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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A pandemia, a extrema-direita e o pequeno almoço: 16 perguntas rápidas a Ricardo Araújo Pereira /premium

Regressou às gravações com público na plateia, o que quer dizer que o distanciamento vai fraquejando. Hugo van der Ding aproveitou e lançou um questionário ao humorista. Este é o resultado.

É preciso esclarecer que “Isto é Gozar com Quem Trabalha”, o programa que Ricardo Araújo Pereira assina semanalmente na SIC, com a sua equipa de humoristas e argumentistas, é gravado. E costuma ser gravado perante aquilo que os anglo-saxónicos chamam uma “live studio audience” e que em português é um mais ligeiro “público”. Graças à pandemia, essa graça teve que parar, tendo sido retomada apenas no último domingo, dia 7 de junho.

Ora quando soube que o distanciamento social de RAP já não é o que era, pensei “vou chegar-me perto dele”. E assim aconteceu: enviei-lhe um email. Mas foi um email com uma série de perguntas. E desculpem, mas um email enviado a uma celebridade é chegar muito perto, ainda que RAP diga que não é uma celebridade… está bem.

Se querem saber a verdade, RAP não respondeu a todas as minhas perguntas, provavelmente pela mesma razão que não respondeu antes do programa ter sido transmitido — não teve tempo (de certeza que o problema não foi meu). Mas respondeu a algumas (enviei muitas, tal como nas viagens levo sempre meias a mais) e é esse questionário que aqui vos deixo, porque talvez tenha alguma utilidade e porque finalmente posso juntar estes dois conjuntos de iniciais no mesmo texto: HVDD e RAP. Pronto, já está.

1Olá, Ricardo. Sem querer começar pela sua aparição em tronco nu no “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, vamos começar pela sua aparição em tronco nu no “Isto É Gozar Com Quem Trabalha2”. Com que outras revelações poderemos contar neste regresso às gravações já com público?
Nenhumas, não se preocupe. Estarei completamente vestido.

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2Deixando para trás esse tema, sem verdadeiramente o deixar: numa altura em que todos os portugueses se tornaram (ou reforçaram a sua natureza de) alcoólicos funcionais e engordaram entre quinze a vinte quilos, não tem medo que a sua imagem física possa criar um afastamento do público, uma espécie de figura inacessível?
A única coisa em que o público tem interesse é na minha eventual capacidade de o fazer rir. De resto, até posso aparecer pintado de cor-de-rosa: não interessa.

3 Abandonando então definitivamente este assunto: qual o seu segredo? Um regime alimentar especial? Um personal trainer? Um ginásio em casa? As três coisas?
Não é propriamente um segredo. Jogo (os meus treinadores chamam àquilo jogar. É um eufemismo para levar nas ventas) kickbox todos os dias. Se não o fizer, tendo em conta que sou um alarve, no espaço de um mês fico a pesar 100 quilos. Já aconteceu. Parecia um novilho da ganadaria do dr. Brito Pais.

Jogo (os meus treinadores chamam àquilo jogar. É um eufemismo para levar nas ventas) kickbox todos os dias. Se não o fizer, tendo em conta que sou um alarve, no espaço de um mês fico a pesar 100 quilos. Já aconteceu. Parecia um novilho da ganadaria do dr. Brito Pais.

4 Seria interessante saber como era o ambiente nas gravações do programa durante os tempos tão particulares de pandemia que exigiam tantos cuidados excecionais. Porém, não lhe vou fazer essa pergunta. Prefiro antes levá-lo a esse momento em que se apercebeu de que este vírus não era “mais uma chatice lá na Ásia”, mas uma seríssima ameaça à escala global. Qual foi o seu estado de espírito? Catastrofista? Cético? Expectante?
Primeiro, supus que fosse mais um caso do rapaz que gritou pandemia. A comunicação social também tinha gritado pandemia na altura da doença das vacas loucas, da gripe das aves e da gripe suína. Quando percebi que desta vez era mesmo a sério, fui ficando mais ou menos preocupado consoante a OMS dava indicações mais ou menos preocupantes: OMS desaconselha uso generalizado de máscaras, OMS recomenda uso generalizado de máscaras; OMS diz que o vírus sobrevive nas superfícies, OMS diz que não há provas de que o vírus sobreviva nas superfícies; OMS avança que não vai haver segunda vaga, OMS avisa que é melhor prepararmo-nos para uma segunda vaga.

5 Sentiu alguma autocensura nos seus comentários nesses primeiros dias da chegada ao vírus à Europa e a Portugal?
Em momentos como este, o nosso primeiro instinto é pensar que o riso é uma reacção inadmissível. Passado algum tempo, percebemos que não só é admissível como é capaz de ser necessária. Todos já experimentámos essa pequena operação interior em que rir de determinado problema o torna mais pequeno, nem que seja apenas por um segundo. O problema é que há pessoas que acham que não têm o direito de aliviar um bocadinho da carga. Que têm o dever de suportar todo o peso do problema. Não é o meu caso. Não tenho assim tanta força.

