A quarta candidatura de João Ferreira à presidência da Câmara de Lisboa pôs o comunista à prova como nenhuma das três anteriores. Desta feita, entra em período eleitoral após quatro anos de oposição a uma liderança camarária de direita e não liderada pelo PS. A situação seria menos dramática se Alexandra Leitão não tivesse proposto a João Ferreira o segundo lugar na sua lista, ou seja, uma potencial vice-presidência da câmara. O comunista recusou a oferta e viu a esquerda toda cair-lhe em cima, desde socialistas a bloquistas.
A perspetiva de uma reedição da grande coligação de esquerda na capital, inspirada na eleição de Jorge Sampaio em 1995, caiu por terra. Seja por convicção ou como estratégia eleitoral, João Ferreira teve de construir uma campanha à volta da ideia de que, em Lisboa, PS e PSD estão mais próximos do que a CDU dos socialistas. A distinção que o candidato à capital faz entre Moedas e Leitão é subtil: retrata o primeiro como um responsável pelo agravamento do legado, já por si mau, deixado pelos antecessores da segunda.
Para se apresentar como alternativa capaz de romper com esta dicotomia, contou com o empurrão da ERC, que impediu a realização de um debate frente-a-frente, entre os candidatos do PS e PSD, na SIC. O próprio João Ferreira tem destacado a importância desse “momento fundamental” para as semanas de campanha que se seguiram e o Observador pôde constatar nas ruas o efeito da presença do comunista no debate. Os elogios à prestação e à preparação do comunista fazem-se ouvir, mas poderão não servir de consolo se um aumento de votação da CDU em Lisboa coincidir com mais quatro anos de Moedas.
▲ Com a cabeça de lista à Assembleia Municipal, Sofia Lisboa, e o Secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo
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“Posso-lhe oferecer um panfleto da CDU?”
A abordagem de João Ferreira nas ruas não é propriamente original. “Posso-lhe oferecer um panfleto da CDU?” É a deixa preferida do vereador municipal que anda sempre com umas dezenas de panfletos com o programa eleitoral dos comunistas debaixo do braço. Uma foto da sua cara, em grande plano, cobre a parte de fora do papel dobrado, que lista algumas das principais propostas. “Bonito!”, elogia uma senhora idosa, numa esplanada da Avenida 5 de Outubro. “Mas tem melhores razões para votar na CDU lá dentro”, responde João Ferreira.
O veterano vereador municipal é reconhecido na rua e frequentemente interpelado por mulheres que apreciam a sua aparência, porém, nem sempre tem a espontaneidade exigida. Muitas vezes João Ferreira procura não forçar o início da conversa com os lisboetas a quem distribuiu panfletos, deixando para eles esse primeiro passo. “Gostei muito de si nos debates”, ouviu múltiplas vezes o candidato, que via nessa deixa uma abertura para a pergunta: “Já não estava convencido?”.
Com o aproximar do dia 12, durante a segunda semana de campanha, começou a dizer a quem encontrava que “temos de dar a volta à cidade”, procurando fazer surgir do outro lado uma opinião ou posição sobre os problemas de Lisboa. É a falar de problemas concretos que se encontra mais à vontade. Na resposta às inquietações dos munícipes, João Ferreira encarna a postura assertiva que foi possível ver nos debates, demorando-se a explicar cada decisão da Câmara com detalhe para fazer o seu ponto valer.
Num contacto com comerciantes em São Domingos de Benfica, foi entrando porta-a-porta em estabelecimentos comerciais familiares que, ouviu-o da boca dos próprios, estão “a desaparecer”. De trás do balcão da Casa da Selva, na Estrada da Luz, Sandra Silva é muito vocal sobre a necessidade de resistência para continuar com o negócio do pai. Queixa-se da taxa administrativa aplicada aos comerciantes da freguesia e da EMEL, que diz atuar como “dona das ruas” e “prejudicar muito o comércio local”. É aí que João Ferreira aproveita a experiência para lembrar que, na campanha eleitoral anterior, Carlos Moedas prometeu reduzir em 50% o preço da tarifa de estacionamento para moradores. “Explorou ao máximo o sentimento contra a EMEL. Se a senhora diz mata, na altura, ele dizia esfola”, lembra.
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A diferença entre Moedas e Leitão
Para esta campanha, o número de eleição de João Ferreira tem sido o 270. Este número diz respeito aos milhões de que a Câmara de Lisboa “abdicou” com a devolução de IRS aos munícipes, ao longo dos últimos quatro anos. Esse é também um número que o comunista utiliza para mostrar a responsabilidade dos socialistas na governação de Moedas: foi aprovado pelo PS.
