidade única para fazer pontes, continuando com o legado de Francisco. Esta foi a personalidade que os cardeais consideraram ser a mais adequada num mundo cada vez mais hostil.

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