6 Talvez por cansaço noticioso, o foco da maior parte do mundo (e dos pândegos que hoje todos somos nas redes sociais) transferiu-se rapidamente do drama dos números para a neurose do confinamento. Concorda com a frase que li numa parede “a romantização da quarentena é privilégio de classe”?
Sim. Em França, alguns escritores publicaram textos sobre uma espécie de spleen do confinamento, em que procuravam encontrar o lado positivo da quarentena. Era aborrecido, mas tinham-se tornado mais contemplativos e tal. Sempre passeavam nos seus jardins, ou passavam algum tempo à janela, a ver o mar. Imagino que quem vive num T2 na Arrentela não tenha muito tempo para neuroses melancólicas. Talvez esteja mais preocupado em saber se terá emprego para a semana.

7 E com a frase da guru dos cosméticos, Helena Rubinstein: “Não há mulheres feias, há mulheres preguiçosas”?
Não sei o suficiente de cosmética para avaliar.

Não fiz [o teste à Covid]. Mas conheço quem tenha feito e parece que é desagradável. Dá a sensação de que nos estão a enfiar a zaragatoa até ao hipotálamo.

8 E com a frase de Alexandre O’Neill: “Há mar e mar, há ir e voltar”?
Concordo com todas as frases de Alexandre O’Neill. Especialmente com “ó Portugal, se fosses só três sílabas / de plástico, que era mais barato”.

9 As maiores ameaças chegam-nos hoje pela mão de políticos que oscilam entre o perigoso e o ridículo. Reconhece a contribuição do humor para uma certa descredibilização do establishment político? Dos velhos políticos? Dos velhos partidos? Do tal secar do pântano com os resultados que estão à vista?
Não me parece que o humor político contribua para a descredibilização da política. Assim como o humor sobre a linguagem não contribui para a descredibilização da gramática. Parece-me muito mais provável que quem contribui para a descredibilização da política sejam as pessoas que fazem política de um modo que a descredibiliza.

10 Já fez o teste da Covid? Gostou? Achou médio? E, se me permite uma pergunta mais pessoal, qual foi o resultado?
Não fiz. Mas conheço quem tenha feito e parece que é desagradável. Dá a sensação de que nos estão a enfiar a zaragatoa até ao hipotálamo.

11 A extrema-direita em Portugal, sabemos bem, está a saltar das tocas como coelhos bravos espantados por furões, prática proibida, mas muito usada por caçadores. Como vê a dicotomia entre o “não falar neles para não lhes dar palco” e “falar muito neles para os denunciar”?
Não falar neles para não lhes dar palco parece-me uma estratégia tão vencedora como, durante um incêndio florestal, não falar do fogo para não lhe dar ânimo. Eles estão na Assembleia da República mas, se não falarmos deles, ficam sem palco. Então está bem.

12 Sendo o humorista mais importante e influente da sua geração, acontece-lhe por vezes acordar de manhã, olhar-se no espelho enquanto lava os dentes e pensar: “Que giro, sou o humorista mais importante e influente da minha geração!”? Ou nunca pensa nisso?
Garanto-lhe que isso nunca me ocorre. O facto de não sentir que seja verdade também ajuda.

13 E depois desta pergunta, vai passar a pensar?
Não. Sabe, há pessoas que se enervam por eu não me elogiar. Devo dizer que não o faria mesmo que achasse que havia motivo para isso. No outro dia ouvi um artista referir-se ao seu próprio trabalho como irrepreensível. Parece que há 7 mil milhões de pessoas no mundo. A única que eu ouvi a dizer que o trabalho daquele artista era irrepreensível foi, curiosamente, aquele artista. É um bocado triste. A minha posição é a seguinte: se o Leonardo da Vinci andasse sempre a dizer que era o maior, eu não acharia muito bonito. E era verdade, note. Ele era realmente o maior. Mas, ó Leonardo, já se ouviu, pá. Sim senhor, és muito bom. Já sabemos. Quando não somos o Leonardo da Vinci, além de feio é também ridículo.

Não falar neles [partidos de extrema-direita] para não lhes dar palco parece-me uma estratégia tão vencedora como, durante um incêndio florestal, não falar do fogo para não lhe dar ânimo. Eles estão na Assembleia da República mas, se não falarmos deles, ficam sem palco. Então está bem.

14 Tenho imenso interesse em saber quem são as suas grandes referências no humor. Mas acabei de ler a resposta que deu há uns anos numa entrevista, pelo que não irei queimar a minha quota de perguntas com essa. Quero antes saber o que tomou hoje ao pequeno-almoço.
O costume. Pão, ovos e assim.

15 Se tivesse de escolher, com uma navalha de ponta-e-mola apontada ao pescoço, uma citação qualquer para tatuar nas costas, qual seria?
E pluribus unum.

16 Acabo com a pergunta por que começam todos os maus jornalistas: quem é o Ricardo Araújo Pereira? Não precisa de responder, obviamente.
Agradeço. Até porque não sei a resposta.

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