O alívio fiscal – 50% do qual, segundo João Ferreira, beneficia os 10% mais ricos da cidade – também é usado como prova que incrimina (por tabela) os socialistas pelo desinvestimento nalguns serviços ou infraestruturas do município. A requalificação das infraestruturas de escolas, dos bairros municipais ou a própria Carris são alguns dos exemplos usados. Neste aspeto fiscal, a postura dos socialistas na oposição serve para pressionar Alexandra Leitão. “O PS não disse o que vai fazer, apos já ter sido desfiado a tomar posição”, insistiu João Ferreira.
A falta de contrição dos socialistas em relação à viabilização de Moedas parece ser o nó górdio da distância intransponível entre as esquerdas em Lisboa. “O PS ainda não respondeu ao que é que correu mal nos últimos quatro anos em que deu a mão a Carlos Moedas”, afirmou o candidato da CDU, durante a campanha. Então, mas, para João Ferreira, existe uma real diferença entre as candidaturas de Moedas e Leitão? O candidato nunca respondeu abertamente à questão, mas existe uma nuance que separa o discurso sobre um e outro. Se, por um lado, a CDU está “em quase tudo, nos antípodas do que Carlos Moedas tem feito”, por outro, o programa dos comunistas foi escrito “em oposição a muito daquilo que o PS fez”. A diferença é pouca, mas “importa não desvalorizar isso”, vincou João Ferreira.
Além disso, Carlos Moedas é o presidente em funções e, por isso, o alvo a abater. Sendo que os eleitores nas autárquicas estão menos apegados ao posicionamento dos partidos no espetro esquerda-direita, João Ferreira apresenta-se como a alternativa aos social-democrata e tem dito que “não é comendo votos à CDU” que se ganha a Câmara de Lisboa. “É mesmo possível derrotar Moedas e a sua política, mas para isso é preciso convencer aqueles que lhe deram o voto.”
▲ João Ferreira no início de um percurso com as bicicletas municipais Gira, nos Olivais
Que vitória para a CDU?
“Estamos prontos para assumir todas as responsabilidades, incluindo a presidência da Câmara”, afirmava várias vezes quanto questionado sobre metas para a eleição. No entanto, João Ferreira acabaria por dar uma dica daquilo que poderá ser um objetivo mais realista: “O segundo ou terceiro vereador da CDU é muito mais importante do que o sexto ou sétimo do PS ou do PSD”. Ou seja, manter os dois vereadores comunistas na Câmara ou juntar a este mais um terceiro seria uma vitória. Garantir os dois eleitos no executivo têm sido o resultado obtido pela CDU nas três anteriores campanhas em Lisboa com João Ferreira à frente, registando votações a variar entre os 9,5 e 10,5%.
Contudo, o contexto nacional alterou-se e os 17 deputados que, em 2015, a CDU tinha no Parlamento, hoje são apenas cinco. A possibilidade de recolher 10% nas eleições para a Câmara da capital pode ser vista, neste momento, como a melhor aposta que os comunistas têm de atingir um bom resultado com repercussão nacional. As primeiras sondagens mostravam a CDU mais próxima dos 5%, mas a tendência tem sido crescer e, no mais recente estudo de opinião da TVI/CNN, até recuperava o terceiro lugar ao Chega com mais de 12%.
Ainda que a concorrência entre os dois seja indireta, essa disputa pelo pódio promete algum alarido, depois de Mascarenhas ter dito que seria “impensável” ficar atrás de João Ferreira – a maioria das sondagens mostra o Chega à frente com um intervalo substancial. Mas a questão mais definidora será quem fica em primeiro lugar no dia 12 e, no caso de ser Leitão, se esta poderá dar uma segunda oportunidade ao vereador municipal do PCP, concedendo-lhe pelouros.
Depois de parecer ter atingido um teto nos resultados suas três anteriores candidaturas a Lisboa, João Ferreira rejeitou passar para segundo plano numa candidatura da esquerda unida, mesmo quando isso podia significar maiores responsabilidades governativas. Afinal, Moedas e Leitão estão num empate técnico e os 10% (ou até 5%) serviriam, num cenário hipotético, para desempatar a corrida.
Com esta perspetiva, os apelos ao voto útil aumentaram ao mesmo ritmo que os ataques da restante esquerda contra João Ferreira. O candidato tem explicado nas ruas que votar no BE é, em primeiro lugar, “votar nos quatro vereadores do PS que estão a frente da candidata do Bloco”. João Ferreira quer ser o anfitrião de todos aqueles eleitores do Livre ou do BE que entenderam que estes fizeram um “branqueamento do PS” ao coligarem-se com os socialistas para vencer Carlos Moedas.